
Em 2025, Brasil e Estados Unidos aprofundaram uma divergência estratégica clara na forma de se relacionar com o sistema internacional. Enquanto o governo brasileiro destinou cerca de R$ 2,2 bilhões para quitar contribuições obrigatórias a organismos multilaterais — garantindo plena adimplência —, a administração do presidente Donald Trump anunciou a retirada dos EUA de dezenas de agências e fóruns internacionais, sobretudo ligados à ONU.
Em um momento de crescente fragmentação geopolítica, Brasil e Estados Unidos traçaram rumos diametralmente opostos no cenário internacional. Enquanto Brasília quitou suas obrigações em 2025 para honrar integralmente seu compromisso com organismos multilaterais — incluindo ONU, OMS, OIT, UNFCCC e bancos de desenvolvimento —, Washington anunciou a retirada de 66 entidades internacionais, entre elas agências centrais da ONU ligadas ao clima, direitos humanos, migração e igualdade de gênero.
A decisão do presidente Donald Trump, justificada pela Casa Branca como uma medida para proteger “interesses nacionais”, representa a consolidação de uma visão unilateralista que já havia se manifestado em seu primeiro mandato — com saídas da OMS, UNESCO e Conselho de Direitos Humanos. Agora, porém, o escopo é ainda mais amplo: foram cortados até órgãos técnicos como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), alvos frequentes da retórica anti-“woke” da administração republicana.
O contraste revela mais do que escolhas orçamentárias: expressa visões antagônicas sobre multilateralismo, soberania e o papel do Estado nacional na governança global.
Brasil: adimplência como estratégia diplomática
Segundo anunciou nesta quinta (15) o Ministério do Planejamento e Orçamento, os pagamentos realizados em 2025 asseguraram a participação plena do Brasil em fóruns globais, regionais e setoriais considerados estratégicos.
Para o governo brasileiro, manter-se em dia com as contribuições internacionais não é apenas questão de responsabilidade fiscal — é um pilar de sua política externa. Ao quitar todos os compromissos com a ONU, inclusive missões de paz e tribunais penais internacionais, o Brasil entrou em um grupo restrito de países plenamente adimplentes, ao lado de nações como Alemanha, Noruega e Canadá.
Além do sistema ONU, o Brasil regularizou contribuições em áreas sensíveis como clima, direitos humanos, trabalho, migração e integração regional. A quitação junto à UNFCCC e a protocolos ambientais ganhou relevo adicional no ano em que o país sediou a COP30, reforçando a narrativa de liderança climática e compromisso com o desenvolvimento sustentável.
O governo destaca ainda a gestão financeira como elemento central da estratégia: pagamentos escalonados, monitoramento cambial e previsibilidade orçamentária permitiram reduzir custos ao Tesouro e preservar a responsabilidade fiscal.
EUA: “do meu jeito ou nada feito”
Já nos Estados Unidos, a abordagem de Trump transformou o multilateralismo em um campo de batalha ideológico. Segundo analistas, a lista de organismos abandonados reflete uma agenda política clara: desmantelar estruturas que promovem diversidade, justiça climática, direitos das mulheres e governança global baseada em consenso.
O governo Trump formalizou a saída dos Estados Unidos de 35 organizações fora da ONU e de 31 entidades vinculadas diretamente ao sistema das Nações Unidas. O argumento central, segundo a Casa Branca, é que esses organismos “operam contrariamente aos interesses nacionais dos EUA”.
Analistas observam que não se trata de um isolamento completo, mas de uma cooperação seletiva. Os EUA mantêm apoio apenas a operações que consideram alinhadas aos seus interesses estratégicos imediatos.
“O que estamos vendo é a cristalização de uma visão de mundo onde a cooperação só existe se for subordinada à hegemonia americana”, diz Daniel Forti, do International Crisis Group. “É ‘ou do meu jeito ou nada feito’.”
A saída dos EUA tem impacto real: sem o principal financiador histórico, muitas agências enfrentam cortes drásticos. Cortes de financiamento forçaram redução de pessoal, encerramento de programas e suspensão de projetos executados em parceria com ONGs internacionais, especialmente após o desmonte da USAID (ajuda humanitária). A USAID teve sua atuação reduzida a escombros, levando ao encerramento de projetos de saúde, educação e segurança alimentar em dezenas de países pobres.
No campo da saúde global, o histórico da retirada dos EUA da OMS durante a pandemia de Covid-19 — no primeiro mandato de Trump — permanece como referência negativa, frequentemente citada por diplomatas como exemplo dos riscos de fragmentação da cooperação internacional em momentos de crise. Bom lembrar a constante inadimplência do Governo Bolsonaro, aliado de Trump entre 2019 e 2022, junto a organismos internacionais, assim como suas críticas à OMC durante a pandemia.
Multilateralismo como ativo político
Para o Brasil, a adimplência não é apenas simbólica. Ela garante direitos de voto, influência em decisões estratégicas, acesso a financiamentos e cooperações técnicas, além de reforçar a imagem do país como ator confiável. Em bancos multilaterais e fundos de desenvolvimento, a regularidade financeira assegura ao país posição ativa como acionista e beneficiário.
Enquanto o Brasil reafirma seu compromisso com a Convenção de Quioto, o Protocolo de Montreal e a proteção da Amazônia via OTCA, os EUA abandonam até mecanismos técnicos de monitoramento ambiental. Enquanto Brasília apoia a ONU Mulheres e a OIT, Washington classifica tais entidades como “ideológicas” e “antiocidentais”.
Nesse contexto, o Brasil não apenas preserva seu espaço diplomático — ele o amplia. Ao contrário dos EUA, que se isolam cada vez mais, o país sul-americano posiciona-se como ponte entre o Sul Global, a Europa e os blocos regionais, especialmente em temas como segurança alimentar, energia limpa e direitos humanos.
Nos EUA, a postura de retração reflete uma concepção de soberania baseada na desconfiança das instituições multilaterais e na primazia do poder nacional. Essa lógica rompe com uma tradição histórica americana — compartilhada por governos democratas e republicanos — de liderança dentro do sistema ONU, mesmo quando crítico a ele.
Quem paga, decide — e permanece
A comparação entre Brasil e Estados Unidos em 2025 expõe dois projetos distintos de inserção internacional. De um lado, a diplomacia brasileira aposta na cooperação, na previsibilidade institucional e na reforma gradual da ordem multilateral por dentro. De outro, Washington privilegia a pressão unilateral e a adesão condicionada, aceitando o custo de enfraquecer estruturas globais para preservar autonomia política interna.
A lição de 2025 é clara: em um mundo instável, a adimplência é poder. Ao honrar seus compromissos, o Brasil mantém voz ativa nas decisões que moldarão o século XXI — desde o financiamento climático até a regulação do comércio digital. Já os EUA, ao recusarem-se a participar das mesmas regras que impõem a outros, correm o risco de se tornarem espectadores em um jogo que ajudaram a criar.
Enquanto Trump celebra “soberania absoluta”, o Brasil demonstra que verdadeira soberania se exerce com responsabilidade, parceria e presença constante — não com portas fechadas, mas com mãos estendidas.
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