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Toda epidemia tem uma geografia, e essa geografia quase nunca é obra do acaso. O vírus chega depois; antes dele vêm o abandono e a longa contabilidade de quem o Estado decidiu proteger e quem deixou entregue à própria sorte.
É dessa contabilidade que trata Peter Hotez — médico, cientista de vacinas e um dos rostos mais visados pela cruzada anticiência nos Estados Unidos. Sua conversa parte do Texas e do México e aterrissa, sem escalas, aqui.
Hotez reconstrói a história de uma fronteira que a Coroa espanhola largou ao léu porque não dava prata. No vazio econômico avançaram as missões religiosas do século XVI, e com elas a varíola e o sarampo que despovoaram a região.
A lição é dura e não envelheceu: a doença sempre acompanhou o mapa da extração e do descaso. O que ele narra no norte do continente, o Brasil conhece pelo avesso. As doenças tropicais a que dedicou quarenta anos de pesquisa — a ancilostomíase entre elas — nunca foram um destino climático. Foram, e continuam sendo, enfermidades da desigualdade: prosperam onde falta saneamento, onde falta teto, onde falta quase tudo.
Houve um tempo, há mais de um século, em que o país encarou esse espelho sem desviar os olhos. Sanitaristas entenderam que o sertão adoecido era a própria nação inacabada — que um povo doente jamais seria um povo livre.
Drenaram pântanos, enfrentaram a febre amarela nos portos, ergueram do nada institutos que fabricavam soros e vacinas, deram nome a males que o mundo ainda ignorava. Faziam ciência e faziam país no mesmo gesto, convencidos de que sanear era a maneira mais concreta de civilizar.
Essa intuição demorou décadas para virar direito. Chegou com a redemocratização, quando a Reforma Sanitária inscreveu na Constituição de 1988 uma frase que ainda hoje cobra do país que a cumpra: a saúde é direito de todos e dever do Estado, com acesso universal e igualitário (artigo 196).
O Sistema Único de Saúde nasceu daí e varreu o entulho do velho INAMPS — o modelo que só amparava o trabalhador de carteira assinada e relegava o restante à caridade ou ao desamparo.
Universalizar o cuidado foi, talvez, a maior conquista civilizatória da nossa história recente. Uma sociedade se mede pela resposta que oferece a quem não tem como se defender; aqui, pela primeira vez, a resposta foi: todos.
Hotez enxerga isso com a nitidez de quem nota de fora. Celebra o SUS, a Fiocruz, o Butantan, e aposta que países como o Brasil podem liderar um modelo de ciência aberta. Não é retórica.
Na pandemia, recusou patentes e cedeu sua tecnologia de vacina à Índia e à Indonésia; o gesto imunizou cem milhões de pessoas que a indústria farmacêutica havia abandonado.
Eis a prova de que a ciência pode ser bem comum, e não a renda de um monopólio — de que existe escolha entre salvar vidas e blindar lucros. Foi o golpe de um estadunidense nas Big Pharma de seu próprio país. Não foi traição. Foi humanismo.
Há um ponto, e um só, em que vale ir além do que ele diz. Hotez observa, com razão, que nossas universidades precisam de mais recursos, e lembra o financiamento privado que sustenta Harvard ou Yale.
A filantropia dos bilionários americanos é, inicialmente, um arranjo tributário: doa-se porque o imposto perdoa. Num país onde a riqueza se concentra como em pouquíssimos lugares do planeta, o caminho mais justo não é aguardar a generosidade dos muito ricos — é taxá-la. Tributar grandes fortunas para custear ciência pública seria a tradução brasileira, e bem mais democrática, daquilo que ele defende.
A pandemia não poupou nenhuma dessas verdades. Sem equipamentos de proteção, sem laboratório próprio, sem vacina soberana, sobraram os caixões. Um Estado que abdica da ciência não se torna neutro: decide, pela omissão, quem vive e quem é empurrado para a morte — e essa conta recai quase sempre sobre eles.
No Brasil recente, isso teve estatuto de política. A desinformação virou método de governo, e os números medem o estrago: a cobertura contra a poliomielite, que beirava 98% em 2015, despencou para 67% em 2021; a tríplice viral caiu de 96% para 71%; as campanhas contra o HPV simplesmente evaporaram.
