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Canoas: prestes a fechar, abrigo da enchente de 2024 reúne 46 cães à espera de adoção

Após um ano de funcionamento e o acolhimento de mais de dois mil animais, o Abrigo Palmira Gobbi, localizado em Canoas, será encerrado. Criado durante a enchente de maio de 2024, o espaço ainda abriga cães que não foram adotados, e os voluntários correm contra o tempo para garantir um lar para eles antes do fechamento definitivo da estrutura.

A decisão de encerramento foi tomada pela Secretaria de Bem-Estar Animal (SMBEA) da Prefeitura de Canoas, responsável pela administração do abrigo. O anúncio foi feito com 45 dias de antecedência da data prevista para a desmobilização, marcada para 20 de julho. Desde então, uma mobilização foi iniciada para viabilizar a adoção dos animais restantes. Atualmente, ainda há 46 cães no local.

Instalado na Região Metropolitana de Porto Alegre, o abrigo foi criado como resposta emergencial para acolher os animais resgatados das áreas atingidas pelas enchentes históricas que afetaram Canoas. Desde então, cerca de 2,2 mil animais passaram pelo espaço.

De acordo com a SMBEA, os cães que permanecerem no abrigo serão transferidos para a sede da Secretaria, no bairro Igara. Conforme a Secretaria, a prioridade é que os animais sejam adotados antes da desativação da estrutura, para que possam seguir diretamente para um novo lar, sem a necessidade de mais um processo de adaptação.

Ainda segundo a Secretaria, a decisão de encerrar as atividades do Abrigo Palmira Gobbi visa oferecer melhores condições de vida aos animais. O argumento é de que muitos ainda vivem em baias improvisadas e serão transferidos para uma estrutura definitiva, adequada para atendimento e cuidados.

Contudo, os voluntários que atuam no abrigo discordam da medida. Eles alegam que a transferência para a sede da SMBEA não será benéfica para os cães e que não há necessidade de encerrar as atividades do abrigo antes de todos serem adotados.

“Não faz sentido levar esses cachorros que estão soltos, que estão passeando e que a gente está conseguindo a adoção lá para o Bem-Estar Animal, onde eles vão ficar escondidos, onde não vão mais passear. Eles vão ser só mais um número no canil municipal que já está superlotado e ninguém vai ver eles”, alega Gabriela Braun Aguiar, médica veterinária e voluntária no Abrigo Palmira Gobbi.

Gabriela também destaca a importância do trabalho feito pelas voluntárias para o bem-estar dos animais e o alcance nas redes sociais, que tem permitido a concretização de adoções. “Principalmente, a gente tira foto deles. A gente faz vídeo, a gente faz stories. A gente posta vídeo deles o tempo inteiro. E é exatamente por isso que a gente conseguiu as adoções. Imagina, a gente já teve mais de 2 mil cães e agora a gente tem só 47, em 14 meses, isso parece um sonho”, destaca Gabriela.

Os voluntários também contestam a forma como a decisão de fechamento foi tomada. Segundo a SMBEA, a decisão foi acordada entre o prefeito Airton Souza, a secretária Paula Lopes e as voluntárias. No entanto, eles afirmam que não houve um diálogo efetivo com a administração pública sobre o encerramento.

A voluntária Fernanda relata que foram primeiramente informadas sobre o fechamento do espaço, mas sem data definida, e que, inicialmente, foi indicado que os cães seriam levados para albergues externos. Após reunião solicitada pelas voluntárias, foi estipulada a data de julho e o destino dos animais passou a ser a sede da SMBEA.

“Com os bons resultados que temos tido, queríamos mais tempo, porque sim, concordamos que ir pro Bem-Estar é um pouco melhor que irem pra albergagens externos, mas não achamos que ainda seja o melhor pra eles, e sim mais tempo pra que todos achem um lar, visto que no abrigo eles têm mais visibilidade e atenção das voluntárias também”, diz Fernanda.

