
O presidente do Chile, José Antonio Kast, anunciou nesta quarta-feira (15) a realização do primeiro voo de deportação de imigrantes irregulares, marcado para a manhã desta quinta-feira (16).
A medida, apresentada durante seu primeiro discurso televisionado como chefe de Estado, segue a estratégia de espetacularização das políticas migratórias adotada por governos de extrema direita, como o de Donald Trump nos Estados Unidos.
Deportações como espetáculo midiático
“Amanhã, logo cedo, partirá o primeiro de muitos voos e ônibus que retirarão, de forma contínua, todos aqueles imigrantes irregulares que não devem permanecer em nosso país”, declarou Kast.
O primeiro voo deve levar entre 35 e 40 pessoas para Bolívia, Equador e Colômbia. O governo planeja realizar três voos por mês, expulsando cerca de 120 pessoas mensalmente e atingindo a meta de 1.400 deportações em um ano.
A anúncio de voos específicos com data e hora marcadas revela uma estratégia de comunicação que transforma a deportação em espetáculo, buscando impacto político imediato.
Historicamente, o Chile realiza voos fretados para deportação sem espetacularização. Em operações específicas, como no “Plano Colchane” em 2021, cerca de 138 migrantes foram expulsos em um único dia.
Críticos apontam que a medida visa mais a construção de uma imagem de “mão firme” do que efetivamente resolver questões migratórias complexas.
Associação simplista entre migração e crime
No início da gestão atual, havia um acúmulo de mais de 24.000 decretos de expulsão pendentes. O governo estabeleceu protocolos para priorizar a saída de estrangeiros com antecedentes criminais ou que representem riscos à segurança.
Kast justificou as deportações alegando que o Chile recebeu “mais de 300 mil imigrantes indocumentados, alguns deles ligados a redes de crime organizado que introduziram no Chile níveis de violência jamais vistos”. A fala repete o discurso simplista que associa automaticamente imigração à criminalidade, estratégia comum na extrema direita para gerar pânico moral e justificar políticas autoritárias.
Embora existam casos de imigrantes envolvidos em atividades criminosas — como em qualquer população —, a generalização estigmatiza milhões de pessoas que buscam no Chile condições melhores de vida. Organizações de direitos humanos alertam que essa retórica alimenta a xenofobia e desvia o foco das verdadeiras causas da insegurança pública.
“Escudo Fronteiriço”: muros e valas contra pessoas
O presidente anunciou a implementação do “Plano Escudo Fronteiriço”, que inclui a instalação de valas, muros, tecnologia de vigilância e destacamento conjunto das Forças Armadas e polícias na fronteira norte. Kast vangloriou-se de que, no primeiro mês de governo, houve “redução nas entradas irregulares” e “aumento das saídas voluntárias”.
A militarização das fronteiras e a construção de barreiras físicas remetem a políticas fracassadas em outras regiões do mundo. Especialistas em migração apontam que muros não impedem o fluxo migratório, apenas o tornam mais perigoso, empurrando imigrantes para rotas mais arriscadas e fortalecendo redes de tráfico de pessoas.
Megarreforma neoliberal disfarçada de “reconstrução”
Enquanto anunciava as deportações, Kast também apresentou sua “megarreforma” econômica, denominada “Projeto de Lei para a Reconstrução e Desenvolvimento Econômico e Social”. O plano inclui mais de 40 medidas, com destaque para a redução do imposto corporativo de 27% para 23% — o que a oposição de esquerda classificou como “reforma tributária disfarçada” que beneficia os mais ricos.
A sobreposição do anúncio de deportações com medidas neoliberais revela uma tática política: criar cortinas de fumaça com temas sensíveis para aprovar reformas impopulares. Enquanto a atenção pública se volta para os voos de deportação, o governo busca aprovar rapidamente cortes tributários que, segundo críticos, reduzirão a arrecadação e comprometerão políticas sociais.
Queda de popularidade e contradições
Apesar do discurso de “mão firme”, Kast enfrenta queda significativa de popularidade nas pesquisas apenas um mês após assumir o cargo. O forte aumento nos preços dos combustíveis e a recusa do governo em adotar medidas de controle irritaram a população chilena.
A contradição é evidente: enquanto anuncia deportações espetaculares, o governo não consegue resolver problemas econômicos urgentes que afetam diretamente a vida dos chilenos. A estratégia de culpar imigrantes por problemas estruturais — como violência e desemprego — é uma manobra antiga da extrema direita para desviar responsabilidades de gestão.
Modelo Trump na América do Sul
O anúncio segue à risca o manual de políticas migratórias de Donald Trump: voos de deportação com cobertura midiática, construção de barreiras físicas, retórica alarmista sobre “invasão” e associação automática entre imigrantes e crime. A diferença é que, no caso chileno, a medida é apresentada como “primeira de muitas”, indicando que o governo pretende tornar as deportações em massa uma política de Estado permanente.
Organizações internacionais de direitos humanos já manifestaram preocupação com o rumo das políticas migratórias no Chile sob o governo Kast. A estratégia de transformar seres humanos em “ameaças” a serem expulsas representa um retrocesso civilizatório e ignora as obrigações internacionais do Chile em matéria de proteção a refugiados e migrantes. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) expressou preocupação sobre a realização de expulsões coletivas sem avaliações individuais adequadas.
O primeiro voo de deportação anunciado por Kast é mais que uma medida administrativa: é um símbolo político que marca a entrada do Chile em uma nova era conservadora e autoritária. Ao priorizar a espetacularização das expulsões em detrimento de políticas migratórias humanizadas e integradas, o governo chileno repete erros de outras nações e ignora lições históricas sobre os efeitos devastadores da xenofobia institucionalizada.
Estima-se que existam entre 300.000 e 337.000 estrangeiros em situação irregular no Chile. A maioria dos afetados por decretos de expulsão é de origem venezuelana, seguida por colombianos, haitianos, peruanos e bolivianos.
O post Chile segue modelo Trump e anuncia voos de deportação de imigrantes apareceu primeiro em Vermelho.