
Nos países que transformaram a liberdade de expressão em dogma, a desinformação aprendeu a se disfarçar de opinião. É sob esse argumento — o direito de “dizer o que quiser” — que influenciadores sem preparo espalham receitas falsas, desacreditam vacinas e opinam sobre assuntos sensíveis que exigem formação técnica.
O resultado é uma avalanche de ruído travestido de debate público: cada postagem vira conselho médico, cada vídeo promete milagre, cada live ensina economia sem cálculo. A China decidiu agir de modo diferente. Em vez de tratar a desinformação como um preço inevitável da liberdade, o país optou por enfrentá-la como um problema de saúde social.
Desde outubro, novas regras obrigam influenciadores digitais a comprovar formação ou licença profissional antes de falar sobre temas sensíveis — entre eles, saúde, medicina, direito, finanças e educação.
A medida, anunciada pela Administração do Ciberespaço da China (CAC), reforça um conjunto de diretrizes já existentes desde 2022, mas que agora passam a ter aplicação direta e fiscalização mais rigorosa.
O regulamento transforma em exigência concreta as Normas de Comportamento dos Apresentadores de Transmissão Online, publicadas em 2022 pela Administração Nacional de Rádio e Televisão e pelo ministério da Cultura e Turismo.
O texto determinava que qualquer pessoa que tratasse de assuntos técnicos deveria comprovar credenciais adequadas.
Três anos depois, a regra sai do papel e ganha corpo. Plataformas como Douyin (versão chinesa do TikTok), Weibo e Bilibili agora são obrigadas a verificar diplomas, licenças e registros profissionais de quem produz conteúdo nessas áreas.
A CAC afirma que a iniciativa “foi criada para proteger as pessoas de conselhos prejudiciais disponíveis na internet” — uma forma de conter a proliferação de falsos especialistas que monetizam vídeos com promessas de cura, dietas milagrosas ou investimentos sem lastro.
A atualização mais recente também incorpora normas específicas para o setor médico, publicadas em agosto. Batizadas de Diretrizes para Regular o Comportamento das Mídias Autônomas de Divulgação Médica, elas foram elaboradas em conjunto por quatro órgãos: a CAC, a Comissão Nacional de Saúde (NHC), a Administração Estatal de Regulação de Mercado (SAMR) e a Administração Nacional de Medicina Tradicional Chinesa (NATCM).
Combate à desinformação na saúde
O foco inicial recai sobre o campo da saúde — um dos mais vulneráveis à desinformação global. Segundo dados oficiais, mais de 92% dos 1,07 bilhão de usuários chineses de vídeos curtos consomem conteúdo sobre saúde nas redes sociais.
Isso significa que, todos os dias, centenas de milhões de pessoas recebem conselhos de influenciadores que se apresentam como médicos, nutricionistas ou terapeutas.
As novas regras traçam uma fronteira clara entre informação pública e publicidade disfarçada. Criadores de conteúdo deverão apresentar comprovação profissional e declarar se o material foi produzido com uso de inteligência artificial.
Plataformas serão responsáveis por verificar a autenticidade das contas e remover conteúdos que promovam produtos ou serviços sob o disfarce de “educação em saúde”.
“Foi traçada uma linha clara entre a verdadeira educação em saúde pública e a publicidade comercial disfarçada”, afirmou Gu Baozhong, inspetor da Administração Estatal de Regulação de Mercado, à agência Xinhua.
A regulamentação é acompanhada de um segundo documento, as Diretrizes para Identificação de Anúncios Médicos, publicado em agosto, que padroniza a fiscalização de propaganda digital e reforça o combate à fraude e ao charlatanismo.
Um problema global
O debate não é exclusivo da China. No Ocidente, a ausência de regulação transformou o espaço digital em terreno fértil para a desinformação. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) identificou que apenas 2,7% das postagens sobre saúde no Instagram mencionam referências científicas.
Outro levantamento da Unesp aponta que grupos antivacina no Brasil reproduzem narrativas que questionam a eficácia das imunizações e difundem boatos sobre riscos inexistentes.
A situação se repete em outros países. Na Austrália, a influenciadora Taylor Winterstein ganhou notoriedade ao promover teorias conspiratórias contra vacinas sob o discurso de “bem-estar natural”.
Nos Estados Unidos, algoritmos de plataformas como TikTok e YouTube continuam a impulsionar vídeos antivacina, mesmo após políticas declaradas de moderação.
O argumento da “liberdade de expressão” tem sido usado para blindar tais influenciadores de qualquer responsabilização — mesmo quando seus conteúdos provocam danos coletivos.
A experiência chinesa propõe um contraponto: exigir qualificação técnica não é censurar, mas defender o direito à informação verdadeira e responsável.
Responsabilidade digital como política pública
A política chinesa parte de um princípio simples: quem fala em nome da ciência deve provar que a conhece. O Estado assume o papel de mediador entre a liberdade de criação e o dever de responsabilidade, impondo às plataformas e aos criadores as mesmas exigências que qualquer sociedade impõe a médicos, advogados ou jornalistas.
Para o governo chinês, a expansão da desinformação é um risco social comparável a epidemias e crises financeiras. A regulamentação das redes, portanto, não é um ataque à liberdade individual, mas um ato de proteção coletiva.
Enquanto países ocidentais ainda debatem os limites entre opinião e mentira, a China avança em uma estratégia que busca profissionalizar o ambiente digital e garantir que o conhecimento tenha lastro real.
Num tempo em que a verdade virou produto e a ignorância, moeda de engajamento, a exigência de diploma para influenciadores é menos uma censura e mais um antídoto.
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