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Charly García: rebelde latino-americano

Charly García. Foto: Reprodução

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Diego Queijo em entrevista a Guilherme Arruda

Um inconfundível bigode bicolor, castanho e branco. Um talento ímpar com o piano e o sintetizador. Uma viagem a Búzios que mudou tudo e um namoro com uma bailarina brasileira. Umas quantas músicas censuradas e umas cinco décadas de desregramento musical e comportamental. Um piano jogado em um lago. Um salto suicida do nono andar de um hotel… apenas para cair na piscina (está tudo filmado).

Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil

Você provavelmente não conhece este cantor. Mas num país vizinho ao Brasil, ele é “o Maradona da música”, explica o jornalista Diego Queijo, autor de Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil, livro-reportagem que está em campanha de pré-venda na plataforma Catarse até o dia 30 de julho.

Mas porque este ídolo dos hermanos interessa aos brasileiros? Em primeiro lugar, é claro, porque trata-se de um músico fenomenal, com uma carreira prolífica e ótima de se descobrir. Além disso, há um fator mais íntimo: sua transição de protagonista do nicho roqueiro para ídolo de milhões de jovens argentinos começa no Brasil. Em 1977, querendo escapar do ambiente sufocante da ditadura argentina, Charly e seu colega de banda David Lebón vêm ao nosso país – também governado pelos militares, mas já em processo de abertura.

A dupla alugou uma casa em Búzios, onde passaram três meses. No mesmo período, García começa a namorar Marisa Pederneiras, a Zoca, irmã da família de bailarinos que fundou o Grupo Corpo. Zoca apresentou ao namorado o que havia de mais recente e instigante na música brasileira, que vivia um momento de auge. Foi uma revolução. Inspirados pelo que ouviram, os argentinos voltam para casa movidos a criar o novo pop rock que tomaria as rádios do país. Como tudo que vai volta, bandas brasileiras do estilo, como os Paralamas do Sucesso, se inspiraram na sonoridade do roqueiro portenho, e até se tornariam seus amigos.

É difícil escolher por onde começar a falar de Charly García. O roqueiro argentino, nascido em uma região abastada de Buenos Aires no ano de 1951, tem o impressionante feito de ter sido um representante paradigmático de pelo menos uns quatro gêneros musicais ao longo de sua carreira. Sua genialidade musical, cultivada pela família de industriais desde as aulas de piano na infância, o permitiu essa multiplicidade espetacular. Tentarei apresentar um resumo geral de sua carreira, de forma breve.

Charly García em show em Porto Alegre (RS), em foto inédita. 1997. Foto: Emilio Pacheco

Primeiro, foi o folk rock do início dos anos 1970. Mal saído da adolescência, ele formara a banda Sui Generis com o amigo de escola Nito Mestre, e é nesta dupla que começa a despontar. “Rasguña las piedras” e a emocionante “Canción para mi muerte”, composta por García para exorcizar o desespero do serviço militar obrigatório, são suas grandes canções. Uma bonita interpretação de ambas as faixas está registrada no documentário Rock hasta que se ponga el sol (1973) – que, aliás, conta com apresentações de praticamente todas as grandes bandas argentinas da época. (Esta fase ainda teria como coda o protocolar disco homônimo do supergrupo PorSuiGieco, lançado em 1976.)

No último disco do Sui Generis, Pequeñas Anécdotas sobre las Instituciones (1975), Charly iniciaria sua transição rumo ao rock progressivo. Originário do piano, foi fortemente atraído pelos sintetizadores, e se tornaria um mestre desses então inovadores instrumentos eletrônicos. Nesta seara, também comandou a banda La Máquina de Hacer Pájaros. Com o grupo, que formou com o objetivo de criar “o Yes do subdesenvolvimento”, gravou um disco homônimo em 1976 e o fortíssimo Películas (1977).

