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Av. Araceli, já!: Câmara propõe Camata para substituir Michelini como nome de importante avenida em Vitória (ES)

Intervenção do Mov. Olga Benario na Av. Dante Michelini

Após décadas de mobilização popular, um novo projeto na Câmara de Vitória ignora o clamor por homenagem à Araceli e propõe o nome de um político marcado por declarações contra comunidades negras.

Kayza Araújo e Ana Thompson | Espírito Santo


A discussão sobre o nome da Avenida Dante Michelini voltou ao centro do debate público em Vitória. Mas, em vez de representar um gesto de reparação histórica, a nova proposta apresentada na Câmara Municipal pode aprofundar a injustiça histórica. O Projeto de Lei nº 004/2026, de autoria do vereador Armandinho Fontoura (PL), propõe substituir o nome da via por Avenida Governador Gerson Camata. A iniciativa surge após a morte de Dante Brito Michelini, o “Dantinho”, um dos acusados pelo assassinato de Araceli Cabrera Crespo, em 1973. O que o projeto ignora é que o clamor popular não é recente, e tampouco aponta para Camata; aponta para Araceli.

Araceli tinha oito anos quando foi raptada, violentada e assassinada em 18 de maio de 1973. Seu corpo foi encontrado dias depois, em Vitória, em circunstâncias que chocaram o país. O crime nunca teve punição definitiva. Em 1991, os acusados foram absolvidos por falta de provas. Em 1993, o caso prescreveu.

Desde 2000, o dia 18 de maio, data de seu desaparecimento, tornou-se o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Araceli virou símbolo de uma luta nacional. Mas não virou nome da principal avenida da cidade onde foi morta.

A proposta Camata é controversa

A escolha de Gerson Camata como alternativa amplia a controvérsia. Ex-governador e senador por três mandatos, Camata tem trajetória política relevante no Espírito Santo. No entanto, também acumulou declarações públicas duramente criticadas por movimentos sociais.

Em 2007, durante debates no Senado sobre o programa Brasil Quilombola, que regulamentava a titulação de terras para comunidades remanescentes de quilombos, direito previsto na Constituição, Camata afirmou que a regularização poderia gerar uma “guerra racial” no país e classificou o direito como “falso”.

À época, lideranças da União dos Negros pela Igualdade (Unegro) e representantes quilombolas reagiram às falas, apontando que o discurso estimulava tensão racial e favorecia interesses de grandes proprietários de terra.

A proposta atual, portanto, cria uma ironia difícil de ignorar: substituir o nome ligado a um crime brutal contra uma criança por outro associado a declarações que deslegitimavam direitos históricos de comunidades negras. Em uma capital que ainda convive com desigualdades raciais profundas, a escolha carrega peso simbólico.

Memória ou conveniência?

A Avenida Dante Michelini foi batizada em 1967, antes do crime de 1973. Tecnicamente, o nome não homenageia nenhum dos acusados do caso Araceli. Ainda assim, o sobrenome Michelini tornou-se, para parte significativa da população, inseparável da memória do crime. O debate, portanto, não é jurídico, é moral e simbólico. Que memória a cidade quer eternizar na sua orla mais conhecida? A de uma elite política servil ao capital? Ou a de uma criança cuja morte transformou o 18 de maio em um marco nacional de proteção à infância?

Dar o nome de Araceli à avenida não reescreve o passado, não corrige a falha judicial, não apaga a dor da família. Mas reconhece publicamente que a cidade não esqueceu. Reconhece que a violência contra crianças não é apenas um dado estatístico, mas uma ferida histórica. E reconhece que o espaço urbano também é lugar de memória e de posicionamento.

Se a Câmara pretende rever o nome da avenida, a pergunta que fica é simples: Por que não Araceli?

A organização do Movimento Olga frente a essa realidade

Há meses, o Movimento Olga tem reivindicado que a história de Araceli ecoa não só como memória, mas também como denúncia e exigência: mais nenhuma mulher ou menina pode ser violada e assassinada pela omissão de um Estado que só atende aos interesses da classe economicamente dominante.

Com isso em mente, o Olga realizou ações diversas de intervenção política na Av. Dante Michelini e dialogou com diversos comerciantes e moradores da região sobre o caso e a impunidade burguesa. Além disso, a escolha da Av. Dante Michelini como local do ato Mulheres Vivas — em memória política ao Caso Araceli — partiu de uma proposta do Movimento Olga e foi consolidada em construção coletiva com outros movimentos feministas do ES. Esse ato foi uma mobilização nacional pelo fim do feminicídio e era evidente que a defesa da vida de mulheres e meninas do ES deveria acontecer na avenida que carrega esse nome manchado de sangue, com ponto de encontro no Viaduto Araceli. Isso foi resposta a uma dor profunda e histórica das mulheres capixabas.

Ainda, foi lançada a Rede Araceli de Enfrentamento à Violência contra Mulheres e Meninas em Novembro de 2025 pensando que é fundamental organizar de forma política, combativa e revolucionária todas as mulheres e meninas contra a violência estrutural e histórica que nos atravessa todos os dias. Assim, a Rede Araceli atua na realização de acolhimento e orientação de mulheres e meninas que não conseguem acessar seus direitos na rede pública, na criação de espaços de formação política, na mobilização das patrulhas do Olga, na organização de cursos de formação e geração de renda para mulheres, na agitação de atividades culturais, com a presença do Olga nas escolas, entre outras formas.

Araceli está presente na luta!


FONTES: A GAZETA ONLINE; VERMELHO.ORG; G1