Com o objetivo de reforçar os laços estabelecidos entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista da China no âmbito da preservação da memória, foi realizado nesta segunda-feira (27) um debate sobre o setor dos museus e outras instituições nos dois países.
O encontro intitulado “Memória, povo e futuro: o papel dos arquivos, museus e centros de memória no Brasil e na China” teve a mediação de Elen Coutinho, diretora da Fundação Perseu Abramo responsável pelo Centro de Documentação e Memória Política Sérgio Buarque de Holanda (CSBH).
Os palestrantes foram Li Zongyuan, diretor do Museu do Partido Comunista da China, Fernanda de Castro, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e Ramatis Jacino, doutor em História e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).
A presidente do Ibram trouxe dados comparativos entre o número de instituições nos dois países, apontando que ambos tiveram expressivo crescimento a partir dos anos 2000. O predomínio é de instituições públicas (57% no Brasil e 70% na China). Um dos destaques no território chinês tem relação com a gratuidade dos espaços, cerca de 90% possuem entrada gratuita.
A China possui 7.046 museus, enquanto o Brasil 4.128, além de 536 pontos de memória, que são locais organizados formados a partir de iniciativas populares, muitas vezes para preservação da história de comunidades, e que são certificados pelo Ibram.
A presidente da organização ressaltou a importância dos museus para a geração de emprego e renda, o crescimento do turismo, divulgação de diferentes culturas, fortalecimento do sentimento de pertencimento ou até mesmo o questionamento da história contada a partir de determinados pontos de vista. Além disso, a produção de conhecimento também foi destacada, pois os museus foram reconhecidos com instituições de promoção da ciência e tecnologia.
Fernanda Castro citou o Plano Nacional Setorial de Museus (de 2025 a 2035) com o objetivo de orientar as políticas públicas do setor, focado em modernização da gestão, preservação do patrimônio e participação social. Elaborado desde 2009, o plano tem 13 pontos para o setor museal, com colaboração da sociedade civil.
A relação das políticas públicas com o tema da cultura é considerada um pilar importante. A museóloga lembra uma frase célebre do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil que diz que “a cultura deve ser para o povo igual arroz e feijão”.
“A cultura, a memória e os museus são fatores de transformação social. São direitos básicos, serviços prestados no cotidiano social. São ativos econômicos, sociais e políticos, criam importantes oportunidades de trocas”, afirma a presidente do Ibram.
O historiador Ramatis Jacino trouxe detalhes sobre o trabalho de recuperação do acervo presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, do qual ele faz parte junto a uma equipe de 30 profissionais que catalogam materiais como livros, roupas, artes plásticas, artesanatos, cartas, fotografias, vídeos e áudios que fazem parte do arquivo do presidente.
O professor da UFABC conta que para a retirada desse material do palácio foram necessárias 8 carretas e que os pertences estiveram em um galpão no Sindicato dos Metalúrgicos durante um tempo sem os devidos cuidados para a preservação. Ele também relata o fato de que objetos acabaram sendo violados e danificados no período de perseguição política a Lula, com as operações de busca realizadas pela Polícia Federal.
Até o momento, cerca de 40% do material já passou por triagem. “Estamos ansiosos para disponibilizar o acervo para pesquisadores e para o público em geral”, comenta Ramatis Jacino.
O diretor do museu do PCCh, Li Zongyuan, apontou que, dos mais de 7 mil museus cadastrados no país, mais de 3 mil tratam de algum tema relacionado ao partido, desde o período da revolução até os dias de hoje.

Li Zongyuan ressaltou a importância de construção de um imaginário junto à população a partir da memória e, nesse sentido, opina ser válido que “o PT entenda como quer deixar registrada a sua história”.
O membro do PCCh elogiou o trabalho do CSBH e a forma como a Fundação Perseu Abramo registra a parceria sino-brasileira na política. Zongyuan declara que o diálogo entre os partidos foi iniciado de uma maneira positiva com o intercâmbio de conhecimento.
Em janeiro deste ano, uma comitiva do CSBH visitou a China para conhecer o museu do Partido Comunista da China e outros espaços de preservação da memória política. A diretora do CSBH, Elen Coutinho, lembra da visita e destaca o forte papel educativo que os museus desempenham na sociedade chinesa, com a alta frequência dos estudantes das escolas nos espaços.
A agenda da delegação chinesa segue ao longo da semana com outras visitas agendadas como no museu do Ipiranga, que fica em São Paulo e foi reaberto recentemente como um dos principais do país.