Depois, desenvolveria uma sonoridade muito particular e criativa com o jazz rock radiofônico do Seru Girán. Aqui, uma opinião individual polêmica: no estilo desse grupo, o ouvinte brasileiro pode ter um vislumbre de uma versão mais ousada e menos brega de bandas como 14 Bis ou mesmo Roupa Nova. Os quatro discos – Seru Girán (1978), La Grasa de las Capitales (1979), Bicicleta (1980) e Peperina (1981) – mostram que o quarteto era um fábrica de hits, mas também um agrupamento arrojado. Não por outro motivo, o baixista Pedro Aznar trilharia uma carreira de sucesso no jazz, solo e acompanhando Pat Metheny.

Logo na sequência, “popificando” ainda mais seus sintetizadores, Charly tornaria-se um astro da new wave no início dos anos 1980. Vendeu milhões de discos e emplacou sucessos como “Nos siguen pegando abajo”, “Demoliendo Hoteles” e uma penca de outros singles dançantes. Também compôs trilhas sonoras para filmes como Pubis Angelical (1982) e Lo que vendrá (1987).

Charly marca o ouvido pela musicalidade inventiva e também pelas letras mordazes e divertidas. Sem ser o que tradicionalmente definiríamos como um artista político, não deixou de compor canções contra a repressão e também o liberalismo desenfreado. Para restringir-se a duas canções menos conhecidas, em “Juan Represión” criticou os sanguinolentos funcionários da polícia política; e com “José Mercado”, satirizou José Martínez de Hoz, o todo-poderoso ministro das Finanças do general-presidente Jorge Videla na última ditadura militar, responsável por um congelamento de salários que empobreceu duramente os argentinos. Em “Inconsciente Colectivo”, presente na trilha sonora do premiado filme Argentina, 1985, lembrou dos “que morreram e dos que estão na prisão”. Em síntese, “um artista pleno”, como definiu Diego Queijo nesta entrevista.

Por tudo isso, surpreende o quão pouco difundida é a obra “charlyana” no Brasil. Seja como for, o novo livro-reportagem do jornalista tem o potencial de mudar essa história. Pasajero en trance – uma história de Charly García no Brasil, como já diz o título, retraça a caminhada do músico portenho por nosso país, cheia de causos. Seguindo a trilha do músico, Diego entrevistou sua empresária, grandes músicos e uma infinidade de outros nomes cujas trajetórias cruzaram com a de Charly.

Sem mais delongas, fique com a entrevista. E adquira o livro, sem perder tempo: a pré-venda acaba no dia 30 de julho.

Eis a entrevista

Quem é Charly García e o que esse personagem significa para a cultura argentina?

Essa pergunta tem muito a ver com o que me motivou a fazer este livro. Charly é uma pessoa muito importante, está intimamente ligado à própria identidade argentina. Acaba sendo um ícone, tem um status de Maradona por lá. É um músico que, em vários momentos, traduziu sentimentos coletivos da população argentina, seja como ídolo adolescente no Sui Generis, em bandas como La Máquina de Hacer Pájaros e Seru Girán, ou em sua carreira solo.

Agora mesmo, ele foi a estrela do comercial da cerveja Quilmes [marca tradicional e mais vendida da Argentina] para a Copa do Mundo. Quando a seleção argentina se classificou para a final, centenas de pessoas se aglomeraram na frente de sua casa para comemorar [veja vídeos: 1, 2]. Em resumo, é um cara que não pode sair para comprar pão sem ser assediado. É uma figura tão grande que já tem estátua dele em Mar del Plata, uma esquina com seu nome em Buenos Aires e uma esquina com seu nome em Nova York.

Entrevistando o Frank Jorge [músico gaúcho, ex-membro das bandas Cascavelletes e Graforréia Xilarmônica], ele disse que o Charly é um cara que viveu sete vidas em uma. Ele tem muitas histórias, uma carreira muito prolífica e diversa, sempre se renovando e, às vezes, destruindo o que construiu para fazer algo diferente. Só o fato de ser um músico de formação clássica em conservatório e que se converteu em rockstar já é algo interessante.

