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Bombas no Sertão: o Massacre do Sítio do Caldeirão

Em 11 de maio de 1937, policiais militares do Ceará e soldados do Exército Brasileiro assassinavam centenas de camponeses e romeiros no Massacre do Sítio do Caldeirão.

Localizada na zona rural do Crato, na região do Cariri, a comunidade do Sítio do Caldeirão se tornou um refúgio para sertanejos pobres, ex-escravizados e flagelados da seca. Liderada pelo beato José Lourenço, um protegido de Padre Cícero, a aldeia estabeleceu um modelo de organização comunal, baseado na solidariedade, no trabalho coletivo e na partilha igualitária da produção.

A comunidade do Caldeirão se tornou um estorvo para as elites agrárias, autoridades religiosas e o regime de Getúlio Vargas, que enxergavam sua experiência comunal como uma ameaça à ordem estabelecida.

Rotulado como um foco de “subversão comunista”, o Caldeirão foi destruído em uma operação militar autorizada pelo Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra. Estima-se que mais de 400 pessoas foram assassinadas durante a repressão.

O messianismo rústico

Entre o fim do período imperial e as primeiras décadas do regime republicano, o Brasil testemunhou o surgimento de uma série de movimentos sociorreligiosos de caráter messiânico. Esse fenômeno foi particularmente notável nas regiões mais isoladas do Nordeste, marcadas pelo flagelo da seca, pela pobreza extrema e pela concentração de terras nas mãos dos coronéis.

Buscando uma alternativa à ordem social vigente, muitos sertanejos se agrupavam em torno de lideranças místicas carismáticas — beatos, conselheiros e monges que consolavam e organizavam as massas anunciando o porvir de um mundo novo, mais justo e igualitário.

Conhecido como “messianismo rústico”, esse fenômeno costumava congregar misticismo, religiosidade popular e resistência contra a opressão do poder oligárquico. Reverenciados como profetas, os conselheiros e beatos frequentemente exortavam seus seguidores a ajudá-los na construção de comunidades alternativas, baseadas em princípios de solidariedade, irmandade e cooperação.

O exemplo mais emblemático desse fenômeno é a comunidade de Belo Monte, na cidade de Canudos, criada no fim do século 19 por Antônio Conselheiro. Canudos se tornou um refúgio para milhares de retirantes da seca, camponeses e ex-escravizados que fugiam da miséria, da fome e da opressão.

Além de irritar os coronéis, a comunidade de Canudos também desagradava a igreja e o regime republicano. O alto clero enxergava o catolicismo popular dos beatos do Sertão como uma “deturpação” de sua doutrina, ao passo que os republicanos achavam temerária a lealdade à monarquia professada por Antônio Conselheiro.

Assim, entre 1896 e 1897, o Exército Brasileiro conduziu uma série de expedições a fim de destruir o povoado. O último ataque mobilizou mais de 8.000 soldados, armados com canhões e metralhadoras, resultando na completa destruição de Canudos e no massacre de 25.000 pessoas.

José Lourenço e o Sítio Baixa Dantas

Um dos mais importantes líderes religiosos da tradição popular nordestina foi o beato José Lourenço. Nascido em Pilões, na Paraíba, ele era filho de ex-escravizados e cresceu sendo explorado nas fazendas da região. Aos 20 anos de idade, ele se mudou para Juazeiro do Norte, no Ceará, onde mais tarde se tornaria um beato do círculo de Padre Cícero.

Admirado pela vida austera, pelo fervor religioso e pela atuação junto às populações mais necessitadas, José Lourenço receberia a missão de criar uma comunidade religiosa para abrigar os flagelados e camponeses sem-terra enviados por Padre Cícero.

Para tocar o projeto, o beato arrendou o sítio Baixa Dantas, localizado na cidade do Crato, na região do Cariri, sul do Ceará. Ali, romeiros e camponeses ergueram um oásis, onde a terra era cultivada de forma coletiva e a produção era dividida de forma igualitária. Um modelo de organização comunitária autônomo e fraterno, rompendo com a lógica exploratória dos grandes proprietários da região.

