
O governo da Bolívia retirou, no último sábado (15), da grade de serviços da Empresa Nacional de Telecomunicações (Entel) os sinais dos canais internacionais teleSUR, sediado na Venezuela, e Russia Today (RT), emissora estatal da Rússia, em uma decisão que entidades jornalísticas do país classificaram como censura e ataque à liberdade de expressão, por restringir o acesso da população a fontes plurais de informação.
O anúncio da retirada foi feito pela Entel na quinta-feira (15), por meio de um comunicado direcionado aos usuários e ao público em geral.
No texto, a estatal informou que os canais deixariam de integrar a grade de seus serviços de televisão por fibra óptica (IPTV), televisão satelital (DTH) e do aplicativo Entel TV Smart, alegando “razões administrativas” para a decisão.
A notificação, no entanto, não apresentou esclarecimentos técnicos, contratuais ou regulatórios que detalhassem os fundamentos da medida. Limitou-se a informar a exclusão dos canais sem indicar critérios objetivos, instâncias decisórias ou qualquer justificativa adicional para a retirada.
Até o momento, a empresa estatal não divulgou novas explicações públicas nem respondeu aos questionamentos formulados por entidades jornalísticas e organizações de comunicação que contestaram a decisão.
Ao comentar a decisão da Entel, a presidenta da teleSUR, Patricia Villegas, afirmou que a retirada do canal da grade boliviana é “tão previsível quanto condenável” e sustentou que não há justificativas reais para a medida.
Em publicação nas redes sociais, Villegas afirmou que os argumentos apresentados pela estatal “não enganam ninguém” e manifestou solidariedade ao público boliviano. “Bolívia, você sabe, seguimos juntos”, disse Villegas.
A dirigente também lembrou que a teleSUR já havia sido retirada do ar no país em 2019, durante o governo de Jeanine Áñez, quando a Entel alegou inicialmente “problemas técnicos” e, posteriormente, uma suposta “reorganização da grade”.
À época, a emissora permaneceu fora do ar por cerca de um ano, até o retorno do sinal em novembro de 2020, já sob a presidência de Luis Arce.
A nova exclusão dos canais ocorre sob o governo do presidente Rodrigo Paz, que assumiu o comando do país no fim de 2025, encerrando o ciclo de governos do Movimento ao Socialismo (MAS). Durante a campanha e nos primeiros meses de mandato, Paz vinha sendo apresentado por setores da imprensa como um dirigente de perfil moderado, associado a uma agenda de conciliação institucional e normalização das relações políticas e econômicas do país.
A decisão da Entel provocou reação imediata de entidades jornalísticas e de comunicação da Bolívia. Em comunicado conjunto, a Associação de Correspondentes da Imprensa Internacional (ACPI) e a Associação Nacional de Jornalistas da Bolívia (ANPB) afirmaram que a justificativa apresentada pela estatal é insuficiente e que a ausência de explicações detalhadas “vulnera o direito das audiências a receber uma explicação séria, transparente e compatível com a responsabilidade que corresponde a uma empresa estatal”.
No texto, as entidades apontam que a argumentação oferecida tanto no comunicado oficial da Entel quanto por meio de seus canais de atendimento ao cliente “gera fundadas suspeitas de que se está diante de um ato de censura inaceitável e de uma vulneração à liberdade de expressão”.
ACPI e ANPB também alertam que esse tipo de decisão afeta diretamente o direito da população à informação e pode comprometer o debate público.
Segundo o comunicado, “o respeito à diversidade de vozes e a tolerância diante de posições distintas ou inclusive contrapostas constituem pilares fundamentais de qualquer sistema democrático”, princípios que, segundo as organizações, “estão reconhecidos e protegidos pela Constituição Política do Estado”.
As entidades advertiram ainda que “o silenciamento arbitrário de meios de comunicação e jornalistas pode desencadear uma espiral de consequências graves para a liberdade de expressão”, ao normalizar práticas de censura que “depois resultam difíceis ou inclusive impossíveis de reverter”.
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