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Banco Master, a maior fraude financeira da história do Brasil

Investigado por articular uma fraude financeira estimada em R$ 52 bilhões e deixar 1,6 milhão de lesados, o Banco Master e seu proprietário, Daniel Vorcaro, tornaram-se o centro de um dos maiores esquemas de pirâmide financeira do país.

Cadu Machado | Redação


BRASIL – Nos últimos meses, vimos um banco, até pouco tempo desconhecido, surgir no sistema financeiro e, logo depois, no noticiário nacional. O Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro (que está preso), foram apresentados pelo mercado como um caso de sucesso por terem multiplicado centenas de vezes seus patrimônios, disputando espaço com bancos tradicionais.

Vorcaro transformou o Master em uma das maiores emissoras de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do país, atraindo centenas de milhares de pessoas com promessas de rendimentos seguros e acima da média. Essa combinação aumentou em muito a captação de recursos da instituição financeira e consolidou o banco como um dos principais grupos capitalistas do mercado financeiro do Brasil.

Mas nos últimos meses, o Banco Master chegou aos noticiários criminais por ser alvo de investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e de análises do Banco Central, sendo apontado como centro de um dos maiores casos de “pirâmide financeira”.

As investigações apontam suspeitas de fraude, manipulação de dados contábeis e realizar operações financeiras para esconder a real situação do banco. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), o rombo financeiro do esquema chegou a R$ 52 bilhões, afetando diretamente 1,6 milhão de pessoas pelas fraudes.

A engenharia do golpe

Segundo as investigações, a “pirâmide financeira” do Banco Master funcionava a partir de três pilares: a venda de títulos ao público por rendimentos um pouco acima do mercado, para atrair investimentos sem levantar suspeitas; a compra de títulos com valores inflados, para esconder os prejuízos e a falta de fundos do banco; e a estruturação de toda a operação com base na cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que reduzia o risco de perdas caso o sistema caísse.

A base do esquema era a emissão e venda de títulos bancários (Certificados de Depósito Bancário – CDBs) com remuneração acima da praticada pelos grandes bancos. O CDB do Master chegou a pagar cerca de 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). 

Esse número pode parecer muito alto, mas não é bem assim. Por exemplo, quando a taxa Selic* está em 10% ao ano, um banco privado pode oferecer algo como 11% ao ano – uma diferença pequena, na prática. No entanto, em vez de dizer simplesmente que o título rende 11% ao ano, os bancos costumam apresentar essa rentabilidade como 110% do CDI, uma forma de comparação que parece mais vantajosa do que realmente é.

Na prática, um investimento de R$ 1 mil a 140% do CDI rende cerca de R$ 4 por mês, ou R$ 140 ao longo de um ano. Foi essa engenharia dos números que levou muita gente a investir nos CDBs do Master.

Mas o esquema não parava por aí. Apesar de essa forma de captação já ter cheiro de fraude, ela faz parte do funcionamento normal do mercado financeiro. Se esse tipo de prática fosse considerado crime, boa parte do sistema bancário teria que explicar suas próprias operações e muitos dos seus executivos estariam atrás das grades – o que não seria nada mal.

Mas o ponto central da fraude do Master estava na forma como os recursos eram aplicados e na estrutura de ativos financeiros que sustentava o crescimento do banco. Vorcaro utilizava o recurso captado com os CDBs para comprar grandes volumes de precatórios (títulos de dívidas judiciais do Estado), cujo valor de mercado depende de critérios de avaliação altamente variáveis, definidos, em última instância, pelas administradoras dos próprios títulos.

É aí que entra na história a administradora de fundos Reag Investimentos. Segundo as investigações, Vorcaro reunia uma grande quantidade de ativos, enquanto a Reag inflava esses valores para dar a impressão de que o Master tinha fundos suficientes para sustentar os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e manter o crescimento do esquema.

O fundador da Reag Investimentos é João Carlos Mansur, que também é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Como se não bastasse, o Banco Master ainda emprestava dinheiro a empresas de fachada, que, por sua vez, investiam nos títulos dos fundos da Reag, ajudando a inflar ainda mais o valor desses fundos.

A teia de Vorcaro

Com o avanço das investigações, o caso Banco Master passou a ser analisado não só pelo lado financeiro, mas também pelas relações de Vorcaro com a cúpula da política nacional. Segundo os investigadores, essa rede incluiria eventos, encontros e fóruns entre o mercado financeiro e parlamentares, governadores, ministros, etc. A estratégia de aproximação com figuras de poder teria facilitado o crescimento do grupo, na construção de influência e, segundo as investigações, na fiscalização de suas operações.

