
Encerrada neste domingo (29), a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos aprovou a Carta de Porto Alegre, documento que sintetiza os acordos políticos de mais de 4 mil participantes de cerca de 40 países. O texto reafirma a urgência da articulação global contra o avanço da extrema direita e do imperialismo, destacando que “nunca como hoje a luta contra o imperialismo e o fascismo foi tão atual e necessária”.
O encontro estava previsto para 2024, mas foi adiado devido às enchentes no Rio Grande do Sul. Na quinta-feira (26), o destaque foi a marcha, que mostrou a potência da conferência nas ruas. Além da programação oficial, também houve 150 atividade autogestionadas, realizadas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre sexta e sábado.
Realizada na cidade onde ocorreu a primeira edição do Fórum Social Mundial, há 25 anos, a próxima edição da Conferência acontecerá na Argentina.
Unidade na diversidade contra ameaças comuns
A Carta identifica pontos comuns nas ofensivas neofascistas em diferentes países: eliminação de liberdades democráticas, destruição de direitos trabalhistas, explosão do desemprego estrutural, desmantelamento da previdência, repressão a sindicatos e movimentos populares, privatizações, políticas de austeridade, negacionismo científico e climático, expropriação de camponeses e deslocamento forçado de populações originárias.
“Além de resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários”, afirma o documento. Para combater o autoritarismo, a Carta defende o resgate, a ampliação e o aprofundamento dos direitos democráticos com base na participação popular, “desde o local até o nacional e nos organismos internacionais”.
Solidariedade internacional como eixo estratégico
Um dos pilares da Carta é a solidariedade ativa com povos sob ataque imperialista. O documento repudia o genocídio na Palestina, os bombardeios ao Líbano, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores na Venezuela, o bloqueio criminal a Cuba e o ataque militar ao Irã.
“A luta do povo Palestino — em Gaza e na Cisjordânia — é a causa da humanidade”, sustenta o texto, que apoia explicitamente o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e a Global Sumud Flotilha. A Carta também expressa solidariedade à luta da Frente Polisário pela independência do Saara Ocidental, ao povo porto-riquenho pela autodeterminação e ao povo haitiano contra a interferência estrangeira.
Reforma agrária, ecossocialismo e soberania alimentar
A Carta destaca a Reforma Agrária como “saída necessária para a soberania alimentar” e defende o enfrentamento direto ao “ecocídio promovido pelo capitalismo e por governos de extrema-direita, que tratam a natureza como mercadoria”. O documento propõe impulsionar iniciativas conjuntas para organizar a resistência global contra as violências fascistas e a precarização neoliberal.
“Um futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio”, afirma o texto, que apoia iniciativas contra o negacionismo climático e encontros ecossocialistas. A Carta encerra reafirmando o compromisso com “um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista”.
Encaminhamentos práticos e continuidade da luta
A Carta estabelece encaminhamentos concretos para dar continuidade à articulação internacional:
- Constituir uma mesa de articulação internacional para unificar globalmente a luta antifascista e anti-imperialista;
- Realizar conferências regionais e nacionais, com destaque para uma conferência latino-americana na Argentina e outra na América do Norte;
- Apoiar encontros contra a OTAN na Turquia e a contra-cúpula do G7 na França/Suíça em 2026;
- Fortalecer a participação no próximo Fórum Social Mundial, previsto para agosto de 2026 no Benin.
“Derrotar os fascismos e o imperialismo é tarefa urgente de nossa época”, conclui a Carta de Porto Alegre, reafirmando que “só a luta muda a vida” e que nenhum direito foi conquistado sem mobilização popular. Em tempos de ofensiva global da extrema-direita, o documento sintetiza um chamado à unidade na diversidade, à solidariedade militante e à construção de alternativas populares, democráticas e anticapitalistas.
Leia a íntegra da Carta de Porto Alegre:
Reunidos em Porto Alegre – cidade símbolo das lutas internacionais, de importantes tradições e aspirações democráticas – milhares de ativistas de mais de quarenta países países dos cinco continentes, celebrando nossa unidade na diversidade, buscando avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva.
