O assessor especial para assuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, está participando do primeiro Fórum Internacional de Segurança em Moscou entre os dias 26 e 29 de maio. O ex-chanceler se reuniu com diversas autoridades russas e discutiu os principais tópicos da agenda internacional e das relações bilaterais entre Brasil e Rússia.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Amorim falou sobre a posição do Brasil em relação à guerra da Ucrânia e à tensão no Oriente Médio. O embaixador não quis comentar especificamente os recentes acontecimentos ligados à escalada do conflito, mas defendeu a ampliação do diálogo diplomático como saída para as disputas internacionais.
“O que eu posso dizer é que o Brasil, juntamente com a China, criou um grupo de amigos da paz. Qual é o objetivo deste grupo? Não é tomar partido nem da Rússia, nem da Ucrânia. É fazer com que haja um diálogo para encontrar soluções. Agora a gente pode, digamos, ajudar a criar as condições. A gente não pode resolver o problema. Isso só acontece por meio do diálogo. Eu acho que é isso que está faltando no mundo: diálogo”, afirmou.
“Na questão da Ucrânia e Rússia, não tem que tomar partido. Se você quer ser amigo da paz, você tem que falar com os dois lados e chegar a uma conclusão. Chegar às melhores conclusões possíveis para que o povo possa viver em paz e para que os outros não sofram”, acrescentou.
Ao falar sobre as proximidades e diferenças na agenda internacional entre Brasil e Rússia, o ex-chanceler destacou a defesa que Moscou faz da entrada do Brasil no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).
“Em algumas coisas, nós concordamos, em outras não. A Rússia tem nos apoiado, por exemplo, para ser membro permanente do Conselho de Segurança. Pelo menos eu considero dessa maneira. A forma como eles falam, concordamos totalmente”, destacou.
Guerra contra o Irã
Ao comentar a situação em torno da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o assessor do presidente Lula fez menção ao acordo mediado pelo presidente Lula ainda em 2010, que estabelecia o uso pacífico da energia nuclear por parte do Irã. Celso Amorim lamentou o fim do acordo por parte dos Estados Unidos e a adoção das sanções contra Teerã.
“O presidente Lula tem sempre lembrado que essa crise do Irã podia ter sido resolvida porque nós fizemos um acordo que era exatamente o que os Estados Unidos haviam pedido em 2010. Obama pediu ao Lula, eu ouvi, e nós conseguimos convencer o Irã a fazer um acordo que contemplasse aqueles pontos. Claro que tinha também outros aspectos mais genéricos do direito à energia nuclear, que inclui, aliás, seu uso pacífico. Está escrito, não precisa nem dizer, porque está no TNP [Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares]. E, no entanto, depois abandonaram, preferiram o caminho das sanções. E estamos vendo essa situação terrível que existe hoje”, completou.
Durante uma reunião bilateral com o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, Amorim manifestou a preocupação do Brasil com os conflitos no mundo, especialmente na guerra contra o Irã, observando que a crise tem efeitos inclusive sobre a economia brasileira.
“Nós achamos que todas as dificuldades, todos os conflitos devem ser resolvidos pelo diálogo. Este é um tema fundamental que nos afeta também diretamente, não militarmente, mas através do preço dos derivados de petróleo e dos fertilizantes. O Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, e os preços jogam um papel fundamental”, afirmou.

Serguei Monin / Brasil de Fato
O ex-chanceler brasileiro também se reuniu com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov. De acordo com um comunicado divulgado pela chancelaria russa, a conversa foi “conduzida de maneira tradicionalmente construtiva e de confiança mútua”.
“As partes trocaram avaliações sobre a conjuntura global atual, incluindo a situação no Oriente Médio e no Golfo Pérsico, o estado da América Latina e a crise na Ucrânia. Reafirmaram seu compromisso em fortalecer ainda mais a coordenação da política externa entre os dois países, inclusive em formatos multilaterais, principalmente no BRICS, na ONU e no G20”, diz a nota.
O Fórum Internacional de Segurança, organizado pelo Conselho de Segurança da Rússia reúne 140 delegações de 120 países para discutir os principais dilemas de segurança no sistema internacional, com foco na perspectiva dos países em desenvolvimento, do grupo BRICS e do Sul Global.
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