Com o avanço da Operação Compliance Zero e das investigações sobre o caso Banco Master, as relações políticas de Vorcaro evidenciaram uma rede de conexões que atravessa a política nacional e o sistema financeiro, chegando até o Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com as investigações e apurações jornalísticas, Vorcaro circulava nos ambientes da mais alta influência política e econômica, participando de fóruns empresariais e encontros institucionais, financiando viagens internacionais, festas e luxos para grandes figurões da burguesia brasileira.

Mensagens do celular de Vorcaro reveladas em investigações mostram o senador Ciro Nogueira (PP) como um dos políticos mais próximos do banqueiro, que se refere a ele como “um dos meus grandes amigos de vida”. Segundo apurações da Revista Piauí, Vorcaro financiava luxos do senador que, em contrapartida, teria atuado politicamente em benefício do Banco Master, incluindo articulações envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB) e a tentativa de aprovação da chamada “Emenda Master”, que elevaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Já o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), aparece em reportagens investigativas associado a viagens e encontros em que teria mantido contato com Vorcaro, inclusive em eventos no Brasil e no exterior. Apesar de não haver denúncia formal contra o parlamentar, nas últimas semanas seu envolvimento com Vorcaro tem aparecido em vários dos processos de investigação. O presidente do senado, Davi Alcolumbre (União Brasil) também aparece nas investigações.

Outro investigado é o senador Jaques Wagner (PT), alvo de recentes mandados de busca e apreensão. Segundo a PF, há suspeitas de interlocução com integrantes do grupo investigado em troca de favorecimento pessoal. No conjunto das investigações, nomes de ministros do STF e de familiares aparecem na lista de amigos de Vorcaro.

No caso de Alexandre de Moraes, um contrato de R$ 129 milhões foi firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O acordo previa parcelas mensais de R$ 3,6 milhões ao longo de 36 meses, por serviços jurídicos.

Já em relação a Dias Toffoli, investigações da Polícia Federal revelaram que fundos de investimento ligados a Daniel Vorcaro repassaram R$ 35 milhões ao Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro (PR), administrado pela família de Toffoli.

Também estão sendo investigados repasses que chegam a R$ 18 milhões do Banco Master e da JBS Consult Inteligência Tributária, entre agosto de 2024 e julho de 2025, que efetuou repasses que somam R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin de Carvalho Marques, advogado e filho do ministro do STF Cássio Nunes Marques.

Vorcaro também contou com dois grandes aliados no Poder Executivo. Durante as Eleições 2022, o empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado e sócio do banqueiro, repassou um total de R$ 5 milhões para financiar as campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Outros dois nomes ligados ao escândalo do Banco Master são Ibaneis Rocha (MDB), ex-governador do Distrito Federal, e Antônio Rueda, presidente da União Brasil. O primeiro é alvo de investigações que apontam que o Banco de Brasília (BRB), sob sua gestão, manteve operações e tentou intermediar a compra do Banco Master por cerca de R$ 2 bilhões, transação que acabou sendo vetada pelo Banco Central após identificar irregularidades. Já o segundo é investigado por atuar juridicamente em favor de Vorcaro, além de participar de articulações junto ao BRB e de fazer lobby em defesa do banqueiro.

Ponta do iceberg

O caso do Banco Master não pode ser tratado como um episódio isolado ou um “desvio” dentro do sistema. O que as investigações mostram é algo muito mais grave, a existência de uma verdadeira rede de relações entre o sistema financeiro, o Estado brasileiro e a política, que funciona de forma integrada e beneficia sempre os mesmos grupos.

Não se trata apenas de fraude bancária ou de decisões erradas. O que fica evidente é um modelo em que grandes bancos, figuras do mercado e o poder político se conectam de forma profunda e permanente, criando um ambiente em que os interesses dos mais ricos são defendidos com unhas e dentes pelas instituições públicas.

Enquanto isso, a burguesia e seus aliados seguem acumulando mais e mais poder e capital, protegidos por relações políticas, influência e dinheiro. O Banco Master não é uma exceção, é um retrato de como o capital e a burguesia operam no Brasil.

* A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central e usada como referência para os demais juros do país.

Matéria publicada na edição impressa nº 337 do jornal A Verdade