O sarampo, que havíamos eliminado em 2016, voltou a circular pelo país. Não é questão de opinião — aqui, a mentira mata. É o mesmo maquinário que Hotez descreve nos Estados Unidos: a anticiência convertida em identidade política, irrigada por uma indústria do “bem-estar” que vende suplemento no lugar de remédio e mantém a população, como ele resume, ignorante e doente. Quem trocou a biblioteca pelo portal conspiratório não ficou mais livre; ficou mais exposto.
O que está em jogo não é uma disputa técnica. É a escolha entre uma sociedade que se organiza para cuidar e outra que se acostuma a deixar morrer. Hotez fala da força da ciência brasileira como um presente que o país tem a dar ao mundo. O Brasil precisa acreditar nisso — tratar quem fabrica esse presente, dos laboratórios às salas de aula, como aquilo que de fato é: a linha de defesa de um povo inteiro.
Eis a entrevista.
Comecemos pelo seu próximo livro. A fronteira entre o Texas e o México sempre foi uma região de migração intensa, de ecologia singular e de profundo isolamento econômico. De uma perspectiva histórica, de que modo essa realidade política influenciou a maneira pela qual a ciência médica se aproximou das doenças tropicais naquela região?
É uma boa pergunta. Após o colapso do Império Asteca, no início do século XVI, aquela região tornou-se o Reino da Nova Espanha. E a Nova Espanha, naturalmente, era enorme: estendia-se da atual Califórnia, atravessando o Texas, até lugares como a Guatemala. Geograficamente, correspondia a cerca de metade do tamanho da Rússia atual — essa era a dimensão da Nova Espanha.
O centro do império da Nova Espanha era, evidentemente, a Cidade do México — uma cidade poliglota e multicultural nos séculos XVI e XVII. Mas o objetivo central da Nova Espanha era gerar receita, enviar riquezas de volta à Espanha e à Europa. Havia, portanto, uma ênfase acentuada na extração da prata, remetida das minas de Potosí e de Durango à Espanha. O problema do território que viria a se tornar a província do Texas, no século XVI e ainda no XVII, era que ali não havia prata — não havia nada capaz de gerar receita para a Espanha. Assim, a região foi praticamente abandonada.
Era habitada sobretudo por populações indígenas. Chamavam-na, de fato, de Fronteira Nordeste da Nova Espanha. Era um território desolado: viviam talvez 40 mil pessoas em toda aquela região do mundo. Então começaram as incursões da França, interessada na área, e a expansão dos Estados Unidos. Foi nesse momento que se estabeleceram as missões franciscanas na Fronteira Nordeste. Os frades franciscanos passaram a fundar essas missões — e, infelizmente, foi quando as epidemias começaram a chegar, como a varíola e o sarampo, provocando uma severa despovoação da região.
O que conhecemos como Texas — nome derivado dos índios Caddo — foi intensamente despovoado ao longo do século XVIII, a ponto de o governo da Nova Espanha precisar de gente. Foi isso que trouxe os anglo-americanos para a colônia de Austin. E então começamos a ver a malária, a cólera e outras doenças disseminadas pelo tráfego comercial — e a febre amarela.
O seu livro, mais uma vez, conecta a história à nossa crise presente. Em sua avaliação, o isolamento histórico dessa região criou as condições para o atual movimento anticiência, ou estamos diante de um fenômeno inteiramente novo?
Ao longo das centenas de anos da história do Texas — depois que o Texas se tornou um país independente, em 1836, e, em seguida, um estado —, a região foi profundamente marcada pelas enfermidades. Doenças como a malária e a cólera mudaram completamente o curso da história texana, e é sobre isso que estou escrevendo. Mas, agora, algumas dessas doenças estão retornando.
Com a modernização, a prevalência diminuiu. Agora, porém, elas voltam — e voltam em razão de forças próprias do século XXI, como a mudança climática e a urbanização. É por isso que começamos a ver, evidentemente, fenômenos como a covid-19, mas também o retorno das doenças transmitidas por carrapatos. Assistimos ao retorno do tifo ao Texas; ao retorno de infecções virais transmitidas por mosquitos, como a dengue — quase como no Brasil. Começamos a ver a malária retornar ao Texas. E penso que os vetores desse processo são a mudança climática e a urbanização.
