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Brasileiros trabalham muito, ganham pouco e vivem endividados

brasileiros trabalham muito. SUFOCO. Trabalhador brasileiro vive com a corda no pescoço. Foto: Jorge Ferreira (JAV/SP)

Segundo o Dieese, o salário mínimo necessário seria de R$ 7.612 para sustentar uma família de quatro pessoas. Porém, a realidade é que os brasileiros trabalham muito, ganham pouco e vivem endividados.

Heron Barroso | Redação


BRASIL – Nunca antes na história deste país os trabalhadores viveram tão endividados. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 81% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Em números totais, quase 83 milhões de pessoas estão inadimplentes – o equivalente a metade da população adulta. Cartões de crédito (85%), crediários de lojas (16%) e empréstimos pessoais (12,6%) são as principais formas de endividamento.

O governo e os economistas burgueses fazem de tudo para esconder as verdadeiras causas desse problema. Dizem que o brasileiro não sabe economizar ou que gasta demais com coisas supérfluas. Chegam a culpar até mesmo os animais de estimação pelo endividamento das famílias. Coitados dos bichinhos!

Nada falam do desemprego, do preço dos alimentos, dos aluguéis caros e dos baixos salários que são pagos no país. É isso que obriga muitos trabalhadores a se endividarem para não passarem fome.

“Ou come ou paga as contas”

Esse é o caso de Fabiana de Oliveira França, 47 anos, atendente de lanchonete em Mogi das Cruzes (SP), que está inadimplente com o cartão de crédito. “Ou a gente come ou paga as contas. Esse setor de alimentação paga muito pouco, não reconhece nosso trabalho”, reclama. Fabiana recebe um salário mínimo para uma jornada de 8 horas por dia, de segunda a sexta-feira, sem benefícios. “A empresa só paga a condução”.

Realidade parecida com a de outra trabalhadora, Nilce Rosa Gomes da Silva, 45 anos, auxiliar de produção em uma metalúrgica na Grande São Paulo, que também se queixa do salário que recebe e da falta de direitos. “Não temos plano de saúde, cesta básica, vale-transporte, nada”, diz ela, que ganha menos de R$ 2.000 por mês. “Chega ao fim do mês e não sobra nada. É só o cartão de crédito que salva. Tenho que fazer empréstimo para sobreviver. Se ficou alguma conta pendente, faço empréstimo. Se tem que comprar alguma coisa para as crianças, também tenho que pegar”, explica.

As mulheres, aliás, são as que mais sofrem com as dificuldades financeiras, pois recebem, em média, 20% menos que os homens, mesmo desempenhando as mesmas funções. Além disso, os bancos cobram das mulheres taxas médias de juros que chegam a 140% ao ano, contra 97% cobrados para homens, segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, divulgado em abril.

Diga-se de passagem, cobrar é uma das especialidades dos bancos. “Eu recebo por volta de 20 ligações de cobrança por dia. Descobri que estão ligando até para minha cunhada para cobrar dívida minha. Fiquei triste, porque esse é um problema meu, não queria que respingasse em outras pessoas”, diz a psicóloga catarinense Bárbara Helena da Silva, 31 anos, que viu sua dívida no cartão de crédito dobrar em apenas seis meses devido aos juros. “Fui perdendo clientes, e minha renda foi diminuindo bastante. Aí, tive que optar por pagar o aluguel e as contas de casa ou pagar o cartão de crédito, que tinha várias compras parceladas”.

Salários baixos

Caso os salários pagos aos trabalhadores brasileiros fossem decentes, não haveria necessidade de tantas pessoas viverem com a corda no pescoço. Porém, apesar de ser um direito previsto na Constituição, nenhum governo jamais estabeleceu um valor digno para o salário mínimo, pois a prioridade para esses governos são os lucros da burguesia e dos banqueiros.

De fato, o salário mínimo do Brasil (R$ 1.621) é um dos mais baixos do mundo e está muito aquém das necessidades do trabalhador. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o valor necessário seria de R$ 7.612. Essa quantia daria para sustentar, com dignidade, uma família de quatro pessoas, considerando gastos com moradia, transporte, alimentação, saúde, educação, vestuário, higiene, lazer e previdência.

Além desse arrocho salarial, atualmente, cerca de 37% da população ocupada está na informalidade. Ao todo, são 38 milhões de pessoas que trabalham sem direitos como carteira assinada, FGTS e férias remuneradas, grande parte delas ganhando menos de um salário mínimo.

