
Uma série de áudios vazados e divulgados pelo portal Hondurasgate e pelo jornal espanhol EL PAÍS abriu uma nova crise política na América Latina ao expor uma suposta articulação internacional envolvendo setores da extrema direita dos Estados Unidos, Israel, Honduras e Argentina para atacar governos progressistas da região.
As gravações, atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (JOH), mencionam planos de criação de uma estrutura de desinformação voltada principalmente contra a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro.
Segundo a investigação publicada pelo jornal espanhol EL PAÍS, Hernández teria articulado, a partir dos Estados Unidos, a criação de um site de notícias voltado à divulgação de conteúdos contra governos de esquerda latino-americanos.
Nos áudios, o ex-presidente hondurenho afirma que o projeto contaria com apoio de setores republicanos ligados ao presidente dos EUA, Donald Trump, além de apoio financeiro do presidente argentino Javier Milei.
Hernández afirma em uma das conversas que precisava de US$150 mil para montar um escritório em território norte-americano.
O objetivo seria operar uma “célula informativa” sediada nos EUA para evitar rastreamento em Honduras. Segundo o material divulgado, a estrutura teria como foco produzir conteúdos contra o ex-presidente hondurenho Manuel Zelaya, contra a ex-presidenta Xiomara Castro e também contra os governos do México e da Colômbia.
Em um dos trechos divulgados, Hernández diz ao atual presidente hondurenho, Nasry Asfura, que havia mantido uma conversa “muito boa” com Milei e que seria possível “fazer coisas grandes para toda a América Latina”.
O ex-presidente também afirma que seriam preparados “expedientes” — uma referência a dossiês ou campanhas de ataque político — contra México, Colômbia e integrantes da família Zelaya, grupo político ligado à esquerda hondurenha.
Os áudios também mencionam suposto apoio financeiro argentino. Segundo Hernández, Milei teria contribuído com US$350 mil para a operação. Em outra conversa atribuída ao ex-presidente hondurenho e à vice-presidente de Honduras, María Antonieta Mejía, ele fala na necessidade de reunir recursos “para atacar e extirpar o câncer da esquerda” em Honduras e em outros países latino-americanos.
O que é o “Hondurasgate”
O caso passou a ser chamado de “Hondurasgate” pelos veículos que divulgaram as gravações. O material teria sido extraído de aplicativos como WhatsApp, Signal e Telegram e reuniria conversas registradas entre janeiro e abril de 2026.
Segundo os responsáveis pela investigação, os 37 arquivos de áudio passaram por análise forense utilizando o sistema Phonexia Voice Inspector, ferramenta usada por agências de inteligência, bancos e forças de segurança em diversos países.
Até o momento, não há confirmação independente das autoridades judiciais sobre a autenticidade completa do material.
Ainda assim, o caso ganhou forte repercussão política por envolver acusações de ingerência internacional, financiamento político clandestino e articulação transnacional da extrema direita latino-americana.
A investigação também chama atenção pelo papel atribuído a Hernández, condenado nos Estados Unidos por narcotráfico.
O ex-presidente hondurenho governou o país entre 2014 e 2022 pelo Partido Nacional e foi sentenciado em 2024 a 45 anos de prisão por associação com narcotraficantes responsáveis pelo envio de centenas de toneladas de cocaína aos EUA.
Ele também foi acusado de receber propina do traficante mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán.
Segundo os áudios divulgados, o perdão concedido por Trump a Hernández não teria sido apenas um gesto político. Em um dos trechos vazados, o ex-presidente hondurenho afirma que “o dinheiro do perdão” teria vindo de “uma junta de rabinos e pessoas que apoiavam Israel”.
Em outro momento, Hernández diz que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teve participação direta na negociação que levou à sua libertação.
Sheinbaum denuncia rede internacional de fake news
A presidente mexicana reagiu publicamente ao escândalo durante sua entrevista coletiva matinal desta quarta-feira (7).
Sem citar diretamente nomes, Sheinbaum afirmou que existe uma rede internacional da extrema direita articulada entre grupos da Espanha, Estados Unidos e Argentina para disseminar campanhas de desinformação contra o governo mexicano.
A mandatária também fez referência indireta à presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, que está em visita ao México. Segundo Sheinbaum, esses grupos “não gostam do humanismo mexicano” e tentam construir campanhas de desgaste político contra governos progressistas.
“Poderão montar um escritório de campanhas sujas contra nosso governo em Honduras, com recursos de um povo amigo. Não vai haver impacto”, afirmou a presidente mexicana.
Sheinbaum acrescentou que o projeto político de seu governo não será abalado por operações de desinformação e reiterou a defesa da soberania mexicana diante de pressões externas.
Crise regional e tensão com Washington
As revelações aparecem em um momento de forte tensão diplomática entre México e Estados Unidos.
O governo Trump voltou a elevar a pressão sobre o país vizinho com acusações de vínculos entre autoridades mexicanas e o narcotráfico, além de reiterar ameaças de ações mais agressivas contra cartéis mexicanos.
O caso também ocorre em meio à deterioração das relações entre Washington e o governo colombiano de Gustavo Petro. Apesar de tentativas recentes de reaproximação diplomática, persistem divergências sobre políticas de segurança, combate ao narcotráfico e soberania regional.
A repercussão do Hondurasgate amplia o debate sobre operações de influência política, uso de redes digitais para campanhas de desinformação e o papel de governos e grupos internacionais na disputa geopolítica latino-americana.
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