Agora, temos um terceiro problema. Não se trata apenas da mudança climática e da urbanização, mas das forças anticientíficas, que bloqueiam a nossa capacidade de resposta. Esse será o grande ponto de interrogação sobre o que o futuro reserva ao Texas como consequência.
Para compreender esta crise: onde começou o moderno movimento antivacina nos Estados Unidos? Ele foi, desde a origem, um instrumento político, ou tornou-se político ao longo do tempo?
Escrevi sobre isso em um livro anterior, Science Under Siege (Ciência sob cerco), com Michael Mann, em 2025. O movimento antivacina começou a se acelerar em torno das falsas alegações de que as vacinas causariam autismo — isso teve início por volta de 1998, e esse fio condutor jamais desapareceu. Há cerca de doze ou treze anos, porém, o movimento tornou-se mais político, articulado em torno dos conceitos de “liberdade sanitária” e de “liberdade médica”, e passou a receber dinheiro político. Começamos, então, a ver candidatos concorrendo com plataformas antivacina. Essa foi a versão 2.0: o autismo foi a versão 1.0; a inflexão política, a versão 2.0.
E agora temos uma versão 3.0, que é a indústria dos influenciadores de saúde e bem-estar — suplementos e vitaminas. Eles vendem ivermectina, ou vendem hidroxicloroquina, como substitutos de intervenções médicas reais, e isso também está provocando um enorme problema. Temos, portanto, três componentes no movimento antivacina: o autismo, iniciado em 1998; o componente político, de cerca de doze anos atrás; e, agora, a indústria dos influenciadores de bem-estar.
Hoje assistimos a uma transformação massiva em Washington: a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, os cortes à USAID, com Donald Trump e Robert Kennedy Jr. agora à frente da política de saúde. Quão perigoso é este momento para a ciência global?
A grande preocupação, agora, é que o mesmo fenômeno que ocorre no Texas e no México — o retorno dessas ameaças pandêmicas — está acontecendo em escala global, e com vetores semelhantes: a mudança climática e a urbanização. As próximas décadas serão as décadas das ameaças pandêmicas. Já tivemos três epidemias e pandemias de coronavírus: a SARS, depois a SARS-2, depois a MERS. E, agora, três grandes epidemias de ebola: em 2014, em 2019 e em 2026.1 O nosso novo normal são essas pandemias.
Agora, mais do que nunca, é importante apoiar os nossos virologistas e os nossos epidemiologistas. Porque, do contrário, não apenas os Estados Unidos, mas países do mundo inteiro enfrentarão uma crise real diante dessas ameaças pandêmicas.
O livro que escrevi com Michael Mann no ano passado dizia, em essência, que temos três ameaças existenciais à humanidade. A primeira são as pandemias; a segunda é a mudança climática. Mas agora há uma terceira: a má informação e a desinformação, que bloqueiam a nossa capacidade de responder adequadamente. É isso que precisamos resolver.
Doutor Hotez, o senhor escreveu que Trump criou uma identidade política baseada na rejeição à ciência. Trata-se de um fenômeno singularmente estadunidense, ou já estamos diante de uma ideologia anticiência global, com Trump em seu centro?
Penso que não é correto atribuir a culpa a Trump em si. Na verdade, esse processo se acelerou, em muitos aspectos, fora de Trump. Não que ele esteja ajudando — mas trata-se de um problema muito maior do que o presidente. Tornou-se um fenômeno anticientífico globalizado. É político, sem dúvida; mas é também fortemente alimentado por muito dinheiro, vindo da indústria do bem-estar e dos influenciadores.
Por isso considero um tanto equivocado concentrar o foco no presidente Trump. Penso que precisamos encarar isso como um fenômeno que observamos com mais frequência entre regimes autoritários — e foi por isso que o vimos no Brasil, com Bolsonaro, por exemplo. Esse é um caso. E agora o vemos inclusive em partidos políticos de extrema direita na Alemanha, como a AfD, a Alternativa para a Alemanha. Vemos esse fenômeno despontar até mesmo na América Latina — no México, por exemplo, começamos a ver forças anticientíficas. É um fenômeno multidimensional, mas muito poderoso. Sou frequentemente atacado por causa dele — e é muito perigoso.
Quando os Estados Unidos cortam os fundos internacionais destinados à saúde, qual é o impacto sobre o Sul Global? Estamos contemplando um futuro de novas pandemias sem controle?