A passagem de Charly García pelo Brasil no final de 1977 significou um divisor de águas para sua música e os rumos de sua carreira. Que importância o nosso país tem para a obra e a vida do argentino?

Na verdade, o primeiro registro de Charly no Brasil é no início de 1977, quando ele foi a Porto Alegre assistir um show do Genesis. Foi a única turnê do Genesis na América do Sul, e uma comitiva de argentinos se deslocou ao Rio Grande do Sul. Isso faz muito sentido, porque isso acabou se expressando na sonoridade que ele desenvolveu posteriormente.

Depois, veio ao nosso país para viver mesmo – tinha conhecido a Marisa Pederneiras, a Zoca, e acabou vindo passar uma temporada em Búzios. Não tinha vindo para trabalhar mas, claro, sendo músico, compôs alguns materiais que depois acabaram gerando o primeiro álbum do Seru Girán.

Mas, no primeiro momento, o Brasil acabou sendo um lugar de refúgio, até porque as coisas na Argentina não estavam muito legais. Algo que está no prólogo do livro é que um dos objetivos é contar para o Brasil o papel que ele mesmo teve na trajetória desse que hoje é o maior músico vivo na Argentina. Eles também tiveram o Luis Alberto Spinetta e o Carlos Gardel, mas como disse o Daniel Melingo na entrevista que fiz com ele, “Charly é Gardel hoje”. E o Brasil desconhece seu papel na construção desse personagem.

Chaly García e Herbert Vianna, em Porto Alegre, em registro inédito. 1997. Foto: Emilio Pacheco

Também descobri que Charly teve um papel muito importante na música brasileira. O show que ele fez em Porto Alegre em 1986 estava cheio de músicos da cena do rock gaúcho na plateia, que foram muito influenciados. O mesmo vale para o show de 1987 no morro da Urca, no Rio de Janeiro, que também foi muito marcante para os músicos que estavam presentes: o Kid Abelha inteiro, o Paralamas do Sucesso inteiro, Ritchie, Charles Gavin dos Titãs, Kledir Ramil, Vitor Ramil, Renato Russo. Entrevistei a maioria – menos o Renato Russo –, e eles dizem que Charly chegou com um show extremamente profissional, com trabalho de luzes, usando máquinas de ritmo. Uma “cara de show gringo”, disseram. Uma produção muito mais profissional do que se fazia na época no Brasil. Todo mundo ficou meio chocado.

Charles Gavin, por exemplo, disse que até esse show nunca tinha visto músicos usarem uma máquina de ritmos [instrumento eletrônico também conhecido como drum machine] em apresentações ao vivo, só em estúdio. Ele também conta que, depois desse show, Charly foi até o estúdio Nas Nuvens, onde os Titãs estavam gravando o disco Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987) e ficou lá dando pitacos, fazendo sugestões. Não digo que ele deu orientou a sonoridade do disco, mas houve uma troca.

Brian Eno teria dito que “o primeiro álbum do Velvet Underground vendeu apenas 10 mil cópias, mas todo mundo que comprou formou uma banda”. Tem um certo paralelismo com esse fenômeno do Charly?

Tem um certo paralelo também com aquele show dos Sex Pistols em Manchester que mexeu com o pessoal que depois formaria bandas como The Smiths, Joy Division, New Order, Buzzcocks, The Fall.

Tanto o show do morro da Urca, para a cena carioca, quanto o show de Porto Alegre, para a cena gaúcha, foram muito impactantes. Charly não é reconhecido pelo público brasileiro mais amplo, mas é muito reconhecido pelos músicos. Quando decidi fazer um livro sobre isso e entrei em contato com os músicos brasileiros, achei que ninguém ia querer falar sobre isso. Mas, salvo por uma fonte que teve um problema de agenda, todos aceitaram e falaram dele com muita admiração, dizendo que realmente é um personagem sensacional.

