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Campanha eleitoral e dimensões da política

Um episódio bem recente anunciou o caráter da campanha eleitoral que sacode o país. Um candidato a deputado estadual do Partido Liberal (PL) foi a uma unidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA) junto com um bando de seguranças e provocou atritos com membros da comunidade universitária. Conflitos gravados intencionalmente em seus celulares para serem utilizados como conteúdo de sua campanha eleitoral.

Todos sabemos que não se trata, infelizmente, de um caso isolado. Em verdade, o acontecimento exemplifica um comportamento “político” hoje recorrente, que aciona o ódio e a violência como modo de fazer política e de instrumento para obtenção de votos. Tal atitude reduz a campanha eleitoral, que deveria se dar em torno de um conjunto de ideais e emoções em disputa, a um empobrecido e trágico espetáculo, que visa tão somente atiçar confrontos e polêmicas em torno de atitudes bélicas, acionando temas aparentemente banais, muitas vezes quase ordinários, nos dois sentidos da palavra, e assim conquistar votos.

Desde a ascensão da extrema direita no mundo e no Brasil, ódio, violência e guerra cultural invadiram a cena e deprimiram a política, já tão debilitada/desqualificada por congressos, assembleias, câmaras, governos e políticos inimigos do povo, que colocam seus interesses privados acima dos interesses públicos. Por óbvio, que existem políticos que defendem e estão comprometidos com interesses públicos. Na cena brasileira atual, eles são minorias importantes, porque dão vida à democracia e à república. Eles merecem todo respeito e elogios. No entanto, a circunstância atual prima pela presença majoritária de políticos inimigos do povo em governos e parlamentos, em especial, no Congresso Nacional.

Os políticos inimigos do povo, quase sempre, não têm programas possíveis de serem defendidos em ambiente público. Eles sempre atuam em benefício de minorias. Eles desprezam a maioria da população, ainda que não possam afirmar isso publicamente. Recorrem então a discursos demagógicos, a mentiras e a construção de ódios e medos, buscando desviar a atenção da agenda político-eleitoral para distante dos necessários e urgentes projetos de país e de estados, que deveriam ser colocados no centro da disputa política pública.

Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, os imigrantes têm sido demonizados pelo ódio da extrema direita, com ajuda e participação ativa da mídia, visando provocar medo na população, mobilizar as pessoas aterrorizadas para apoiar suas medidas autoritárias e discriminatórias, além de fazer esquecer os efetivos problemas e políticas, que afligem suas vidas. No caso dos Estados Unidos, também as guerras eternas têm servido a tal propósito. Nelas, países são estigmatizados como inimigos maléficos para justificar guerras efetivas e/ou híbridas. As guerras fabricam armas, destruição, mortes, corrupção e governos de extrema direita.

No Brasil, o ódio e violência da extrema direita tem se voltado para a esquerda e para o Partido dos Trabalhadores (PT), que por meio de governos moderados e conciliadores têm afetado parte dos privilégios seculares das classes dominantes. Para criar tais estigmas são recorrentes manipulações autoritárias de preconceitos, que desumanizam adversários para liquidá-los como inimigos, simbólica e/ou fisicamente. Pouco adianta o caráter moderado e conciliador das mudanças. Elas não são toleradas, ainda mais quando governadas por um operário nordestino ou por uma mulher. Os enormes preconceitos de classe e de gênero da sociedade de classes patriarcal brasileira estão afinados em sintonia fina com os abundantes privilégios existentes, com sua conservação e com a perpetuação das imensas desigualdades sociais brasileiras.

Todo esse cenário deprime o ambiente político, pois as disputas ao não se expressarem como projetos alternativos de país de modo cristalino, como seria benéfico para a democracia. Eles buscam subterfúgios e fazem a pequena política invadir a agenda e a cena, impedindo a imaginação de propor e discutir as potencialidades, dificuldades e possibilidades de futuros. A política fica aprisionada ao cotidiano em sua dimensão mais tacanha, nas futricas e nas tramoias da pequena política, no impedimento da imaginação de futuros e de suas alternativas. É como se o mundo não tivesse mais história, paralisado no mais do mesmo, em um mundo medíocre tomado por um imenso mosaico de horrores. Proliferam violências, acidentes, distúrbios climáticos, tragédias, atrocidades, misérias etc. A vida parece um assombro. Tão terrível quanto o próprio campo político dominante e o futuro travado, concebido sem nenhuma esperança de mudança. O futuro aparece sempre como distopia, tão persistente da produção simbólica capitalista atual.

A depressão da política não ocorre apenas pela ação deletéria e direta da extrema direita. É preciso lembrar que também a esquerda, o centro e a direita democráticos, hoje quase inexistentes no país, têm suas responsabilidades pela onipresença da pequena política no cenário brasileiro atual. O centro e a direita democráticos depois de seu esfacelamento, por embarcarem quase integralmente na aventura golpista de 2016, passaram a namorar abertamente com a extrema direita bolsonarista. Eles abdicaram de qualquer futuro para o Brasil.

