
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, enfrenta a maior crise política desde que chegou ao poder, em 2024.
As eleições locais e regionais realizadas na última semana provocaram um terremoto no Partido Trabalhista, ampliaram o avanço da extrema direita liderada por Nigel Farage e desencadearam uma rebelião aberta dentro do governo.
Mais de 80 deputados trabalhistas já pediram a saída de Starmer, enquanto ministros passaram a discutir abertamente uma “transição organizada” de liderança.
O cenário se agravou nesta terça-feira (12), quando a ministra do Interior, Shabana Mahmood, pediu que Starmer considere estabelecer um cronograma para deixar o cargo e após a renúncia de duas integrantes do governo: Miatta Fahnbulleh e Jess Phillips.
Ambas acusaram o governo de falta de direção política, incapacidade de responder ao descontentamento social e ausência de ousadia diante da deterioração econômica e política do país.
Apesar da pressão, Starmer afirmou ao gabinete que o processo formal para removê-lo “não foi acionado” e que continuará governando. Aliados próximos tentaram demonstrar unidade pública, mas os relatos da imprensa britânica indicam um governo profundamente fragmentado, sem consenso sobre como conter a erosão eleitoral do partido trabalhista.
Derrota histórica expõe colapso da base tradicional trabalhista
O resultado das eleições mostrou um colapso simultâneo da base eleitoral do partido trabalhista tanto à direita quanto à esquerda. Em regiões operárias que apoiaram o Brexit, o partido perdeu terreno para o Reform UK, legenda nacional-populista liderada por Farage.
Já em centros urbanos progressistas, especialmente Londres, o Partido Verde avançou sobre antigos redutos trabalhistas.
O quadro foi particularmente devastador no País de Gales, território historicamente dominado pelo partido trabalhista há mais de um século. O partido sofreu uma derrota tão severa que a primeira-ministra galesa, Eluned Morgan, sequer conseguiu manter sua própria cadeira.
Na Escócia, o Partido Nacional Escocês (SNP) ampliou sua hegemonia, enquanto no norte da Inglaterra e Midlands o Reform UK conquistou regiões historicamente associadas ao chamado “muro vermelho” trabalhista.
Em cidades como Newcastle, o partido trabalhista perdeu votos quase igualmente para o Reform e para os Verdes, evidenciando uma fragmentação política crescente no Reino Unido.
Analistas britânicos apontam que o país entrou definitivamente em uma era multipartidária, rompendo a antiga bipolaridade entre trabalhistas e conservadores.
O próprio sistema eleitoral britânico passou a ser alvo de críticas. Como o modelo “first past the post” premia apenas o candidato mais votado em cada distrito, partidos conseguem conquistar cadeiras mesmo sem maioria absoluta do eleitorado, aprofundando distorções em um cenário cada vez mais pulverizado.
Farage consolida extrema direita como principal força de pressão
O grande vencedor político da eleição foi Nigel Farage. Aliado de Donald Trump e principal figura da extrema direita britânica, Farage classificou os resultados como “uma mudança verdadeiramente histórica na política britânica”.
O Reform UK avançou em antigos bastiões operários do partido trabalhista, conquistou territórios urbanos e terminou em segundo lugar nas eleições parlamentares do País de Gales.
Embora as projeções indiquem que o partido não superou o pico de votação alcançado em 2025, sua presença nacional se consolidou como um fator permanente de desestabilização do sistema político britânico.
Ainda assim, os conservadores tentam evitar a narrativa de colapso total. O partido liderado por Kemi Badenoch conseguiu vitórias importantes em distritos de Londres e preservou áreas estratégicas ameaçadas pelo Reform UK.
Isso impede, ao menos por enquanto, que Farage substitua completamente os conservadores como principal força da direita britânica.
Mesmo assim, o crescimento simultâneo da extrema direita e da esquerda verde aprofundou a crise do partido trabalhista.
A legenda passou a enfrentar uma disputa interna sobre qual direção política seguir: endurecer posições em temas como imigração para tentar recuperar eleitores conservadores da classe trabalhadora ou deslocar-se à esquerda para reconquistar jovens e progressistas atraídos pelos Verdes.
Rebelião interna amplia incerteza sobre futuro de Starmer
Dentro do governo, o ambiente é de forte instabilidade. Relatos da imprensa britânica descrevem ministros discutindo reservadamente maneiras de forçar a saída do premiê. Alguns defendem um cronograma negociado; outros cogitam desafiar diretamente sua liderança.
Entre os nomes observados como possíveis sucessores aparecem o secretário da Saúde, Wes Streeting, a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner e o prefeito de Manchester, Andy Burnham.
Nenhum deles, porém, avançou publicamente contra Starmer até agora.
O premiê tentou conter a crise concentrando a reunião ministerial desta terça-feira na guerra envolvendo o Irã e nos possíveis impactos econômicos do conflito. Mas nem isso conseguiu evitar novos atritos internos.
Segundo relatos divulgados pelo POLITICO, Wes Streeting afirmou ao gabinete que “liderar o país durante a crise no Irã não é suficiente por si só”, numa crítica indireta à tentativa de Starmer de utilizar o cenário internacional para reforçar sua autoridade.
Jess Phillips, ao anunciar sua renúncia, fez uma das críticas mais duras ao governo. Segundo ela, o desejo de Starmer de “evitar conflitos” impede o governo de construir um projeto político capaz de mobilizar a sociedade.
Phillips acusou o gabinete de cometer “erros catastróficos” e afirmou que o governo carece de “combatividade” diante das crises sociais e econômicas do país.
Impopularidade do premiê se torna problema estrutural
Mesmo que sobreviva politicamente no curto prazo, cresce dentro do partido trabalhista a percepção de que Starmer dificilmente liderará o partido nas próximas eleições gerais, previstas até 2029.
A combinação entre estagnação econômica, aumento do custo de vida, desgaste do governo e fragmentação eleitoral corroeu rapidamente a popularidade do primeiro-ministro.
O partido trabalhista, que retornou ao poder em 2024 prometendo estabilidade após anos de crise conservadora, agora enfrenta acusações de falta de direção política e incapacidade de oferecer respostas concretas às demandas sociais.
Ao mesmo tempo, a ascensão do Reform UK e dos Verdes revela um eleitorado cada vez mais desiludido com os partidos tradicionais britânicos.
A política do Reino Unido entra, assim, em uma nova fase de instabilidade, marcada pela erosão do antigo bipartidarismo e pela crescente disputa entre diferentes formas de populismo à direita e à esquerda.
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