E quem são esses músicos que conheceram e foram amigos de Charly? Com quem você pode conversar durante o processo de pesquisa e que fontes consultou?

Muitos brasileiros foram amigos de Charly, posso listar alguns com quem conversei. Gilberto Gil. Bi Ribeiro, João Barone e João Fera, do Paralamas do Sucesso. Flávio Venturini, do 14 Bis e d’O Terço, foi muito importante. George Israel, do Kid Abelha, gravou o show da Urca com uma câmera de vídeo. Maurício Barros, do Barão Vermelho. Paulinho Moska. Rolando Castello Júnior, da Patrulha do Espaço. Alexandre Barea, Frank Jorge e Nei van Soria, dos Cascavelletes. Kledir Ramil. Marcelo Gross, do Cachorro Grande. Thedy Corrêa, do Nenhum de Nós. Vitor Ramil. Yanto Laitano.

Dos argentinos, pude falar com nomes como Pedro Aznar, Billy Bond, Andrés Calamaro, Torcuato Mariano, Daniel Melingo, Fabián Quintero, Javier Weintraub, Pipo Cipolatti, Mariela Chintalo, Fernando Samalea, Hilda Lizarazú, Tonio Silva Peña.

Quanto à bibliografia, usei mais de 50 livros como referência, uns 20 deles sobre o Charly. Existem muitos livros em espanhol sobre ele – quais são os músicos brasileiros que tem uma bibliografia sobre eles tão vasta? Além dos livros, pude usar jornais, revistas, documentos e entrevistar ou consultar quase 80 pessoas.

Interessante você destacar o Flávio Venturini como muito importante para a pesquisa. O Seru Girán me lembra muito o 14 Bis.

A relação de Charly com Minas Gerais é algo pouco documentado. Mas o Clube da Esquina foi uma coisa muito marcante para eles, especialmente para ele e David Lebón. Na época do Seru Girán, eles iam muito a Minas, até por causa da relação de Charly com Zoca, que era membro do Grupo Corpo, de Belo Horizonte (MG), e foram muito influenciados pela música de lá. No álbum Como conseguir chicas (1989), no final da faixa “Suicida”, Charly canta um trecho de “Fé Cega, Faca Amolada”, do Milton Nascimento.

O disco Piano Bar (1984) foi praticamente todo composto em Belo Horizonte. A Zoca me confirmou isso, algo que era apenas cogitado nas biografias do Charly. Apesar de haver todos esses livros, essa relação não é documentada ao fundo. Sempre há algo a se descobrir. O que Flávio Venturini disse foi que a grande conexão da turma do Clube da Esquina com Charly foram os Beatles.

Por que você acha que, apesar dessas relações íntimas do Charly com tanta gente na cena musical brasileira, ele não se tornou conhecido do grande público?

Esse foi um dos grandes motes do livros. Busquei entrar nessa discussão e procurar explicações. Há várias, que valem tanto para ele quanto par outros músicos hispanohablantes. Gilberto Gil opinou que tem muito a ver com o soft power dos Estados Unidos, que foi dominando os gostos com a música em inglês. Antes, se ouvia bastante música em espanhol no Brasil, muita rumba, muita música afro-caribenha.

Sobraram exceções, como o Julio Iglesias. Aliás, o Thedy Corrêa, do Nenhum de Nós, tem uma teoria interessante de que o Julio Iglesias e os Menudos, que fizeram muito sucesso no Brasil, geraram uma espécie de preconceito no público do rock. Super fã do Charly, ele diz que levava discos dele para as rádios, como o Piano Bar (1984) e o Clics modernos (1983), para as rádios e o pessoal torcia o nariz, dizendo que “parecia Menudos”. Não tinha nada a ver! Mas era em espanhol, então não se dava valor.