Uma delas é o camelô Welber Nascimento, 40 anos, morador do Rio de Janeiro. “Para sustentar a família não dá. As coisas estão muito caras. Aumentou bastante o gás, os alimentos, as verduras. Tá tudo caro. Nem a comida dá para pagar. Não tem como”, reclama. 

Realmente, nos últimos anos, o preço dos alimentos disparou. Nos quatro primeiros meses de 2026, todas as 27 capitais tiveram alta nos preços da cesta básica. Em São Paulo, são precisos hoje R$ 906 para adquirir todos os produtos que compõem a cesta; em Cuiabá, R$ 880; no Rio de Janeiro, R$ 879; em Florianópolis, R$ 847.

Com esse salário de fome não tem como o trabalhador comprar comida, roupas, remédios, pagar aluguel, passagem, água e luz, sem se endividar. Logo, o endividamento do povo não é porque as pessoas não sabem gastar, mas porque são pobres.

É por isso que uma das propostas que mais tem repercutido na pré-campanha de Samara Martins (UP) à Presidência da República é o aumento de 100% do salário mínimo.

Bancos lucram com o endividamento

Além dos baixos salários e do custo de vida elevado, a ganância dos bancos é outro fator determinante para o endividamento das famílias brasileiras.

Segundo o Banco Central, os três maiores bancos privados do país – Itaú, Bradesco e Santander – somaram um lucro líquido de R$ 23 bilhões no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 9,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esse novo recorde deve-se, em parte, às taxas de juros extorsivas cobradas dos clientes: em fevereiro, o rotativo do cartão de crédito atingiu 436% de juros ao ano, enquanto o crédito parcelado chegou a 202% e o cheque especial subiu para 147%. Um escândalo!

O Governo Federal e o Banco Central são cúmplices desse assalto ao bolso do trabalhador, pois mantêm a taxa básica de juros do país, a Selic, entre as mais elevadas do mundo.

Na verdade, entra governo, sai governo, quem continua mandando na economia brasileira são os bancos e grandes monopólios capitalistas nacionais e estrangeiros. É para garantir os privilégios dessa oligarquia que o país mantém uma política econômica que retira verbas da saúde, da educação e da moradia para pagar centenas de bilhões em juros da dívida pública aos banqueiros. 

Como se não bastasse, o programa Desenrola Brasil 2.0, anunciado no último dia 04 de maio, além de não mexer em nada nos juros cobrados do povo, ainda prevê o uso de até 20% do saldo do FGTS para pagar dívidas em atraso. Na prática, o FGTS será usado pelos bancos como garantia em caso de nova inadimplência. Dito de outra forma, além de sugar parte do salário dos trabalhadores cobrando juros, os bancos vão agora abocanhar um dinheiro que deveria servir para a proteção em caso de demissão. 

Concentração de renda

Essa política econômica praticada no Brasil só agrava a concentração de renda e as injustiças sociais.

Hoje, os 10% mais ricos detêm 40% da renda do país e ganham 14 vezes mais que os 40% mais pobres, segundo o IBGE. É como se um grupo de dez pessoas se reunisse para comer um bolo com dez pedaços, e apenas um indivíduo (10%) ficasse com quatro fatias (40% do total). Qualquer criança sabe que isso não está certo!

Enquanto isso, 68% dos trabalhadores brasileiros recebem menos de dois salários mínimos por mês e cerca de 20,6 milhões de famílias vivem em situação de extrema pobreza, conforme o Ipea, órgão do Governo Federal.

Mas por que os trabalhadores, que produzem todas as riquezas do país, são pobres e vivem endividados? A causa dessa injustiça está no fato de o Brasil ser um país capitalista e todas as fábricas, terras, máquinas, prédios, transportes, etc., serem propriedade de um pequeno número de ricos e não dos trabalhadores. 

Por isso, para acabar com essa situação e mudar a corda de pescoço, é necessário que os trabalhadores ponham fim a esse regime econômico de exploração e tomem para si todas as riquezas que eles próprios produzem, isto é, construam o socialismo.

Como muito bem disse Samara, para o povo se livrar de uma vez por todas do arrocho, do tormento das dívidas e dos baixos salários, “é preciso pôr fim à farra dos banqueiros”, hoje defendida a ferro e fogo pela burguesia e seus governos.

Matéria publicada na edição impressa nº 334 do jornal A Verdade