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Brasil quer triplicar reciclagem e tirar catadores da invisibilidade

O Brasil gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Desse total, a taxa de reciclagem efetiva é de apenas 4,5%, segundo o Ministério das Cidades — bem abaixo da meta de 20% prevista pela própria Política Nacional de Resíduos Sólidos para 2025. É diante desse quadro que o governo Lula lançou, na última sexta-feira (29), em Fortaleza, a campanha educativa “Separação e Destinação Adequada de Resíduos Sólidos” — com uma meta ambiciosa: triplicar o volume reciclado no país.

“A gente pode triplicar o que é reciclado atualmente”, afirmou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (Psol), durante o lançamento, que ocorreu no 2º Encontro Internacional de Centros de Educação e Cooperação Socioambiental. “A reciclagem começa dentro de casa. É um ato simples de cada cidadã e cidadão que tem forte impacto na vida de catadoras e catadores, agentes fundamentais da economia circular. A destinação correta de resíduos sólidos gera renda, reduz impactos ambientais e promove a sustentabilidade”, completou.

Lançamento da campanha “Separação e Destinação Adequada de Resíduos Sólidos”, realizada em Fortaleza (CE) | Foto: Breno Araújo

Um país de resíduos desperdiçados

Os números revelam o tamanho do problema — e do potencial inexplorado. Os materiais recicláveis secos representam 33,6% do total de resíduos sólidos urbanos produzidos no Brasil, mas quase 1.500 municípios não contam com nenhuma iniciativa de coleta seletiva. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a falta de reciclagem adequada gera uma perda econômica de R$ 14 bilhões por ano — valor que poderia gerar receita e renda para uma camada da população que trabalha diretamente com essa atividade.

O dado mais recente do Panorama dos Resíduos Sólidos 2024, mostrou que 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos foram enviados à reciclagem em 2024, o equivalente a 8,7% dos resíduos secos gerados. Mesmo sendo esse um dado positivo, a Abrema estima a existência de quase 3 mil lixões — cujo prazo legal para extinção expirou em agosto de 2024 — que recebem passivos ambientais, colocando a saúde pública em risco e representando uma perda econômica que poderia se converter em ativos para o país.

Em comparação com países de mesma faixa de desenvolvimento, o Brasil está quatro vezes abaixo da média. Países com sistemas de depósito e retorno de embalagens bem estruturados lideram o Global Waste Index 2025 — Estônia, Alemanha, Finlândia, Suécia e Noruega estão no topo. A variável determinante é o desenho do sistema: quem paga, quem coleta, quem faz a triagem, quem compra o material reciclado e como o Estado garante que essas etapas se conectem sem que o ônus recaia sobre as partes mais frágeis dessa corrente.

Os invisíveis que sustentam a cadeia

No centro de toda essa engrenagem estão as catadoras e os catadores de materiais recicláveis — trabalhadores que, em sua maioria, operam à margem do reconhecimento formal e da proteção social. O Ipea aponta que os catadores são responsáveis por quase 90% de todos os materiais recicláveis coletados no Brasil. Estima-se que mais de 800 mil catadores atuem no país, com renda média que pode alcançar R$ 930 por mês — e muitos ficam bem abaixo disso, especialmente os que trabalham de forma individual, sem vinculação a cooperativas.

Embora mais de 90% do que é reciclado no país passe pelas mãos dos catadores, eles são os que menos se beneficiam financeiramente dessa cadeia. Com renda instável e pouca visibilidade, esses trabalhadores são o verdadeiro motor da logística reversa, obrigatória por lei desde 2010.

A campanha do governo reconhece esse papel e coloca os catadores como protagonistas da sua mensagem central: “O resíduo que você separa vira renda na mão de quem recebe.”

A campanha e sua aposta na mudança cultural

A iniciativa integra uma estratégia nacional de educação ambiental coordenada pela Secretaria-Geral da Presidência da República, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Secretaria de Comunicação da Presidência e a Itaipu Binacional, com articulação do Comitê Interministerial para Inclusão Socioeconômica de Catadoras e Catadores (CIISC).

A aposta é na conexão entre um gesto cotidiano, de separar o lixo em casa, e seus efeitos concretos na vida de quem depende desse material para sobreviver. Mais do que uma campanha de consciência ecológica, a proposta tem um conteúdo de cunho social, que é redistribuir valor ao longo de uma cadeia historicamente explorada.

Para atingir máximo de pessoas, a campanha adota um formato multicanal: vídeos educativos e institucionais, peças para rádio e mídias digitais, conteúdos para redes sociais, além de materiais pedagógicos como cartilhas, jogos e animações. Estão previstas ainda ações de capacitação e eventos educativos em todo o território nacional.

Além disso, o alcance da campanha é potencializado por uma rede expressiva de parceiros. Além dos órgãos coordenadores, participam os ministérios da Educação, do Trabalho, do Desenvolvimento e das Mulheres. Completam a lista a Advocacia-Geral da União (AGU), o IPEA, a Petrobras, a Fundação Banco do Brasil e a Itaipu Binacional com suas redes de cooperação socioambiental.

A articulação com movimentos sociais e cooperativas de catadores é apresentada pelo governo como elemento central para garantir que os efeitos da campanha cheguem de fato à base da cadeia de reciclagem.

Um passo necessário, mas ainda insuficiente

A iniciativa chega num momento em que o Brasil acumula atrasos no cumprimento da sua própria legislação ambiental. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) completa 16 anos sem que suas metas centrais tenham sido atingidas. Lixões continuam operando. Municípios menores seguem sem coleta seletiva. Catadores continuam sem reconhecimento como prestadores de serviço público essencial.

Mudar isso exige mais do que campanhas. Requer investimento estrutural, formalização do trabalho dos catadores, ampliação da infraestrutura de coleta seletiva e responsabilização efetiva da indústria pela logística reversa. Mas sensibilizar a população sobre o impacto do seu próprio descarte é, sem dúvida, um ponto de partida.

E, se a promessa do ministro Boulos se concretizar, triplicar a reciclagem no Brasil significaria não apenas preservar o meio ambiente, mas tirar da invisibilidade milhares de trabalhadores que já fazem, todo santo dia, aquilo que a campanha pede que todo o país aprenda a fazer.

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com informações de agências

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