As terras do Baixa Dantas foram invadidas por jagunços durante a Sedição de Juazeiro. Os sertanejos conseguiram reconstruir a comunidade, mas os ataques nunca cessaram. Atraindo a desconfiança das elites locais, o sítio era alvo constante de difamações e boatos.

Um episódio em especial serviria como combustível à campanha de demonização. Em 1921, o empresário Delmiro Gouveia presenteou Padre Cícero com um boi, que foi entregue aos cuidados de José Lourenço. Apelidado de “Boi Mansinho”, o animal era tratado pela comunidade com muito esmero. Os detratores de Lourenço espalharam então o boato de que os moradores do Baixa Dantas praticavam “adoração pagã” ao boi.

Os boatos irritaram a Igreja Católica, que já estava farta do culto popular construído em torno de Padre Cícero. A fim de contornar a situação, Floro Bartolomeu ordenou que o animal fosse abatido e que José Lourenço fosse preso. Foi necessária a intervenção do próprio Padre Cícero para que o beato deixasse a prisão.

O Sítio do Caldeirão

Em 1926, sob pressão dos latifundiários e da igreja, o proprietário do Sítio Baixa Dantas decidiu vender suas terras e expulsar os moradores da comunidade. Para abrigar os sertanejos despejados, Padre Cícero intermediou a concessão da Fazenda do Caldeirão dos Jesuítas, também localizada na área rural do Crato.

Sob a proteção de Padre Cícero, a comunidade cresceu e prosperou, recebendo retirantes, camponeses e romeiros. José Lourenço replicou o mesmo modelo de organização comunal que havia instituído no Sítio Baixa Dantas, marcado pela cooperação mútua e repartição igualitária da produção.

Os moradores do Caldeirão produziam quase tudo que necessitavam. Plantavam frutas, cereais e verduras, fabricavam machados, enxadas, foices, roupas e panelas. Os frutos do trabalho eram divididos conforme as necessidades de cada um e a produção excedente era comercializada com as comunidades externas.

O dinheiro proveniente das vendas era empregado na compra de remédios, querosene, insumos e ferramentas. Cada família tinha direito à sua própria casa e os órfãos eram criados como afilhados do beato. A fazenda também contava com sua igreja, um cemitério e um açude — tudo construído pelos próprios moradores.

Da mesma forma que ocorrera com Canudos no passado, a notícia de que existia um refúgio para os pobres nos arredores de Crato, com comida, água em abundância e abrigo para todos, começou a se difundir pela região. Durante a grande seca de 1932, a fazenda recebeu uma grande leva de retirantes, o que fez dobrar sua população. Em seu ápice, a comunidade do Caldeirão chegou a abrigar mais de 2.000 pessoas.

Testemunhando casos de trabalhadores que abandonaram suas ocupações árduas para ir morar na Fazenda do Caldeirão, os proprietários rurais começaram a se queixar. A comunidade religiosa se tornou um estorvo para a elite de Crato, sendo percebida como uma ameaça ao modelo de exploração dos camponeses nos latifúndios.

Embora fosse analfabeto e penitente, José Lourenço passou a ser rotulado como um perigoso líder comunista, que estaria interessado em articular uma insurreição contra as oligarquias regionais. Após a morte de Padre Cícero, protetor da comunidade, os ataques se tornaram cada vez mais incisivos, culminando, enfim, com uma ofensiva militar.

Comunidade do Sítio do Caldeirão.
Via Wikimedia Commons

O massacre

Em setembro de 1936, policiais militares do Ceará invadiram o povoado do Caldeirão atrás de José Lourenço. O beato conseguiu evitar os policiais, escondendo-se nas matas da Serra do Araripe. A polícia incendiou as casas, saqueou os bens e expulsou os moradores do local.