A esquerda por sua política, por vezes, conciliadora e pragmática em demasia, beirando perigosamente a pequena política, tem deixado de imaginar e construir mundos presentes e futuros, que possam encantar e mobilizar as pessoas, para além de suas necessidades imediatas. Em um país cheio de carências e desigualdades, efetivamente não é nada fácil atender as demandas do imediato, superá-las e traçar futuros, de modo democrático e participativo, mobilizando a população. Mas tal desafio precisa ser enfrentado sob pena da esquerda perder seu lugar de fala e de luta contra o sistema explorador e opressor, ser domesticada por ele e se mostrar incapaz de formular-concretizar alternativas no presente e no futuro.

A mesquinha pequena política não deriva apenas das forças políticas da sociedade. Ela provém de muitos outros entes econômicos-políticos-sociais-culturais-educacionais. Um deles por sua potência na contemporaneidade, mundial e nacional, se intitula de redes de comunicação, sejam elas as velhas mídias, jornais, rádios e televisões, sejam elas as atuais redes mal denominadas de sociais, dominadas pelas big techs, ambas sem nenhuma regulação democrática para coibir seu poder abusivo de conformação material e simbólica do mundo atual, inclusive sua interferência poderosa na política e na vida contemporânea.

Exemplo recentíssimo do nefasto poder político das redes, sem nenhuma regulamentação democrática da sociedade, aconteceu no dia 27 de agosto, na Rede Globo, naquilo que deveria ser a entrevista do candidato Lula à Presidência. Os pretensos quarenta minutos de entrevista foram sequestrados por perguntas longas e um quase inquisitorial sobre a vida de familiares, aliados e pessoas próximas, a partir de um conjunto repetitivo de ilações, que visavam desmontar o candidato, buscando igualar todos os políticos, desconsiderando as suas trajetórias políticas e contribuições à história do país, além de pretender agendar, mais uma vez, o tema da corrupção, como eixo central do debate eleitoral.

Cabe lembrar, que em duas vezes que a mídia produziu tal efeito e elegeu seus candidatos à Presidente, o Brasil teve duas tristes experiências políticas carregadas de corrupção e de incompetência. Elas foram protagonizadas por Jânio Quadros, com sua vassoura para limpar a política, e Fernando Collor, marajá alagoano fabricado como caçador de marajás para também limpar a política. Mesmo com tais experimentos políticos e midiáticos trágicos, a mídia e, em especial, a Rede Globo insistem em intervir na política e se apresentar mascarados como atores políticos imparciais da anticorrupção.

Ao buscar impor o tema como central na entrevista-inquisitorial, os “jornalistas” da Rede Globo, novamente exerceram o paradoxal jornalismo de campanha, tantas vezes reiterado na história brasileira recente. O jornalismo de campanha, em verdade, sob o aparente formato jornalístico realiza mera campanha política. Na entrevista, Lula lembrou um dos momentos mais cruéis e vergonhosos do jornalismo brasileiro, quando ele e sua família foram execrados, perseguidos de modo brutal, a fim de que ele fosse preso e retirado das eleições presidenciais de 2018, quando era o candidato que estava à frente de todas as sondagens realizadas. Lula lembrou o papel antidemocrático da mídia e cobrou que a Rede Globo se desculpasse por seu anti-jornalismo no processo de sua prisão. Aliás, ele poderia recordar infinitos episódios similares, como a manipulação escancarada da Rede Globo na edição do debate entre ele e Collor no segundo turno das eleições de 1989.

A entrevista-interrogatório quase não deu tempo ao candidato para expor as propostas destinadas ao seu quarto mandato de Presidente do país. Nas parcas questões, em que havia alguma brecha para tal proeza, Lula teve que lutar para falar, devido às interrupções constantes dos jornalistas. Nesses momentos, a sabedoria e a inteligência de Lula, podada e pressionada em outros instantes, conseguiu reverter seu lugar no interrogatório. Ele, em parcos minutos, conseguiu falar de seus feitos nas suas três gestões presidenciais e de suas novas propostas de governo. Para isso, Lula teve que cobrar mais inteligência da jornalista interrogadora na formulação da pergunta, recorrente na mídia, sobre a dívida do Brasil. Aliás, todas as questões arremessadas pelos entrevistadores foram sempre sobre os possíveis deslizes da gestão, sem sequer uma que tivesse uma postura mais objetiva ou algum pequeno viés positivo.

A mídia que tanto critica o campo da política por sua realização como pequena política, como política das pequenas questões e interesses mesquinhos, assim aparece como um dos principais fatores de persistência e desenvolvimento da pequena política no país e mesmo da corrupção, que tanto ela adora criticar, mas que prolifera e corrompe a prática dita jornalística no país, inclusive quando ela se torna, com louváveis exceções, um mero jornalismo de campanha, cujo paradoxo expresso em sua denominação, escancara sua distância da ética jornalística e do jornalismo responsável.

Em suma, a Rede Globo, como toda chamada grande mídia brasileira, tem partido nítido na atual eleição de 2026. Não importa a questão das agressões à democracia e as tentativas de golpe, não importam às ameaças à soberania e a complexidade do cenário internacional, não importam os acertos e erros da Presidência, não importa a conexão da extrema direita e seus candidatos com o crime organizado, não importa nada. Apenas importa derrotar o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo que para isso a mídia empurre o país para todo tipo de desastre e perigo, mesmo que para isso entronize a pequena política e impeça que o Brasil efetue a grande política. Sem ela é impossível enfrentar os grandes desafios nacionais e internacionais em um mundo que se debate perigosamente entre a civilidade e a barbárie.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq