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China denuncia interferência do Japão e reafirma princípio de Uma Só China

A China expressou nesta quarta-feira (12) “forte insatisfação e firme oposição” às declarações da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que vinculou a defesa de Taiwan à sobrevivência nacional japonesa. 

Pequim considera a fala uma “grosseira interferência nos assuntos internos da China” e uma violação direta do princípio de Uma Só China, base das relações diplomáticas entre os dois países desde a normalização das relações em 1972. 

A crise ocorre menos de um mês após Takaichi assumir o cargo, e representa a pior tensão sino-japonesa desde 2021.

Em coletiva de imprensa, o porta-voz do Gabinete de Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado, Chen Binhua, afirmou que “o mundo só tem uma China e Taiwan faz parte da China”. 

Ele lembrou que o Japão “cometeu inúmeros crimes contra o povo chinês durante seu domínio colonial sobre Taiwan” e que a China “restaurou a administração da ilha há 80 anos” após derrotar os agressores japoneses. 

“Se alguém tentar desafiar os interesses fundamentais da China e obstruir a reunificação chinesa, o governo chinês, o povo chinês e as forças armadas jamais aceitarão ou tolerarão tal ato”, advertiu. 

Chen instou o Japão a “refletir profundamente sobre a história, aprender com ela e aderir estritamente ao princípio de Uma Só China e ao espírito dos quatro documentos políticos” que regem as relações bilaterais. 

Ele também alertou as autoridades do Partido Democrático Progressista de Taiwan, no poder em Taipé, de que “qualquer plano para separar Taiwan da China por meio de forças externas está fadado ao fracasso”.

A resposta chinesa foi amplificada pela mídia estatal. O blog Yuyuan Tantian, ligado à emissora estatal CCTV, chamou Takaichi de “oportunista política” e afirmou que ela estaria “inflando a questão de Taiwan para fortalecer o controle de seu governo minoritário e justificar o aumento do orçamento militar japonês”. 

O texto, publicado pelo blog Yuyuan Tantian, ligado à CCTV, ironizava a premiê ao questionar se “Takaichi teria levado um coice na cabeça de um burro”, expressão usada para qualificá-la como tola. 

A publicação afirmava ainda que, se continuasse “a ultrapassar os limites e a falar besteiras”, poderia “ter de pagar um preço”.

O tom reativo foi seguido por uma publicação do cônsul-geral da China em Osaka, Xue Jian, que comentou as falas da primeira-ministra na rede X (antigo Twitter) e escreveu que “o pescoço sujo que se esticou deve ser cortado sem hesitação”. 

A postagem foi apagada, mas provocou protestos em Tóquio. Parlamentares de diferentes correntes classificaram o texto como “extremamente inapropriado”, e o secretário-chefe de gabinete Minoru Kihara afirmou que o Japão havia pedido a Pequim “medidas adequadas” contra o cônsul-geral.. 

O ministério das Relações Exteriores chinês, por sua vez, defendeu o diplomata e reafirmou, por meio do porta-voz Lin Jian, que Takaichi havia feito “comentários flagrantemente errados sobre Taiwan”, perguntando “para onde exatamente o Japão pretende levar suas relações com a China”.

Durante sessão parlamentar na sexta-feira (7), Takaichi afirmou que uma ofensiva chinesa contra Taiwan configuraria uma “situação de ameaça à sobrevivência” do Japão, expressão usada pela Lei de Segurança Nacional de 2015 para permitir que as Forças de Autodefesa atuem fora do território japonês em cooperação com aliados. 

A premiê se recusou a recuar, alegando que suas palavras eram “hipotéticas”, mas “consistentes com a posição do governo japonês”. 

Desde sua posse, Takaichi, de perfil nacionalista e próxima do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, defende o aumento dos gastos militares para 2% do PIB e a ampliação das capacidades de “contra-ataque”, com mísseis de longo alcance. 

A fala sobre Taiwan rompe com a ambiguidade estratégica que guiava as relações sino-japonesas e foi recebida em Pequim como um sinal de mudança qualitativa na política japonesa, aproximando o país da retórica de contenção militar promovida por Washington.

Especialistas em segurança afirmam que a escalada diplomática reflete tensões estruturais entre as duas maiores economias da Ásia. 

O analista Yasuhiro Kawakami, da Fundação pela Paz Sasakawa, disse ao Washington Post não acreditar que Takaichi pretendesse “ampliar o incidente”, mas advertiu que “empurrar o Japão ainda mais para o campo americano não é do interesse da China, e Pequim sabe disso”. 

Já o professor Ren Xiao, da Universidade Fudan, avaliou ao jornal que as reações chinesas “refletem a profunda desconfiança em relação à nova líder japonesa” e observou que “comentários emocionais e inflamados só agravarão a situação”. 

Segundo ele, “se Takaichi se recusar a ler o ambiente e dobrar a aposta em seus comentários desagradáveis, é claro que o lado chinês também não vai recuar”.

O incidente ocorre poucos dias depois do primeiro encontro entre Takaichi e o presidente Xi Jinping, à margem da cúpula da APEC na Coreia do Sul, quando ambos haviam prometido buscar uma “relação construtiva e estável”. 

Agora, o confronto sobre Taiwan reabre feridas históricas e coloca em xeque o diálogo bilateral. 

Para a China, as declarações japonesas rompem o pacto tácito do pós-guerra, segundo o qual Tóquio deveria manter-se neutra em disputas de soberania chinesa. Ao invocar a memória do colonialismo japonês e reafirmar o princípio de Uma Só China, Pequim reforça sua legitimidade histórica e a defesa da integridade territorial diante das novas pressões militares e políticas do eixo Washington-Tóquio no Indo-Pacífico.

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