Os sertanejos, entretanto, retornaram para a fazenda aos poucos e começaram a reconstruir a comunidade. Algumas semanas depois, o governo cearense enviou um novo grupo de 11 policiais liderados pelo capitão José Bezerra para espionar a comunidade e procurar pelo beato.

Quando os policiais foram descobertos, entraram em confronto com os camponeses. O tumulto culminou na morte do capitão, de três praças e de cinco moradores da fazenda. A morte dos soldados serviu de estopim para a repressão brutal. A imprensa cearense passou a publicar boatos de que “fanáticos” planejavam “invadir a cidade de Crato para destruir e matar todos os moradores”.

O governador do Ceará, Francisco de Menezes Pimentel, acionou o governo de Getúlio Vargas, afirmando que a cidade abrigava um núcleo de “subversão comunista”. Vargas, por sua vez, incumbiu seu Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, de coordenar uma operação militar para “neutralizar” a suposta ameaça.

Na madrugada de 11 de maio de 1937, centenas de policiais militares e soldados do Exército Brasileiro, munidos de fuzis e metralhadoras, atacaram a comunidade, massacrando seus moradores. Dois aviões também sobrevoaram a fazenda lançando bombas. Sertanejos que não morriam nos fuzilamentos e bombardeios eram caçados e degolados pelos soldados e por jagunços emprestados pelos coronéis da região.

José Lourenço sobreviveu ao massacre e conseguiu fugir para Pernambuco, onde morreu alguns anos depois. Relatos apontam que cerca de 400 pessoas teriam sido assassinadas durante a repressão, mas outras estimativas apontam para mais de mil mortes. Os corpos nunca foram localizados. Acredita-se que os mortos tenham sido enterrados em uma vala comum na região da Serra do Cruzeiro.

O Exército Brasileiro não guardou registros da operação e até hoje nega que o massacre tenha ocorrido. Em 2008, a ONG SOS Direitos Humanos entrou com uma ação civil pública contra o Exército e o governo do Ceará, solicitando que as autoridades revelassem o local da vala comum e procedessem à exumação dos corpos e à indenização dos familiares dos mortos e dos sobreviventes remanescentes, além de incluir o massacre na história oficial. A ação, entretanto, foi extinta sem julgamento de mérito pela 16ª Vara Federal de Juazeiro do Norte.

Pau de Colher

Após a destruição do Sítio do Caldeirão, muitos dos sertanejos que sobreviveram ao massacre encontraram acolhida em outro movimento ligado ao messianismo rústico — a comunidade de Pau de Colher, no Sertão da Bahia, inspirada pelo conselheiro Severino Tavares e comandada por José Senhorinho e pelo beato Quinzeiro.

Assim como Canudos e o Sítio do Caldeirão, Pau de Colher também vivia sob um regime de comunhão, organizando mutirões para cumprir as tarefas e compartilhando igualitariamente o que produziam. A comunidade foi fortemente impactada pelo massacre de Caldeirão, interpretada por muitos religiosos como um sinal de que as profecias do conselheiro Tavares sobre o “fim das eras” estavam se cumprindo.

A mesma campanha de demonização movida contra o Caldeirão foi aplicada em Pau de Colher. Espalhou-se o boato de que o povoado abrigava mais de 800 cangaceiros, que estavam se armando e preparando para iniciar uma onda de ataques às cidades vizinhas, visando tomar o poder na região e implantar o comunismo.

Determinado a eliminar o povoado, o governo de Getúlio Vargas organizou uma grande ofensiva, mobilizando as tropas do Exército estacionadas em Salvador e Aracaju. A ação foi coordenada pelo tenente-coronel Maynard, comandante das forças militares no Vale do São Francisco.

Em janeiro de 1938, a aldeia de Pau de Colher foi destruída pelo Exército Brasileiro. O massacre se estendeu por três dias e deixou mais de uma centena de mortos — ao menos 157 vítimas, conforme registrado no relatório oficial do capitão Optato Gueiros.

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