Essa é uma grande preocupação. Por causa do império da desinformação, somado aos cortes globais, estamos hoje menos preparados para responder a pandemias do que estávamos antes. Estou extremamente preocupado, por exemplo, com a perigosíssima epidemia de ebola na República Democrática do Congo: algumas projeções de modelagem sugerem que ela pode assumir grandes proporções — talvez tão extensas quanto as da epidemia de 2014. E, quando isso começa a acontecer, há transbordamento para outros países.
A questão é que, se olharmos para os últimos vinte ou vinte e cinco anos, vemos agora uma espécie de cadência regular, uma sequência de pandemias e epidemias. Podemos percorrê-la: em 2002, a SARS original; em 2012, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio; em 2014, o ebola na África Ocidental; em 2016, a zika, que emergiu do Brasil e do Caribe e alcançou o sul do Texas e o sul da Flórida; em 2019, uma enorme epidemia de ebola no leste da República Democrática do Congo — e, também em 2019, evidentemente, a covid-19.2 E agora temos o H5N1, que nos preocupa muito, e uma terceira grande epidemia de ebola. A mensagem é clara: isso se tornou algo regular. Veremos essas epidemias e pandemias em bases regulares.
Precisamos, antes de tudo, oferecer melhor sustentação à Organização Mundial da Saúde — e o apoio do governo estadunidense precisa, agora, alinhar-se mais estreitamente à OMS. Isso precisa ser corrigido. Os perigos da retirada dos Estados Unidos do financiamento global também nos fizeram reconhecer que precisamos que as demais economias do G20 — o grupo das vinte maiores economias — ampliem o seu apoio à saúde global.
Sempre estivemos em perigo, porque nos tornáramos, desde o início, dependentes demais dos Estados Unidos. Agora a mensagem é clara: é disso que precisamos. Quais são os países do G20 na América Latina? A Argentina, o Brasil, o México. São países ricos, em certos aspectos, e precisamos que eles avancem — tanto oferecendo apoio quanto oferecendo inovações. Precisamos de mais apoio global, vindo de lugares como a Índia, a China e o Japão, da Ásia e, evidentemente, da União Europeia. Porque, do contrário, continuaremos enfrentando esse declínio regular por causa das pandemias.
Durante a covid, o senhor e a sua equipe desenvolveram uma vacina livre de patentes, disponibilizada aos países de baixa renda. Foi um ato político consciente, ou uma decisão científica que teve consequências políticas?
Foi, na verdade, ambas as coisas. Criamos, no Baylor College of Medicine, um centro singular, no Texas Children’s Hospital. Era uma visão que eu alimentava desde que concluí o meu duplo doutorado, em Medicina e em Ciências, nos anos 1980. Foi quando decidi que queria usar a ciência em favor da humanidade; queria encontrar um modo de fazer ciência interessante, mas também de produzir vacinas que as grandes companhias farmacêuticas não produziriam. Passei a vida desenvolvendo uma vacina de baixo custo contra a anemia por ancilostomíase. A ancilostomíase é uma doença importante em lugares como o Brasil, a Venezuela e a América Central; é também um grande problema na Índia e no continente africano. E agora, quarenta anos depois, demonstramos que ela funciona.
Usamos essa mesma tecnologia para produzir vacinas de baixo custo contra coronavírus, inclusive contra a covid. E, quando o fizemos — porque havia pessoas morrendo no mundo inteiro por não terem acesso à vacina de RNA mensageiro —, decidimos ceder a nossa tecnologia vacinal minimizando as condicionalidades, e o fizemos sem patentes. Licenciamos a tecnologia para a Índia e para a Indonésia.
Disso resultaram, na verdade, duas vacinas: a Corbevax, fabricada pela Biological E, uma grande produtora de vacinas da Índia, e a IndoVac, da grande produtora de vacinas da Indonésia. O aspecto interessante da IndoVac é que, por não conter células animais nem células humanas — é uma tecnologia vegana —, ela recebeu a designação halal. Foi a vacina halal contra a covid também para o mundo muçulmano — algo que eu não havia antecipado fazer, mas foi assim que as coisas se desdobraram. Como consequência, 100 milhões de pessoas foram imunizadas. Foi muito bom oferecer essa contribuição. E ela forneceu uma prova de conceito: não é preciso ser uma grande companhia farmacêutica para realizar coisas importantes no campo das vacinas.
