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China ganha confiança global enquanto EUA perdem influência entre aliados

Quase um ano após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, uma onda de ceticismo varre o planeta. Segundo pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) com 21 países — complementada por um estudo da Ipsos com 30 nações —, a maioria das populações acredita que a China aumentará sua influência global na próxima década, enquanto os Estados Unidos são vistos como potência em declínio até por seus eleitores democratas e republicanos.

O estudo foi realizado em novembro de 2025, um ano após a vitória de Trump, e entrevistou 25.949 pessoas em 21 países, entre 15 europeus (Alemanha, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Estônia, França, Hungria, Itália, Polônia, Portugal, Rússia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Reino Unido) e seis não europeus (África do Sul, Brasil, China, Coreia do Sul, Estados Unidos e Índia).

A lógica do “América primeiro”, que prometia restaurar a grandeza dos EUA, está produzindo o efeito inverso: isolamento. Trump, com suas ameaças a aliados, ataques às instituições multilaterais e tarifas punitivas, é percebido como uma ameaça à estabilidade internacional. “Ele está traindo aliados, destruindo alianças e marginalizando a diplomacia”, afirma o pesquisador Pawel Zerka.

Uma maioria do Sul Global acredita ser possível manter relações com ambos os polos geopolíticos, Washington e Pequim. No Brasil, proporções semelhantes veem a China como aliada (27%) da mesma forma que veem os Estados Unidos (26%), uma opinião que pode ter mudado após os ataques à Venezuela. Mas se forçados a escolher entre um e outro, a China vem primeiro. O resultado? Um mundo que, mesmo sem entusiasmo ideológico, prefere a previsibilidade estratégica de Pequim à imprevisibilidade caótica de Washington.

Sul Global abraça China; Europa se distancia dos EUA

Os dados são contundentes. No Brasil, 73% veem a China como parceira necessária; na África do Sul, 85%; na Rússia, 86%. Mesmo em países tradicionalmente alinhados aos EUA, como o Reino Unido, metade da população acredita no avanço chinês. Apenas Ucrânia e Coreia do Sul enxergam Pequim predominantemente como rival.

Na Europa, a erosão da confiança é alarmante: apenas 16% dos europeus consideram os EUA aliados — queda de 5 pontos percentuais em meses. Ao mesmo tempo, 23% acreditam que as relações transatlânticas se enfraquecerão nos próximos cinco anos, mais do que em relação à China. Na Ucrânia, onde se esperaria lealdade incondicional a Washington, a confiança nos EUA caiu para 18%, enquanto a União Europeia ganha espaço com 39%. Para Kiev, a decisão dos chineses de não tomar partido claro na Guerra da Ucrânia e manter parceria comercial com Moscou, contrariando as sanções internacionais, reduz a simpatia pelo gigante asiático.

Essa desconexão reflete não apenas a política errática de Trump, mas também a percepção de que os EUA priorizam interesses unilaterais em vez de parcerias duradouras.

China resiste, exporta e se impõe — mesmo com fragilidades internas

Enquanto Trump apostava que a desaceleração econômica e a crise imobiliária tornariam a China vulnerável, Pequim surpreendeu. Diante das novas tarifas americanas, não recuou. Retaliou com precisão: restringiu exportações de terras raras — essenciais para indústrias de defesa e tecnologia dos EUA — e redirecionou fluxos comerciais para Ásia, México, Oriente Médio e África.

O resultado? Em 2025, a China registrou superávit comercial superior a US$ 1 trilhão — recorde histórico — mesmo com queda nas vendas aos EUA. Seu PIB cresceu 4,9%, acima das expectativas, impulsionado por exportações de painéis solares, veículos elétricos, aço e máquinas. Enquanto Washington falava em “de-risking” (ou redução de risco), Pequim demonstrava que o mundo ainda depende de sua capacidade produtiva.

Internamente, porém, persistem desafios: consumo fraco, investimento em queda, dívida local e cautela do setor privado. A China resiste externamente, mas ainda não converteu essa força em recuperação doméstica plena.

Investir na China? Sim — mas sob novas regras de soberania

A pergunta que volta aos mercados — “a China é investível?” — recebe agora uma resposta matizada: sim, mas não como antes. Pequim abriu espaço para capital estrangeiro em setores estratégicos como IA industrial, automação, energia limpa e manufatura avançada. Mas sob uma condição clara: o investimento deve fortalecer a autossuficiência chinesa, não criar dependência.

Empresas como Nvidia e Google continuam atraídas pelo ecossistema tecnológico chinês, mas enfrentam limites impostos por ambas as margens do Pacífico. Nos EUA, democratas e republicanos concordam em endurecer controles sobre semicondutores, dados e infraestrutura crítica. No Congresso, propostas bipartidárias para restringir investimentos em tecnologia chinesa avançam rapidamente.

Assim, o que se desenha não é um desacoplamento abrupto, mas um desacoplamento gerenciado: lento, seletivo, mas irreversível em áreas sensíveis.

2026: janela estreita para estabilidade — ou nova escalada

Uma possível visita de Estado de Trump a Pequim em abril de 2026 pode trazer uma trégua temporária. Mas a memória da última visita presidencial — em 2017, seguida pela guerra comercial de 2018 — mantém Pequim em alerta. Além disso, as eleições de meio de mandato nos EUA devem reacender retóricas anti-China, pressionando por medidas legislativas que nem cúpulas poderão reverter.

Enquanto isso, a China avança com seu modelo de “novas forças produtivas”, integrando IA, robótica e logística inteligente para consolidar sua posição como centro da cadeia global de valor. Seu sucesso não depende mais de aprovação ocidental — e sim da capacidade de oferecer alternativas concretas ao Sul Global.

Um mundo pós-ocidental já está em marcha

Os números não mentem: 50% dos entrevistados veem a China com influência positiva no mundo — ante apenas 48% para os EUA, queda de 12 pontos em um ano. No Brasil, a confiança nos EUA despencou 18 pontos; na China, subiu para 68%.

Mais do que uma mudança de percepção, trata-se de uma mudança de época. O mundo já não aceita a dicotomia “com os EUA ou contra eles”. Prefere navegar entre potências, buscando autonomia. E nesse novo tabuleiro, a China — apesar de suas contradições — aparece como a única alternativa viável à ordem liderada por Washington.

Trump pode ter querido fazer a América grande novamente. Mas o que fez foi acelerar o fim da era americana — e abrir caminho para um mundo multipolar, onde o Sul Global finalmente tem voz.

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