Nessa mesma semana, ocorreu o comboio Nuestra America a Cuba, tivemos mais de um milhão de pessoas nas ruas da Argentina, lutando pela memória e contra Milei; houve centenas de milhares na convocação antifascista do Reino Unido e especialmente a grande e histórica manifestação “No Kings” nos Estados Unidos que com milhões de estadunidenses reunidos em centenas de cidades, declarando uma vez mais Trump como inimigo da humanidade.
O sistema capitalista-imperialista vive uma profunda crise e uma acentuada decadência econômica, social e moral. A resposta das potências imperialistas ao seu declínio tem sido o fomento do fascismo em toda parte, a imposição de políticas neoliberais, agressões militares às nações mais fracas e a sua recolonização.
Em cada país, as ameaças fascistas e neoliberais assumem formas particulares, mas têm pontos em comum: a eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos direitos trabalhistas, a explosão do desemprego estrutural, o desmantelamento da previdência social, a repressão às entidades sindicais e populares, a privatização dos serviços públicos, políticas de “austeridade” que eliminam todo e qualquer investimento social, o negacionismo científico e climático, a expropriação dos camponeses em benefício da agroindústria, o deslocamento forçado das populações originárias para promover o extrativismo desenfreado, políticas migratórias ultra-restritivas e enorme aumento de despesas militares.
A extrema direita e as forças neofascistas desenvolvem uma ampla ofensiva, que instrumentaliza o descontentamento com as consequências desastrosas do neoliberalismo para acelerar essas políticas. Para isso, à semelhança do fascismo clássico, procuram direcionar esse descontentamento contra os grupos oprimidos e despossuídos: migrantes, mulheres, pessoas LGBTQIA+, beneficiários de programas de inclusão, pessoas racializadas e minorias nacionais ou religiosas. O nacionalismo exacerbado, o racismo, a xenofobia, o sexismo, a LGBTQIA+fobia, a incitação ao ódio e a banalização da crueldade acompanham o avanço da extrema direita em cada etapa, de acordo com as pecularidades de cada país.
A vontade de acumular riqueza nas mãos do capital, a busca desenfreada pelo lucro máximo que sustenta as políticas da extrema direita, também se manifesta pela intensificação das agressões imperialistas para monopolizar recursos e explorar populações.
O imperialismo torna-se cada vez mais desenfreado, agressivo e belicista, atropela o Direito Internacional, a Carta da ONU e a autodeterminação dos povos, sanciona, ataca e bombardeia as nações que não se submetem aos seus ditames, sequestra e assassina seus Chefes de Estado.
Isso vai de par com a perpetuação de situações coloniais que no caso da Palestina assume a forma de um genocídio explicito em Gaza, orquestrado pelo Estado sionista de Israel, apoiado incondicionalmente pelos Estados Unidos, com a cumplicidade dos demais países imperialistas. Além disso, Israel acaba de invadir e bombardear de forma criminosa o Líbano e afirma que anexará o sul do país.
Lutamos contra todos imperialismos e apoiamos a luta dos povos por sua autodeterminação, por todos os meios necessários.
A extrema direita, além da cumplicidade com o governo genocida de Netanyahu, tece laços internacionais, realiza congressos, think tanks, declarações conjuntas, apoio mútuo nos processos eleitorais, colaboração e programas de propaganda e desinformação. Além do apoio direto (ou velado) das chamadas Big Techs, desestabilizando governos que resistem ao império e potencializando a propaganda reacionária nos meios digitais.
As forças que combatem a ascensão da extrema direita são diversas e apresentam diferentes análises, estratégias e táticas, programas e políticas de aliança. A experiência nos ensina que embora reconhecendo essas diferenças, é essencial articular de forma unitária a luta contra os nossos inimigos. Essa convergência deve incluir todas as forças dispostas a defender as classes trabalhadoras, os camponeses, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQIA+, as pessoas racializadas, as minorias nacionais ou religiosas oprimidas e os povos indígenas; a defender a natureza contra o capitalismo ecocida; a combater as agressões imperialistas e coloniais, independentemente da sua origem; lutar pelo fim da OTAN e a apoiar a luta dos povos e governos que resistem. É urgente compartilhar análises, fortalecer laços e realizar ações concretas.
