Notícias

China supera EUA pela primeira vez e é líder em avaliação global

Pela primeira vez desde o início das séries históricas de comparação internacional, a imagem global da China supera a dos Estados Unidos em avaliações de opinião pública realizadas em diversos países. Os resultados, destacados pelo jornal chinês Global Times com base em dados do Pew Research Center e repercutidos por veículos internacionais como Associated Press, The Washington Post, BBC e Bloomberg, indicam uma inflexão nos indicadores de soft power simbólica na disputa por influência internacional.

Embora a diferença entre as avaliações varie conforme o país pesquisado, o levantamento revela uma tendência inédita: a percepção favorável em relação à China cresce ao mesmo tempo em que a imagem internacional dos Estados Unidos enfrenta desgaste em diversas regiões.

Veículos de imprensa norte-americanos e europeus classificaram o resultado como “altamente simbólico” e “preocupante para o Ocidente”. De acordo com analistas políticos de prestígio internacional, a inversão não é um fenômeno isolado, mas o coroamento de uma tendência de longo prazo em que a influência cultural, econômica e diplomática chinesa avança de forma consistente, especialmente entre as nações do Sul Global.

Diplomacia econômica amplia influência chinesa

Analistas atribuem parte desse movimento ao fortalecimento da presença econômica chinesa nas últimas duas décadas.

A expansão da Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), os investimentos em infraestrutura, a consolidação da China como principal parceiro comercial de dezenas de países e o avanço tecnológico em áreas como energia renovável, veículos elétricos, inteligência artificial e telecomunicações contribuíram para ampliar o peso internacional de Pequim.

Ao contrário do período em que sua inserção global era predominantemente baseada na produção industrial de baixo custo, a China passou a disputar liderança também em inovação tecnológica, financiamento internacional e infraestrutura digital.

Esse reposicionamento fortaleceu sua presença sobretudo na Ásia, África, América Latina e parte do Oriente Médio.

Estados Unidos enfrentam desgaste de imagem

Em contrapartida, a avaliação dos Estados Unidos tem sofrido erosão constante. A polarização política interna crônica, a instabilidade em ciclos eleitorais recentes e uma política externa frequentemente vista como unilateralista minaram a credibilidade de Washington como “farol da democracia”.

Além disso, medidas protecionistas, como a imposição de tarifas comerciais agressivas e o uso do sistema financeiro global como arma geopolítica (sanções), geraram desconfiança até mesmo entre aliados tradicionais. A percepção de que os EUA priorizam o “America First” em detrimento da cooperação multilateral criou um vácuo de liderança que Pequim tem preenchido com eficiência diplomática e econômica.

A volta de Donald Trump à presidência reforçou essa percepção em diversos segmentos da opinião pública internacional, especialmente diante da retomada de tarifas comerciais, da revisão de acordos multilaterais e da adoção de uma estratégia mais confrontacionista em relação à China e a outros parceiros.

Especialistas observam que a avaliação internacional de um país não depende apenas de sua capacidade militar ou econômica, mas também da previsibilidade de sua diplomacia, da confiança institucional e do grau de cooperação com outros Estados.

Economia e tecnologia moldam a nova disputa

O avanço da imagem chinesa ocorre paralelamente à consolidação de sua posição como segunda maior economia do mundo e protagonista em diversos setores estratégicos.

Além do crescimento do comércio exterior, Pequim ampliou investimentos em infraestrutura, semicondutores, inteligência artificial, energias limpas e sistemas digitais de pagamento, áreas consideradas decisivas para a competitividade global nas próximas décadas.

Ao mesmo tempo, a internacionalização de empresas chinesas e a ampliação das relações comerciais com economias emergentes reforçaram a percepção de que o país se tornou um dos principais motores da economia mundial.

O fator Sul Global e a diplomacia econômica

O principal motor dessa guinada estatística reside no Sul Global. Países da África, América Latina e Sudeste Asiático têm avaliado cada vez mais positivamente a atuação de Pequim. A expansão da Iniciativa do Cinturão e Rota (Nova Rota da Seda), o fortalecimento do bloco BRICS e a oferta de financiamento para infraestrutura sem as condicionalidades políticas tradicionalmente exigidas por instituições ocidentais (como o FMI e o Banco Mundial) têm sido decisivos.

Para muitas dessas nações, a China é vista não como uma potência intervencionista, mas como um parceiro comercial pragmático que respeita a “não interferência” em assuntos internos. Essa percepção contrasta com décadas de histórico colonial e intervencionista de potências ocidentais, fazendo com que a narrativa de desenvolvimento chinês ganhe tração como um modelo alternativo viável.

Em muitas economias em desenvolvimento, Pequim passou a ser vista como importante fonte de investimentos, financiamento e cooperação tecnológica, ampliando sua presença em setores como energia, logística, mineração, agricultura e telecomunicações.

Esse processo também se reflete na expansão de fóruns multilaterais como o BRICS ampliado e em iniciativas voltadas à diversificação dos mecanismos internacionais de financiamento e comércio.

Um retrato da transição do sistema internacional

Embora pesquisas de opinião representem percepções e não indicadores diretos de poder econômico ou militar, o levantamento do Pew Research Center oferece um retrato significativo das transformações em curso no sistema internacional.

As pesquisas do Pew Research Center continuam a mostrar um abismo acentuado: enquanto a China lidera ou empata em grande parte do Sul Global, os Estados Unidos mantêm uma vantagem sólida e inquestionável na Europa, no Japão, na Coreia do Sul e em outras democracias consolidadas. Portanto, a “superação global” é, em grande parte, um reflexo matemático do peso demográfico e do número de países em desenvolvimento que migraram sua avaliação positiva para Pequim.

O que o dado inegavelmente prova, contudo, é que o monopólio do soft power norte-americano chegou ao fim. O mundo não está mais disposto a avaliar a liderança global por uma única lente, e a China conseguiu, pela primeira vez, apresentar-se ao mundo não apenas como uma fábrica, mas como uma potência com atrativo político e ideológico.

Mais do que indicar um deslocamento definitivo da liderança mundial, os resultados sugerem que a competição entre Washington e Pequim passou a ocorrer não apenas nos campos econômico, tecnológico e estratégico, mas também na disputa pela legitimidade, pela influência política e pela percepção pública internacional.

O post China supera EUA pela primeira vez e é líder em avaliação global apareceu primeiro em Vermelho.