Além disso, é claro, muitas músicas do Charly são bem ligadas ao contexto – nem sempre político, às vezes apenas social ou sentimental – do que estava acontecendo na Argentina, e isso é mais uma barreira para as pessoas entenderem e se interessarem.

O que essa história que você investigou na pode significar sobre as possibilidades de integração latino-americana, especialmente nesse âmbito mais cultural?

Acho que significa bastante coisa, mas estamos vivendo um momento muito diferente.

Dos anos 1960 até os anos 2000, existia uma certa utopia latino-americana, um sentimento de querer fazer essa integração. Não é à toa que Mercedes Sosa veio muitas vezes para o Brasil, sempre com esse olhar muito político para a América Latina. Tivemos o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2001. O festival El Mapa de Todos. O Fernando Rosa, do portal Senhor F, foi um grande batalhador dessa causa. Mas muita gente está desacreditada dessa proposta.

Charly em show em Porto Alegre (RS), em registro inédito. 1997. Foto: Emilio Pacheco

Uma das personagens principais do livro – na verdade, o gatilho para que ele fosse feito – é a Ivone de Virgiliis, uma mulher que foi fundamental para a introdução dos músicos argentinos no Brasil. Ela foi empresária do Charly e do Fito Páez [outro astro do rock argentino] em nosso país, e tentou disseminar essa música por aqui. Nossa última conversa foi logo depois do Super Bowl desse ano, que teve a apresentação do Bad Bunny, e ela estava extremamente emocionada: “Finalmente está acontecendo aquilo que estávamos tentando fazer nos anos 1980”.

Outro fenômeno é o Milo J [jovem músico argentino], que vai tocar no Rock in Rio e fazer uma apresentação solo em São Paulo. Ainda assim, é um artista que no resto do continente faz show em estádio, e aqui não teria público para isso.

De toda forma, parece que a coisa está andando, mas não sei se é algo que vai perdurar.

Além de jornalista que investigou uma pauta, você é fã do Charly García, certamente. Conte um pouco do que você sentiu nesse processo de escrever o livro-reportagem, que acaba sendo também uma homenagem ao Charly e seu papel na cultura brasileira.

É uma super homenagem, na verdade. Mas é também uma análise de fatos. Não entrevistei e não quis entrevistar o Charly para o livro, porque estava buscando reportar fatos e acontecimentos, investigar o porquê de certas coisas. Mesmo assim, foi muito emocionante quando, após lançar a campanha de pré-venda, recebi uma mensagem do assistente pessoal de Charly, dizendo que ele soube do livro e tinha adorado a ideia. Claro que eu disse que não precisava comprar, que eu fazia questão de enviar um.

Minha relação com a música de Charly, como a de muitas pessoas, teve como porta de entrada o MTV Unplugged (1995). É um álbum mais pop, tem uma sonoridade mais palatável. Depois, fui atrás de ouvir tudo – tudo mesmo. Por isso, uma das coisas mais emocionantes foi receber a aprovação do próprio Charly.

O que você pode antecipar do livro para os possíveis leitores?

É um livro que põe em foco duas mulheres importantíssimas.

Uma delas é a Ivone de Virgiliis, que além de empresariar o Charly e o Fito, foi empresária da Blitz, do Legião Urbana e do Kid Abelha. Só a vida dela também já daria um livro. Ela é uma pessoa do showbiz que é mencionada algo por cima nos livros argentinos sobre Charly, mas que teve um papel de mediadora e articuladora muito importante para esses músicos.

A outra protagonista é a Zoca Pederneiras, uma bailarina brasileira que fez parte do grupo Grupo Corpo e foi casada com Charly durante muitos anos. Não existe nenhuma entrevista com ela no Brasil. Por decisão própria, ela resolveu sair do meio do showbiz e ir para a Europa. Mora lá até hoje. Ela é muito assediada pelos jornalistas da Argentina, mas só vi dar entrevista para a biografia escrita por Sergio Marchi. Na minha visão, eles sempre querem saber muito sobre os detalhes íntimos. Quando conversamos, deixei bem claro que minha intenção não era falar sobre coisas pessoais, mas sobre o papel dela como mediadora cultural.