Além de resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários. Para combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos democráticos com base na participação popular, desde o local até o nacional e nos organismos internacionais. Afirmamos a relevância do mundo do trabalho, propomos impulsionar iniciativas conjuntas para organizar a resistência global contra as violências fascistas e a precarização neoliberal. A defesa de um futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio promovido pelo capitalismo e por governos de extrema direita, que tratam a natureza como mercadoria e desmontam a proteção ambiental em nome do lucro. Destacamos a importância Reforma Agrária como a saída necessária para soberania alimentar.
Nunca como hoje a luta contra o imperialismo e o fascismo foi tão atual e necessária. Essa luta precisa ser articulada internacionalmente. A Conferência Antifascista e pela soberania dos povos compromete-se a continuar a luta sem descanso e como espaço de construção de unidades contra a ascensão da extrema direita e as agressões imperialista. Diante da barbárie, levantamos a bandeira da solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista.
PROPOMOS:
• O Comitê Internacional, articuladamente com o Comitê e nação local, fica responsável por: organizar o planejamento da próxima Conferência; propor critérios e iniciativas para inclusão de novas organizações.
• Tendo em conta a existência de inúmeras organizações e associações voltadas à luta contra o fascismo e o imperialismo, propomos a constituição de uma mesa de articulação internacional para unificar globalmente essa luta e o incentivo à realização de conferências regionais e nacionais antifascistas e anti-imperialistas, com o propósito de realizar uma 2ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos.
• Todas as organizações participantes desta Conferência, desde que não se manifestem em contrário são automaticamente, participes dessa carta.
• Apoiar a construção de uma conferência latino-americana na Argentina, em data e formato a serem propostos pela delegação e organizações argentinas, em diálogo com o comitê internacional.
• Apoiar uma conferência regional na América do Norte envolvendo organizações do México, Estados Unidos, Canadá, Caribe e América Central.
• Apoio a Flotilha Nova Global Sumud Flotilha, que novamente busca romper o cerco e denunciar o genocídio de Gaza. A luta do povo Palestino- em Gaza e na Cisjordânia- é a causa da humanidade. Apoiamos a solidariedade ativa materializada em espaços e movimentos como o BDS.
• Solidariedade à Cuba contra o criminoso bloqueio promovido pelos Estados Unidos, ameaçada de agressão à sua soberania. Apoio à todas as iniciativas de solidariedade, como foram as recentes iniciativas de flotilha para a ilha.
• Repúdio à invasão da Venezuela e ao sequestro e prisão do presidente Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores e apoio à luta pela sua libertação.
• Repúdio ao ataque militar ao Irã pelos Estados Unidos e Israel. Respeito à autodeterminação do povo iraniano, fim das sanções unilaterais.
• Defesa da independência e autodeterminação e soberania de todos os territórios sob ocupação colonial e imperialistas.
• Denunciar a interferência estrangeira no Haiti, apoiando a luta do seu povo.
• Apoio à luta da Frente Polisário pela independência do Shara Ocidental, direito reconhecido pela ONU.
• Apoio à luta do povo porto-riquenho pela autodeterminação e independência.
• Apoio ao encontro anti-OTAN na Turquia em 2026.
• Apoio a Contra-cúpula do G7 na França e Suíça em junho de 2026.
• Apoiar as iniciativas contra o negacionismo climático, como as jornadas e encontros ecossocialistas que estão se organizando.
• Apoiar e construir o próximo Fórum Social Mundial no Benin, em agosto de 2026.
DERROTAR OS FASCISMOS E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA ÉPOCA
Porto Alegre, 29 de março de 2026.
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