Doutor Hotez, o Brasil possui um sistema público de saúde muito forte, o SUS, e instituições como a Fiocruz e o Butantan. O senhor acredita que países como o Brasil podem liderar um novo modelo de ciência aberta, livre de patentes, capaz de desafiar o sistema tradicional de patentes das grandes farmacêuticas?
Sim — embora eu colocasse a questão de um modo um pouco diferente. Não se trata apenas das patentes, nem apenas das vacinas. Não é somente uma questão de patentes e de propriedade intelectual, porque o decisivo é o conhecimento técnico e a capacidade de produzir em escala, sob controle e garantia de qualidade. E não há muitos grandes países de renda média capazes disso. Quem pode fazê-lo? A Índia pode. A Indonésia pode. E penso que é preciso acrescentar o Brasil. O futuro do mundo depende, realmente, de países como o Brasil oferecerem essa inovação e assumirem esse papel mais global.
Estou muito entusiasmado, por exemplo, com o que está acontecendo agora no Butantan, com a sua nova vacina contra a dengue — que foi licenciada dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos [NIH]. Parece uma vacina bastante promissora. Precisamos de mais iniciativas assim. Eu gostaria de ver o Brasil tornar-se o foco da inovação para o mundo, como a Índia tem sido. E não apenas o Brasil: a Argentina precisa avançar nesse sentido; o México também. Eu gostaria de ver até países menores, como o Panamá — o Panamá poderia se tornar a Singapura da América Latina. Precisamos de mais dessa inovação vinda dos países latino-americanos.
Penso, porém, que, para que isso aconteça, não bastam as fábricas, não bastam os produtores de vacinas: é preciso apoio às universidades, à formação da próxima geração de cientistas — lugares como a Universidade de São Paulo ou a Universidade Federal de Minas Gerais. Penso que precisamos vê-las receber um nível mais alto de apoio. Uma das coisas que noto nas universidades brasileiras é a falta de apoio privado. Nos Estados Unidos, se olharmos para as grandes universidades — como Harvard, Yale, a Universidade da Pensilvânia e a Johns Hopkins —, elas recebem muito apoio privado. Recebem também apoio governamental, dos NIH, mas recebem muito de indivíduos de altíssimo patrimônio. Há muita gente rica no Brasil, e precisamos que essas pessoas avancem e comecem realmente a apoiar as nossas universidades. Porque, hoje, se olharmos globalmente para as cem melhores universidades do mundo, o que vemos? Vemos Harvard, Caltech, MIT, Oxford, Cambridge. E onde estão as universidades brasileiras? Há muitos professores e estudantes brilhantes, mas a diferença é que elas não dispõem desse nível de apoio privado. Isso será decisivo.
Falemos da internet. Dia após dia, as plataformas digitais propagam mensagens anticientíficas. Como a comunidade científica pode responder, quando essas empresas de tecnologia lucram com a desinformação?
Penso que você tem razão, e penso que esse é um problema enorme. Uma das coisas que noto é que, quando sou atacado — porque sou cientista —, as pessoas que me atacam deixaram de frequentar a biblioteca. Não estão mais lendo livros: extraem todo o seu conteúdo de portais conspiratórios. E isso mudou algo — penso que reconfigurou. Não sei se reconfigura o cérebro ou o quê, mas precisamos reconstruir as habilidades de pensamento crítico e levar as pessoas de volta à biblioteca, de volta à leitura de livros. Se você observar as minhas redes sociais, falo muito de livros, porque penso que essa é a chave: precisamos de uma força de trabalho educada.
O que aconteceu, penso eu, é que esses magnatas da tecnologia que querem dominar — o modo pelo qual controlam as pessoas é torná-las estúpidas e torná-las doentes. Estúpidas no sentido de que as pessoas não estão lendo livros, estão recorrendo a portais conspiratórios; e doentes porque estão rejeitando a medicina científica em favor da indústria do bem-estar e dos influenciadores. Isso está enriquecendo uns poucos, mas está tornando o mundo estúpido e doente — e precisamos encontrar um modo de reverter tudo isso. Não será fácil: precisamos de vontade política para que aconteça, e precisamos apoiar melhor os nossos professores, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio.
