Notícias

Chico Buarque: 82 anos de poesia, música e resistência

Há 82 anos, em 19 de junho de 1944 nascia o cantor, compositor, escritor e dramaturgo Chico Buarque de Holanda.

Considerado um dos maiores ícones da música popular brasileira (MPB), ele se notabilizou pelo lirismo de suas obras, convertidas em clássicos do cancioneiro nacional, marcadas pela expressão poética e pela afirmação da arte como agente transformador da realidade.

Engajado nas causas popular, Chico Buarque é autor de algumas das mais célebres canções de protesto criadas contra a ditadura militar. Também produziu alguns dos maiores marcos políticos da dramaturgia nacional. Prolífica, sua obra contabiliza mais de 80 discos, além de vários livros e peças de teatro.

Da juventude aos grandes festivais

Natural do Rio de Janeiro, Francisco Buarque de Holanda é filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Aos dois anos de idade, mudou-se com a família para São Paulo, onde o pai exerceu o cargo de diretor do Museu Paulista. Sete anos depois foi para Itália, novamente por força dos compromissos profissionais do pai, então nomeado professor da Universidade de Roma.

Na capital italiana, Chico conviveu com intelectuais e artistas que visitavam a casa da família, nomeadamente o poeta Vinícius de Moraes. Aos 15 anos compôs sua primeira música, intitulada Canção dos Olhos. Também escreveu algumas operetas encenadas por suas irmãs, Miúcha, Ana Maria, Cristina e Maria do Carmo.

Após seu retorno ao Brasil, Chico ingressou no curso de arquitetura da Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou a graduação logo após o golpe militar de 1964, quando o clima de repressão se alastrou nos meios universitários.

Dedicou-se então à carreira musical, lançando Sonho de um Carnaval e Pedro Pedreiro— obras já imbuídas das características que acompanhariam sua produção artística: o rigor lírico, a ligação com o samba urbano e o comprometimento social.

Chico Buarque se tornou nacionalmente conhecido em 1966, após vencer o Festival de Música Popular Brasileira com a canção A Banda, interpretada por Nara Leão. Destacou-se novamente no festival do ano seguinte com “Roda Viva”, interpretada em conjunto com o grupo MPB-4.

Em 1968, o cantor venceu mais um concurso — o III Festival Internacional da Canção —, apresentando-se com Sabiá, composta em parceria com Tom Jobim. O público, entretanto, contestou a vitória, manifestando sua preferência por Pra não dizer que não falei das flores, canção de protesto de Geraldo Vandré que conquistou o segundo lugar.

Em paralelo à participação nos festivais, Chico lançou diversas canções de sucesso nos anos 60, ajudando a consolidar a MPB — estilo que aliava a suavidade da bossa nova, tradições regionais e elementos do jazz norte-americano.

: Chico Buarque em 1972.
Arquivo Nacional.

A ditadura, o exílio e a dramaturgia

Chico Buarque também se notabilizou pela militância ativa contra a ditadura militar. Em junho de 1968, ele tomou parte da Passeata dos Cem Mil — grande manifestação popular contra o regime sediada no Rio de Janeiro.

Assediado e perseguido pelos militares, o cantor precisou se exilar na Itália, onde organizou alguns shows ao lado de Toquinho. Após retornar ao Brasil, dedicou-se a compor canções de protesto, frequentemente imbuídas de metáforas e alusões veladas à situação política e aos problemas sociais do país, como um meio de contornar a censura do regime militar.

São exemplares desse contexto obras como Construção, Partido Alto, Cálice, Apesar de Você, Meu Caro Amigo, Milagre Brasileiro, Acorda Amor, Mulheres de Atenas, Tanto Mar, entre várias outras.

Chico estreou na dramaturgia em 1965, quando musicou o poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça homônima exibida no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA).

A partir de então, teve presença constante no teatro. Em 1967, escreveu o texto do espetáculo “Roda Viva”, dirigido por José Celso Martinez Corrêa e estrelado por sua esposa, Marieta Severo. Convertida em um símbolo de resistência contra o regime, a montagem foi atacada por um grupo de 110 membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que invadiu o Teatro Galpão em São Paulo, destruindo o local e espancando os atores.

Chico também escreveu o roteiro de “Calabar: o Elogio da Traição”, uma releitura crítica que contesta o estigma imposto pela historiografia oficial a Domingos Fernandes Calabar, que se aliou aos holandeses contra os portugueses durante a Insurreição Pernambucana. A peça seria censurada pelo regime militar.

Outros textos de relevo incluem “Gota d’Água”, elaborada em parceria com Paulo Pontes, “Ópera do Malandro”, baseada na “Ópera dos Três Vinténs” de Bertolt Brecht e Kurt Weill, e “O Grande Circo Místico”, inspirado no poema modernista homônimo de Jorge de Lima.

Outros trabalhos

Além das músicas de protesto, Chico elaborou canções que privilegiavam a expressão dos sentimentos. Fez canções sobre nostalgia (Quem Te Viu, Quem Te Vê; Até Pensei, Realejo, Noite dos Mascarados), sobre o amor (Mulher, Vou Dizer o Quanto te Amo; Bom Tempo, Atrás da Porta, Trocando em Miúdos, Olhos nos Olhos, Pedaço de Mim), sobre a sensualidade (Morena de Angola, Folhetim, Tatuagem), sobre o desalento e a frustração (Desencanto) e sobre a esperança de dias melhores (Rosa dos Ventos, O Que Será?, Cio da Terra).

Em Cuba, Chico integrou o júri de teatro do prêmio Casa de las Américas, ocasião em que travou amizade com Pablo Milanés, Sílvio Rodriguez e outros compositores da Nueva Trova. Retornou a Cuba cinco anos depois, para participar do Primeiro Festival Internacional da Música Latina, em Varadero.

Nos anos 80, Chico Buarque tomou parte do projeto de criação coletiva baseada no poema de Patativa do Assaré, “Nordeste Já”, que reuniu 155 artistas visando arrecadar fundos para apoiar os flagelados da Grande Seca no Nordeste, que vitimou centenas de milhares de pessoas entre 1979 e 1984. Por ocasião do projeto, compôs as músicas “Chega de Mágoa” e “Seca d’Água”.

Chico também participou ativamente dos comícios que marcaram o movimento das “Diretas Já” em prol da redemocratização e tornou-se apoiador do Partido dos Trabalhadores (PT), integrando todas as campanhas eleitorais disputadas por Luiz Inácio Lula da Silva.

A partir dos anos 80, dedicou-se à literatura, campo em que também se destacaria, vencendo por três vezes o Prêmio Jabuti — um pelo “Melhor Romance” (Estorvo, 1992) e dois “Livros do Ano” (Budapeste, 2004; Leite Derramado, 2010).

Manteve-se politicamente engajado, apoiando as candidaturas de Dilma Rousseff em 2010 e 2014, protestando contra o golpe parlamentar de 2016, contra a prisão política de Lula e em favor da eleição de Fernando Haddad em 2018. Em 2019, foi laureado com o Prêmio Camões, principal galardão literário do mundo lusófono, concedido pelo conjunto de sua obra.

O post Chico Buarque: 82 anos de poesia, música e resistência apareceu primeiro em Opera Mundi.