
Um marco histórico na transição energética global. Em 2025, a China atingiu um ponto de inflexão sem precedentes: todo o crescimento da demanda por eletricidade no país foi suprido integralmente por fontes de energia renovável. Isso significa que a expansão econômica e o aumento do consumo de energia ocorreram sem nenhuma pegada de carbono adicional.
O dado é o destaque do “Relatório de Desenvolvimento de Energia Renovável da China 2025”, divulgado pelo Grupo de Consultoria em Engenharia Hidrelétrica da China, que também projeta um salto ainda maior para o próximo ano. O feito ganha relevância porque ocorre justamente no momento em que cresce a disputa geopolítica em torno das tecnologias verdes, dos minerais estratégicos e da liderança industrial do século XXI.
Mais do que ampliar a participação das energias limpas, Pequim demonstra que uma economia continental, com mais de 1,4 bilhão de habitantes e um dos maiores parques industriais do planeta, já consegue sustentar sua expansão econômica sem depender do aumento da geração fóssil. Com isso, a China alcançou em 2025 um resultado que há poucos anos parecia distante mesmo para os mais otimistas defensores da transição energética.
Renováveis se tornam maioria no sistema elétrico
Os dados do relatório mostram uma transformação estrutural.
O ano de 2025 foi marcado por uma reconfiguração definitiva da matriz energética chinesa. A capacidade instalada de energia renovável cresceu exponencialmente, com um recorde de 452 milhões de quilowatts (kW) adicionados em apenas 12 meses. O parque gerador total de fontes limpas alcançou 2,337 bilhões de kW, representando 60,1% de toda a capacidade instalada do país.
O símbolo dessa transformação é a “tripla ultrapassagem” da combinação de energia eólica e solar, que atingiu 1,842 bilhão de kW. Pela primeira vez, a capacidade instalada de eólica e solar superou a energia térmica (carvão e gás) e também a maior carga histórica do sistema elétrico chinês.
Na prática, a geração combinada de vento e sol chegou a 2,3 trilhões de kWh, volume superior ao consumo de eletricidade dos setores primário (agropecuária) e terciário (serviços) somados, efetivamente substituindo a queima de carvão. Trata-se de uma mudança histórica em um país cuja industrialização esteve associada, durante décadas, ao carvão mineral.
O carvão começa a perder espaço
Embora o carvão continue sendo um componente importante da matriz energética chinesa, os sinais de mudança tornam-se mais evidentes.
A geração eólica alcançou 1,13 trilhão de quilowatts-hora e a solar chegou a 1,17 trilhão. Juntas, responderam por cerca de 22% de toda a eletricidade produzida no país.
Enquanto isso, a geração térmica registrou sua primeira queda em uma década, recuando 0,7% em relação ao ano anterior.
Não se trata ainda do abandono do carvão, mas de um sinal claro de desacoplamento entre crescimento econômico e expansão das fontes fósseis.
O mercado de eletricidade e a “curva do pato”
A massiva inserção de fontes intermitentes exigiu uma modernização radical do mercado de eletricidade chinês. Em 2025, o volume de negociação no mercado spot ultrapassou 6,6 trilhões de kWh, respondendo por 64% de todo o consumo da sociedade. O relatório destaca a formação da clássica “curva do pato” nos preços à vista: com a abundância de energia solar, os preços despencam ao meio-dia, no pico da geração fotovoltaica, e disparam no início da noite, quando o sol se põe e a demanda residencial aumenta.
Essa dinâmica impulsionou o mercado de Certificados Verdes. A negociação de ativos ambientais explodiu 108%, com 930 milhões de certificados transacionados. O preço médio saltou de 2,12 para 5,57 yuans, refletindo a maior valorização corporativa e social do valor ambiental da energia limpa.
Para lidar com a intermitência, o país também expandiu agressivamente o armazenamento: a capacidade de novos sistemas de armazenamento de energia atingiu 136 milhões de kW, um aumento de mais de 40 vezes em relação ao final do 13º Plano Quinquenal.
Liderança global cada vez mais consolidada
O relatório mostra também o peso da China na transformação energética mundial.
Em 2025, o mundo adicionou aproximadamente 702 milhões de quilowatts de nova capacidade renovável, o equivalente a 84,7% de toda a expansão da capacidade elétrica global. Desse total, 63,6% vieram da China.
Em outras palavras, quase dois terços de toda a expansão renovável do planeta ocorreram em território chinês.
Isso ajuda a explicar por que o país domina atualmente cadeias produtivas estratégicas ligadas à energia solar, baterias, veículos elétricos e equipamentos de transmissão.
Uma lição para o mundo — e para o Brasil
A China não apenas descarboniza sua própria economia, mas dita o ritmo da transição global.
O ritmo não deve desacelerar. O relatório projeta que, em 2026, a China adicionará aproximadamente 300 milhões de kW apenas em energia eólica e solar (sendo 100 milhões de kW em eólica e 200 milhões de kW em solar).
Com a consolidação do mercado unificado nacional de eletricidade e o estabelecimento de um mecanismo regular de negociação entre as diferentes áreas de operação das redes, a energia renovável chinesa se prepara para continuar como a principal força motriz na construção de uma economia verde, provando que o crescimento econômico e a sustentabilidade climática podem, de fato, caminhar juntos.
A principal conclusão do relatório é que a transição energética deixou de ser apenas uma política ambiental e passou a ser uma estratégia de desenvolvimento nacional.
A China demonstra que energia limpa, planejamento estatal, política industrial e inovação tecnológica podem caminhar juntos. O país não apenas reduz emissões, mas fortalece sua competitividade econômica, amplia sua segurança energética e consolida posições estratégicas em setores decisivos para a economia do futuro.
Para países como o Brasil, que possuem abundância de recursos naturais, potencial renovável e reservas estratégicas de minerais críticos, a experiência chinesa reforça uma questão central: a disputa do século XXI não será apenas sobre produzir energia limpa, mas sobre dominar as cadeias industriais, tecnológicas e produtivas que surgem a partir dela.
O post China: nova demanda por eletricidade é 100% atendida por renováveis apareceu primeiro em Vermelho.