Se o senhor me permite, tenho uma pergunta pessoal. A Lancet noticiou os intensos ataques que o senhor e a sua família sofrem da parte desses grupos radicais. Onde o senhor encontra a energia psicológica e moral para continuar essa luta todos os dias?
Bem, eu me canso, às vezes. Parte do que me sustenta é encontrar pessoas como você, que se importam, e organizações como a sua, e programas como o seu. Há muita gente boa no mundo, e procuro me manter otimista — mas há dias muito sombrios, em que se atravessam períodos de ataque continuado. Infelizmente, os métodos empregados pelos grupos anticiência estão se tornando mais sofisticados. Veremos. Para mim, o que dá sentido é criar intervenções, como as vacinas, e escrever livros — isso ainda é muito significativo para mim. Amo ser professor de uma escola de medicina, e continuarei a sê-lo enquanto puder. Mas não há dúvida de que o mundo está se tornando, em muitos aspectos, um lugar mais sombrio.
Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, alguns grupos religiosos conservadores converteram-se em centros de propaganda antivacina. Como dialogar com essas comunidades religiosas sem criar uma divisão ainda mais profunda nas nações?
Se pensarmos bem, não há — nos tempos modernos, ao menos — proibições religiosas contra as vacinas ou contra a ciência. Não há nada no cristianismo que seja contrário às vacinas ou à ciência; não há nada no islã que seja contrário às vacinas e à ciência; não há nada no judaísmo que seja contrário às vacinas e à ciência. E, no entanto, toda religião tem grupos dissidentes, grupos pequenos, que transformam a anticiência em arma — não para ganho religioso, mas para ganho político. E esse é o ponto importante a sublinhar: em todas as grandes religiões do mundo — o hinduísmo, o islã, o cristianismo, o judaísmo, e a lista continua —, os líderes religiosos de todos esses grupos, seja o Papa, seja qualquer outro, apoiam fortemente a ciência. São os pequenos grupos isolados que, de tempos em tempos, a transformam em arma. Mas é muito importante reafirmar que não se trata de nada inerente à religião enquanto tal: o que existe são pequenos grupos que a instrumentalizam.
Muito obrigado, professor Hotez. A última e derradeira pergunta: a elite intelectual e a comunidade científica do Brasil o leem neste momento. Qual é a sua mensagem central ao povo brasileiro que luta, agora, pela ciência e pela saúde pública neste país?
Penso que a mensagem é recordar ao povo brasileiro a força da ciência brasileira. A ciência brasileira é muito forte, em muitos aspectos. Todos os dias, no meu laboratório, há cientistas brasileiros — e a minha experiência não é única. A chave está em os líderes políticos do Brasil reconhecerem que a ciência é o presente do Brasil ao mundo — certamente o presente à América Latina, mas o presente ao mundo.
E, para ser uma grande nação, é preciso ser forte em suas universidades de pesquisa. Isso significa a continuidade do apoio governamental às universidades e às instituições de pesquisa. Ao mesmo tempo, porém, penso ser muito importante que o Brasil angarie mais apoio privado para as suas universidades. Vocês têm muito a seu favor, mas, com toda a franqueza, a Universidade de São Paulo, a de Campinas ou a de Minas Gerais — essas deveriam estar entre as melhores universidades do mundo. E não estão, hoje. São muito boas, mas não dispõem do apoio financeiro privado que as levaria a esse patamar. Elas não podem depender apenas do governo: precisam do investimento privado nas universidades brasileiras. Essa é, talvez, a mensagem mais importante.
Notas
1 No original, o entrevistado enumera três grandes epidemias de ebola, datando-as de 2014, 2019 e 2026. Na resposta 6, a mesma sequência reaparece — a epidemia de 2014 situada na África Ocidental e a de 2019 no leste da República Democrática do Congo —, ao passo que a terceira, correspondente ao surto então em curso na RDC, é referida sem data. Preserva-se a formulação do entrevistado, sem harmonização. [N.E.]
2 O entrevistado situa em 2019 tanto a grande epidemia de ebola no leste da República Democrática do Congo quanto a covid-19. Convencionalmente, a emergência da covid-19 é datada da virada de 2019 para 2020. Mantém-se a datação tal como enunciada na entrevista. [N.E.]
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