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Bolsonaro: espelho rachado da democracia brasileira

Trajetória sem obra, política sem projeto. Este é Jair Bolsonaro (PL), com quase 4 décadas de vida pública sem entregar políticas estruturantes, reformas duradouras ou programas que tenham transformado o País.

A biografia parlamentar dele — marcada por discursos agressivos, exaltação da ditadura e projetos periféricos — nunca apontou para construção nacional, mas para permanente “disputa cultural” precária e de baixíssima densidade.

Governou como viveu e vive: à base de conflitos rebaixados, não de propostas, de olhar cuidado dos graves problemas brasileiros.

Sob qualquer ângulo que o ex-presidente for observado — se essa observação for séria e minimamente desapegada —, o resultado será trágico.

A que serviu Bolsonaro?

Bolsonaro serviu, paradoxalmente, para expor as rachaduras da democracia brasileira.

O governo dele tensionou os limites institucionais ao extremo e mostrou o quão vulneráveis ainda somos como Nação democrática:

  • Demonstrou que a máquina pública pode ser capturada para fins pessoais e ideológicos;
  • Revelou a fragilidade dos freios e contrapesos1 quando submetidos à pressão organizada;
  • Expôs a facilidade com que desinformação, abuso da fé e discurso de ódio podem corroer o debate público; e
  • Evidenciou a necessidade de blindar as Forças Armadas contra aventuras políticas.

Ao final, serviu de alerta: nossa democracia resiste, mas não está imune.

A que veio Bolsonaro?

Bolsonaro ascendeu com uma promessa: combater “tudo que está aí”. Deu-se o contrário. O governo dele:

  • Incentivou a captura ideológica da educação, da cultura e das relações exteriores;
  • Assistiu à explosão da violência política e ao desmonte das políticas ambientais;
  • Perdeu mais de 700 mil brasileiros na pandemia, entre negacionismo e sabotagem às vacinas; e
  • Aprofundou a militarização da política e politizou a própria caserna.

Não veio ou chegou para governar. Veio para confrontar. A gestão liderada por ele foi menos projeto de País e mais projeto de poder.

40 anos sem legado

É difícil identificar um marco histórico positivo. Não há reforma, programa, obra ou inovação administrativa associada ao nome do ex-presidente que tenha alterado estruturalmente a vida nacional. Bolsonaro deixou:

  • Economia claudicante, sustentada por medidas emergenciais temporárias;
  • Diplomacia isolada;
  • Reputação internacional desgastada; e
  • País dividido, emocional e politicamente.

O legado mais duradouro dele é, de forma negativa, ter mostrado como o sistema político pode ser manipulado para testar os limites da ordem constitucional.

Bolsonaro como sintoma, não como causa

O ex-presidente não criou o mal-estar democrático brasileiro. Canalizou-o.

A força política dele nasceu de caldo de frustrações, ressentimentos e percepções de abandono.

Ele surfou na antipolítica, na descrença e na radicalização estéril das redes digitais, produtora de falácias e de lideranças fake.

Por isso, mesmo em declínio jurídico e político, continua relevante como sintoma de país ferido por desigualdades e desconfianças históricas.

Que fazer com o alerta que ele deixou?

Se Bolsonaro serviu para revelar as fragilidades brasileiras, cabe agora decidir se esse alerta será ignorado ou convertido em maturidade democrática. É preciso:

  • Reforçar controles institucionais;
  • Regulamentar plataformas digitais;
  • Blindar as Forças Armadas do jogo político; e
  • Reconstruir a confiança pública na política e nos partidos.

Política e partido não são o problema. São a solução. Sem política, os problemas coletivos da sociedade não têm solução democrática. Sem partidos, esses problemas não são canalizados para, de forma organizada, debatê-los, entendê-los e, finalmente, resolvê-los.

A democracia brasileira sobreviveu, mas não sairá ilesa se nada for aprendido.

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1 Sistema de controle mútuo entre os poderes do Estado — Executivo, Legislativo e Judiciário — para evitar concentração de poder e prevenir abusos. Esse sistema garante que, embora cada poder seja independente e tenha suas funções, esses possam limitar e fiscalizar as ações uns dos outros, como no caso de o presidente vetar um projeto de lei, o Congresso derrubar o veto, ou o Judiciário declarar a lei inconstitucional.

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