Ela mudou a história da música argentina. Apresentou o Clube da Esquina para esses músicos todos, trouxe Charly e David Lebón para o Brasil, incentivou os dois a montarem o Seru Girán. Ela que acionou a Ivone para fazer o show do morro da Urca. É importante dar crédito a quem merece, e ela merece muito.

Outra coisa interessante foi entrevistar o guitarrista argentino Torcuato Mariano. Ele me falou que sempre teve Charly e Spinetta como grandes referências, e é um cara que tocou com todo mundo no Brasil. Hoje ele toca com o Djavan, mas já tocou com Gal Costa, Gilberto Gil, Cazuza, Caetano Veloso, Marina Lima. Indiretamente, ele colocou um pouco de rock argentino na música brasileira sem as pessoas saberem.

Ao todo, mapeei 39 apresentações de Charly no Brasil, tanto shows solo quanto participações em datas dos Paralamas e dos Cascavelletes. Pelo menos três não foram anunciados oficialmente – foram shows surpresa em bares. Descobrir a gravação em vídeo do show do Rio do Janeiro, feita pelo George Israel também foi algo muito emocionante. Nós assistimos juntos, digitalizamos e já falei para a equipe do Charly que o vídeo é deles.

O livro traz muita coisa inédita.

E o pessoal vai ter que ler para saber de tudo!

Exatamente! O Brasil desconhece sua própria importância nessa história, mas o livro vai ajudar a reivindicar que o Charly também é um pouco nosso. A motivação principal para escrevê-lo foi ler as obras que já existem sobre o Charly e perceber que tudo o que se falava sobre suas passagens pelo nosso país era superficial.

É importante dizer que o livro vai sair pela Satolep Press, uma editora do Sul, mas que ele é uma obra independente. A campanha está no ar e é flexível. Se não atingir a meta, vamos publicar mesmo assim. Como expliquei nas newsletters exclusivas para quem já comprou, os recursos extra vão ajudar a licenciar algumas fotos históricas que exigem alguma grana a mais. A previsão de entrega é novembro.

Toda vez que conversei com alguém sobre Charly, isso aconteceu em uma situação inesperada. Em uma ocasião, sentei em um avião ao lado de uma mulher com uma camisa do disco La Grasa de Las Capitales (1979). Outra vez, no aniversário de uma conhecida, ela me apresentou um rapaz que tinha uma banda chamada Perro Andaluz, nomeada em homenagem à canção do Seru Girán, que fazia covers de rock argentino. Traz a sensação de fazer parte de uma seita secreta.

O assunto do livro, em si, é uma coisa nichada. Por isso mesmo, a ideia foi fazer um texto que fosse mais aberto, trazendo muito contexto, muita explicação. É uma obra pensada para pessoas que realmente não são conhecedoras do Charly e querem saber mais sobre o personagem. Sob qualquer ótica, ele é um cara muito interessante.

Como falei em outra entrevista, eu não queria fazer uma biografia. Até porque, se a pessoa tem interesse em saber mais sobre a vida do Charly em um sentido geral, tem Wikipédia, Spotify, YouTube, um material gigantesco e fácil de acessar. Conhecer a fundo essas histórias, saber a importância de algumas pessoas, o porquê de algumas coisas, isso é que seria um diferencial. No livro, por exemplo, falo muito dos shows mais polêmicos, como o de Gramado (RS), em que ele jogou um sofá no Lago Negro, ou o do Bar Opinião em Porto Alegre, que foi bastante caótico. Tudo isso tem uma explicação que não está nas wikipédias da vida, mas que todos poderão ler nesse livro-reportagem.

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