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China e Coreia do Sul retomam diálogo em meio a tensões de ambos países com EUA

A China e a Coreia do Sul deram novos passos para recuperar o diálogo bilateral durante a visita do ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, a Seul, encerrada nesta quinta-feira (20/08). A viagem aconteceu em um momento de tensão na península coreana e de disputa crescente entre Estados Unidos e China pela influência na Ásia.

Foi a primeira visita de um chanceler chinês à Coreia do Sul em cinco anos. Em dois dias, Wang se reuniu com o ministro sul-coreano das Relações Exteriores, Cho Hyun, com o presidente, Lee Jae Myung, e com o assessor de Segurança Nacional, Wi Sung-lac. Ao receber Wang, Lee afirmou que as relações entre os dois países haviam alcançado uma “recuperação completa” e defendeu uma comunicação mais próxima com Pequim sobre a situação na península.

A agenda incluiu comércio, tecnologia, cadeias de abastecimento, intercâmbios entre os povos e a situação na península. Seul também reiterou sua posição de respeito ao princípio de uma só China, uma questão considerada central por Pequim nas relações bilaterais.

Aproximação econômica em meio à tensão regional

China e Coreia do Sul estabeleceram relações diplomáticas em 1992. Mais de três décadas depois, Pequim continua sendo o principal parceiro comercial de Seul, o que dá peso econômico à reaproximação. O comércio entre os dois países chegou a cerca de US$ 272,7 bilhões em 2025, envolvendo setores estratégicos como semicondutores, eletrônicos, baterias e componentes industriais.

Durante a visita, os dois governos concordaram em acelerar as negociações da segunda fase do acordo de livre comércio e ampliar a cooperação em comércio, investimentos, tecnologia e estabilidade das cadeias de abastecimento.

Também decidiram fortalecer intercâmbios entre jovens, universidades, meios de comunicação, centros de pesquisa, esportes e governos locais. Wang convidou Cho Hyun para visitar a China, e o chanceler sul-coreano aceitou o convite.

Os dois países esperam ainda superar 10 milhões de viagens anuais entre suas populações. A retomada desses intercâmbios faz parte de uma tentativa mais ampla de recuperar os vínculos entre as sociedades depois de anos de dificuldades políticas.

Os ministros das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e da Coreia do Sul, Cho Hyun, durante encontro em Seul
Os ministros das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e da Coreia do Sul, Cho Hyun, durante encontro em Seul
Foto: Yao Qilin/Xinhua

A importância da China para a economia sul-coreana aparece de forma particularmente clara no setor de semicondutores. China continental e Hong Kong receberam US$ 17,2 bilhões das exportações sul-coreanas de chips, mantendo o mercado chinês como destino estratégico para empresas do setor. Samsung Electronics e SK Hynix, duas das maiores fabricantes mundiais de chips de memória, também mantêm operações na China.

Ao mesmo tempo, Washington vem pressionando seus aliados a restringirem determinadas transferências de tecnologia para o mercado chinês. É uma das razões pelas quais Seul precisa administrar com cuidado sua relação com Pequim: sua economia está profundamente integrada às cadeias produtivas chinesas, enquanto sua estrutura de segurança continua ligada aos Estados Unidos.

Entre Washington, Pequim e a península coreana

A questão da segurança regional esteve no centro das conversas. Wang Yi afirmou que Pequim defende uma solução política e pacífica para a questão coreana e que a China pretende continuar contribuindo para a estabilidade da península. O chanceler Cho, por sua vez, pediu que Pequim ajude a criar condições para que Pyongyang volte ao diálogo.

A China também criticou a política de Washington em relação à Coreia do Norte. Wang defendeu uma mudança de postura dos Estados Unidos e a retomada do diálogo e da confiança entre as partes.

A posição chinesa ocorre justamente quando Washington tenta reabrir o canal com Pyongyang: Donald Trump voltou a manifestar disposição para conversar com Kim Jong-un e determinou uma redução dos exercícios militares conjuntos entre Estados Unidos e Coreia do Sul.

O Ulchi Freedom Shield, que começou na segunda-feira (17/08) e estava previsto para durar 11 dias, será encerrado na sexta-feira (21/08), seis dias antes do calendário original. A redução dos exercícios, no entanto, não eliminou a tensão.

Nesta quinta-feira, enquanto Wang concluía sua visita a Seul, a Coreia do Norte lançou mais de dez mísseis balísticos de curto alcance em direção ao Mar do Leste, segundo autoridades sul-coreanas. Pyongyang havia considerado insuficiente a redução dos exercícios.

É nesse cenário que Pequim defende que a Coreia do Sul mantenha maior autonomia estratégica e não seja obrigada a escolher entre China e Estados Unidos. Wang pediu que Seul mantenha relações equilibradas com as grandes potências e evite uma confrontação baseada em blocos. A posição chinesa ganha peso diante da presença militar estadunidense: cerca de 28.500 militares dos Estados Unidos estão estacionados na Coreia do Sul.

Seul ocupa, assim, uma posição particular. A China é seu principal parceiro comercial, enquanto os Estados Unidos continuam sendo seu principal aliado militar. A aproximação com Pequim não significa que a Coreia do Sul esteja abandonando Washington, mas amplia sua margem de negociação em um ambiente regional cada vez mais marcado pela competição entre as duas potências.

Para Pequim, a aproximação também tem importância econômica e diplomática. Além de fortalecer os vínculos com um dos principais países industriais da Ásia, a China busca evitar que a região seja organizada exclusivamente em torno da rivalidade com Washington. A questão da península acrescenta outra dimensão: Pequim mantém relações históricas com Pyongyang, mas vem defendendo a redução das tensões e a retomada das negociações.

Novos encontros

O próximo teste dessa relação pode acontecer em Shenzhen, no sul da China. A cidade receberá, em novembro, a reunião de líderes da Aliança de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, por sua sigla em inglês), que reúne 21 economias da região.

Durante a visita de Wang, Pequim informou que está considerando a realização de uma reunião entre Xi Jinping e Lee Jae Myung à margem da cúpula. A possibilidade ainda não foi oficialmente confirmada.

Um encontro em Shenzhen seria uma oportunidade para consolidar a reaproximação entre Pequim e Seul e discutir tanto a agenda econômica quanto a situação da península. Para a China, também representaria mais um passo na reconstrução de uma relação com um importante país asiático em meio à disputa estratégica com Washington.

A visita de Wang Yi não elimina as diferenças entre China e Coreia do Sul, nem resolve a questão coreana. Mas mostra que os dois países voltaram a investir em canais de diálogo e que há interesse dos dois lados em preservar a cooperação econômica, apesar das divergências políticas e de segurança.

Se o encontro entre Xi Jinping e Lee Jae Myung for confirmado em novembro, Shenzhen poderá se tornar o próximo cenário dessa reaproximação — e mais um espaço de negociação sobre os rumos da Ásia em meio à disputa entre Washington e Pequim.

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