Diante da situação, os voluntários iniciaram nesta semana um abaixo-assinado pedindo a manutenção do abrigo até que todos os cães sejam adotados. A petição já conta com mais de 3 mil assinaturas e solicita que as autoridades revejam a decisão de encerramento. “Mantenham o Abrigo Palmira Gobbi aberto até que se encontre uma alternativa verdadeiramente adequada e digna para todos os animais”, pedem na petição.

Feira de adoção realizada no Abrigo Palmira Gobbi em junho. Foto: Vinicius Thormann/PMC.

Para incentivar as adoções antes do fechamento, ações estão sendo realizadas. A SMBEA informou que promove feiras de adoção, onde é necessário apresentar documento com foto, comprovante de residência e preencher um formulário de entrevista para verificar as condições do adotante. O contato para adoções é o número (51) 99138-5613.

Os voluntários utilizam o perfil @caesresgatadoscanoas no Instagram para divulgar os cães que ainda aguardam adoção. Na página, é possível verificar os animais disponíveis e entrar em contato pelo número (51) 98522-7232.

“A gente estava com 74 cães, agora a gente está com com 46. Tá baixando. A gente tá conseguindo bastante adoção. E o nosso apelo é justamente esse, que a gente tenha mais tempo, porque a gente vai tentar esvaziar esse abrigo. Que nos dê mais tempo, não é justo com os voluntários que estão lá desde maio de 2024 simplesmente tirarem esses cães de lá”, diz a voluntária Gabriela.

Denúncias a gestão do abrigo

O fechamento do Abrigo Palmira Gobbi ocorre em meio a desentendimentos entre a Secretaria de Bem-Estar Animal (SMBEA) de Canoas e os voluntários que atuam no local. Segundo a veterinária Gabriela, o abrigo foi inicialmente instalado por voluntários em maio de 2024, em resposta à enchente que atingiu o município. Em setembro do mesmo ano, a Prefeitura assumiu a gestão do espaço, passando a atuar com servidores da administração municipal, mas mantendo a colaboração dos voluntários.

A relação entre a Secretaria e os voluntários permaneceu conturbada ao longo do tempo, e, para Gabriela, esse fator está presente na decisão de encerrar as atividades do abrigo. “A gente sabe que é um jogo político, não é pensando no bem-estar dos animais”, aponta.

Em abril deste ano, o grupo de voluntários encaminhou uma denúncia ao Ministério Público, questionando a atuação da Secretaria e da titular da pasta, Paula Lopes. No documento, afirmam que medidas foram tomadas sem diálogo prévio, comprometendo, segundo eles, a integridade e o bem-estar dos animais acolhidos.

Entre os problemas apontados na denúncia, estão: desassistência noturna aos cães, redução da equipe veterinária, atrasos na alimentação e na higiene, utilização de correntes sem justificativa, infestação de ratos e ausência de controle de pragas, negligência com cães apreendidos, infraestrutura precária, retirada de doações sem explicação, negativa de realização de exames e tratamentos veterinários, além de infestação de pulgas e carrapatos nos animais e nas instalações.

Outros pontos destacados incluem a ausência de Responsável Técnico, Servidores Comissionados desempenhando funções típicas e permanentes de cargos efetivos, a intimidação dos voluntários e servidores por funcionários da empresa terceirizada contratada e a restrição dos horários de atuação das voluntárias.

Em nota, a SMBEA afirmou que mantém vigilância e atendimento contínuos no abrigo e que todos os protocolos de saúde e saneamento são seguidos regularmente. A Secretaria também declarou que qualquer retirada de insumos do abrigo é feita mediante autorização do responsável técnico.

Sobre os atendimentos veterinários, a pasta negou haver interrupções nos exames ou tratamentos, afirmando que há registros formais dos procedimentos realizados e que a assistência clínica segue sendo uma prioridade, com responsabilidade e zelo. A Secretaria também negou qualquer redução na equipe de atendimento.

“A Secretaria Municipal de Bem-Estar Animal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e, principalmente, com o cuidado responsável dos animais sob tutela do município. Todas as ações são conduzidas dentro dos critérios legais, com documentação e fiscalização constantes”, dizem em nota.

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