Fernanda Otero, direto de Barcelona
A visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Espanha, em 17 de abril, marcou uma nova etapa na relação econômica e institucional entre os dois países. Durante a agenda em Barcelona, Brasil e Espanha assinaram 15 atos bilaterais e reforçaram compromissos em áreas como investimentos, comércio, inovação, transição energética e desenvolvimento produtivo.
Após a I Cúpula Espanha-Brasil, a ApexBrasil organizou uma Cúpula Empresarial com a participação de Lula, o 22º encontro do tipo desde 2022. O presidente se reuniu com 11 empresas e grupos econômicos espanhóis de grande porte, atuantes em áreas como telecomunicações, energia e indústria farmacêutica.
Para o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Fernando Elias Rosa, o objetivo foi intensificar uma relação construída desde o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, hoje apoiada em “segurança jurídica, previsibilidade econômica e também estabilidade política”.
Presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller avaliou que o ambiente de negócios entre os dois países atravessa um momento particularmente favorável. Segundo ele, o processo ganhou novo impulso a partir de 2023, com a missão empresarial liderada por Lula. “O que ficou muito evidente é que Brasil e Espanha vivem, talvez, um dos seus melhores momentos para o ambiente de negócio”, afirmou.
Ele destacou que a ampliação da corrente de comércio e a reaproximação política têm sido acompanhadas por maior confiança do setor privado.
“A atração de investimentos precisa de confiança, precisa de um clima estável para que isso aconteça e os empresários precisam se conhecer”, disse, ao apontar o Brasil como um mercado “atrativo” e “estável”, com “previsibilidade” para novos aportes.
Esse ambiente favorável se reflete nos indicadores da relação bilateral. Segundo Müller, desde o primeiro mandato de Lula, as exportações brasileiras para a Espanha cresceram cinco vezes, enquanto o fluxo comercial espanhol para o Brasil triplicou.
Com a possível entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, o potencial de expansão é ainda maior. “Se pegarmos só os 543 produtos que vão ter uma desgravação, em que a tarifa vai sair imediatamente para zero, isso pode dar um ganho ainda esse ano, já no primeiro ano, de mais U$ 1 bilhão de exportação do Brasil”, afirmou.
Na mesma linha, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou o peso da Espanha na relação bilateral. Segundo ele, o país é a 12ª economia do mundo e a 5ª da Europa, figurando como o 5º destino das exportações brasileiras e o 13º país de origem das importações.
Nos últimos 12 meses, a corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 13,9 bilhões, com superávit brasileiro superior a US$ 4,3 bilhões. Mercadante ponderou, no entanto, que a qualidade do comércio ainda favorece os espanhóis. “Eles exportam muito mais valor agregado […] e nós exportamos mais commodities”, disse.
Minerais estratégicos e transição energética no centro da agenda
No conjunto de acordos firmados, um eixo se sobressai: os minerais estratégicos. O Memorando de Entendimento sobre minerais críticos estabelece bases para ampliar a cooperação bilateral ao longo de toda a cadeia produtiva desses insumos, considerados centrais para a transição energética, a transformação industrial e a segurança econômica.
O acordo prevê colaboração em pesquisa, exploração, refino, reciclagem e inovação tecnológica, além de ressaltar a agregação de valor nos países produtores e a soberania nacional sobre os recursos. Também está prevista a criação de um grupo de trabalho conjunto para acompanhar a implementação das ações.
A carteira assinada em Barcelona inclui ainda cooperação em políticas públicas voltadas às micro, pequenas e médias empresas, um novo acordo de serviços aéreos, fortalecimento da cooperação consular e um plano de trabalho bilateral em ciência, tecnologia e inovação para o período de 2026 a 2028.
Na declaração conjunta, Brasil e Espanha também manifestaram interesse em avançar na interoperabilidade dos sistemas de pagamentos instantâneos — Pix no Brasil e Bison na Espanha —, além de ampliar a cooperação em mercados de capitais e iniciativas nas áreas digital, industrial e de desenvolvimento sustentável.
A I Cúpula Espanha-Brasil sucede a Comissão Permanente Bilateral realizada em Madri, em fevereiro de 2025, e já prevê uma nova edição no Brasil, em 2028.