
As altas temperaturas registradas na Europa e o El Niño excepcionalmente intenso levaram a agricultura do continente a uma crise sem precedentes, com fortes perdas nas lavouras e na produção de leite, ovos e alimentos para o gado.
Junho e julho foram os meses mais quentes já registrados na Europa Ocidental, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia. Em várias regiões, as temperaturas passaram frequentemente dos 35°C, enquanto a falta de chuva reduziu as reservas de água e prejudicou plantações.
O cenário é resultado da combinação do aquecimento global provocado pela atividade humana com um El Niño especialmente forte.
Agricultores de França, Itália, Espanha e Alemanha relatam quedas expressivas na produção, enquanto economistas alertam que a redução da oferta pode elevar os preços dos alimentos nos próximos meses.
Na França, um dos maiores produtores agrícolas da União Europeia, a crise atinge principalmente hortaliças e cereais. A Prince de Bretagne, cooperativa que reúne mais de 1.300 produtores, estima redução de 25% na produção de abobrinhas, 35% na de alfaces, 40% na de ervilhas e 60% na de brócolis. Para as alcachofras, as perdas variam entre 50% e 100%.
“A produção de hortaliças enfrenta uma crise histórica”, afirmou a organização, que pediu medidas urgentes diante da queda na quantidade e na qualidade dos produtos.
As perdas atingem diferentes regiões produtoras ao mesmo tempo. “Normalmente, uma região se sai melhor, o que ajuda a compensar”, afirmou ao Le Monde Eric Legras, da associação francesa de produtores de vegetais enlatados e congelados. “Neste ano, todas as nossas principais regiões produtoras foram atingidas, e ao mesmo tempo.”
Produção de milho na França cai 35%
A situação também afeta os cereais. O ministério da Agricultura francês estima que a produção de milho ficará em cerca de 9 milhões de toneladas, 35% abaixo do resultado de 2025 e no menor nível desde 1980.
Parte da redução se deve à decisão de agricultores de substituir o milho por outras culturas, como o girassol. O governo francês afirma, porém, que as ondas de calor atingiram as plantações em fases importantes de seu desenvolvimento.
Na Alemanha, a Associação dos Agricultores Alemães prevê produção de grãos 7% menor que no ano passado, uma redução de 3,3 milhões de toneladas. Nas áreas mais afetadas do sul do país, há risco de perda total das plantações.
Na Espanha, a produção de cereais caiu 35% em Castela e Leão, 49% na região de Madri e 24% na Andaluzia. O calor também afeta as uvas: a federação espanhola de vinhos prevê redução de 20% na produção neste ano devido ao tamanho menor dos frutos provocado pela falta de umidade.
Seca atinge 60% das terras agrícolas da Itália
Na Itália, cerca de 60% das terras agrícolas enfrentam algum grau de seca. O problema é mais grave no vale do Pó, principal região agrícola do país e responsável por cerca de 80% da produção italiana de arroz.
A redução do nível do Pó, maior rio italiano, diminuiu a quantidade de água disponível para irrigação. Agricultores passaram a irrigar os arrozais apenas em semanas alternadas para tentar preservar as plantações.
A Coldiretti, maior organização de agricultores da Itália, relata áreas “completamente mortas, queimadas, com o arroz ressecado”. O país é o maior produtor de arroz da Europa e tinha cerca de 235 mil hectares plantados em 2025.
Milho, soja, frutas e hortaliças também foram atingidos. Os prejuízos para a agricultura italiana, incluindo os danos provocados por incêndios e fortes tempestades, já superam € 3 bilhões.
Calor reduz produção de leite e ovos
As altas temperaturas também atingem diretamente a pecuária. Vacas leiteiras começam a sofrer estresse térmico quando os termômetros passam dos 25°C, o que reduz a quantidade de alimento consumida pelos animais e afeta a produção de leite.
Na França, produtores relatam queda de 10% a 15% na produção. Na Itália, a redução chega a 20%.
A seca também diminuiu a quantidade de alimento disponível para os rebanhos. Com menos chuva, há menos pasto e feno para armazenar antes do inverno. Na França, a produção de feno está cerca de 30% abaixo da média registrada entre 1989 e 2018.
Na Espanha, a produção de leite de ovelha caiu 6,5%, enquanto a de leite de cabra recuou 10,8%.
O calor também provocou alta mortalidade de aves, principalmente durante a onda de calor de junho. Na França, a produção está cerca de 1 milhão de ovos por dia abaixo do nível habitual.
Menor produção pode elevar preços
As perdas simultâneas em algumas das principais regiões agrícolas europeias aumentam a preocupação com o abastecimento e os preços. Na Polônia, a persistência da seca pode levar o país a aumentar as importações de alimentos.
Economistas avaliam que a menor produção de grãos, hortaliças, arroz, leite e ovos deve pressionar os preços nos próximos meses.
Analistas do Zurich Insurance Group e de bancos europeus estimam que as ondas de calor podem causar prejuízos entre € 50 bilhões e € 180 bilhões à União Europeia.
Na França, o governo anunciou € 145 milhões em ajuda imediata aos agricultores, além de medidas de apoio e investimentos previstas para o orçamento de 2027. O Copernicus alerta que o risco de novas ondas de calor continua em agosto e pode se estender por setembro.
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