Em 2020, a pesquisa “Sem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia” revelou que 50% das mulheres brasileiras passaram a ser responsáveis pelo cuidado de alguém com a chegada da pandemia de Covid-19. Essa pesquisa, realizada pela Sempreviva Organização Feminista (SOF) e pela Gênero e Número (GN), deu visibilidade à sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado das mulheres e ao impacto dos meses iniciais da pandemia sobre a perda de trabalho e renda.
Em 2025, SOF e GN se juntaram novamente, com apoio do Ministério das Mulheres, para retomar a investigação na pesquisa “Sem Parar 2025: o impacto da pandemia no trabalho e na vida das mulheres, cinco anos depois”. Nesta edição, o objetivo foi investigar como estavam organizadas as dinâmicas de trabalho remunerado, doméstico e de cuidado na vida das mulheres cinco anos depois da pandemia, buscando responder a perguntas como: qual foi o impacto da pandemia na situação de trabalho e renda das mulheres? Houve reorganização das tarefas domésticas e de cuidado que aliviasse a sobrecarga? Qual o impacto da sobreposição desses trabalhos na saúde e no bem-estar das mulheres?
A pesquisa ouviu, entre julho e agosto de 2025, 2.173 mulheres de todo o Brasil. A parceria com movimentos sociais como a Marcha Mundial de Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens, a Federação Nacional de Trabalhadoras Domésticas contribuiu para fazer a pesquisa chegar em mais territórios, e permitiu realizar análises específicas das integrantes desses movimentos.
A pandemia aumentou a carga laboral das mulheres no mercado de trabalho e em casa, mas o seu fim não resultou em alívio para elas. Embora o contexto pandêmico tenha sido superado, a sobrecarga persiste, gerando exaustão e acúmulo de responsabilidades. Cinco anos depois, os dados da pesquisa mostram o que sentimos e sabemos: as mulheres brasileiras são as principais responsáveis pelo trabalho doméstico, tem sob sua responsabilidade o cuidado de outras pessoas, possuem vínculos de trabalho precários e informais, estão cansadas e sobrecarregadas e com grande sensação de insegurança. Isso é expressão da impossibilidade de equilíbrio individual entre os trabalhos de geração de renda e de reprodução cotidiana da vida.
Informalidade e insegurança no trabalho remunerado
Uma parcela considerável das respondentes da pesquisa Sem Parar 2025 tem alto nível de escolaridade. Porém, essa escolaridade não se traduz em mais vínculos formais de trabalho, tampouco representa uma condição financeira confortável para as mulheres. 37% das respondentes relataram ter renda mensal de até dois salários mínimos (até R$ 3.036,00), o que sabemos ser pouco para o sustento de uma famíla frente ao alto custo de vida. A diferença de renda entre mulheres negras e brancas é marcante: no conjunto de respondentes pretas e pardas, a faixa de mulheres que recebiam até um salário mínimo é quatro vezes maior do que entre as respondentes brancas.
As mulheres que cumpriam as menores jornadas de trabalho remunerado (até 20 horas semanais) eram a maioria das responsáveis por cuidar de outra pessoa (55%). A sobrecarga de trabalho também se evidencia quando temos que 57% das mulheres entrevistadas relataram trabalhar mais de 40 horas semanais. Dessas, 49% eram responsáveis por cuidar de alguém de forma não remunerada. Esses dados contribuem para as recentes discussões sobre a redução da escala de trabalho 6×1, assunto que deve ser abordado desde uma perspectiva feminista, sendo indissociável da discussão sobre a corresponsabilização do trabalho de reprodução social, para que o menor tempo no trabalho remunerado não seja sinônimo, na vida das mulheres, de mais tempo dedicado ao trabalho de cuidados.
36% das mulheres apontam ter tido uma diminuição na renda após a pandemia. Se olharmos apenas para o conjunto de mulheres para quem a renda diminuiu, temos que 60% delas são mulheres negras. 17% das entrevistadas passaram a trabalhar de forma remota nos últimos cinco anos. Em 2025, 59% das mulheres responderam realizar seu trabalho remunerado total ou parcialmente em casa, mostrando que algumas transformações no mundo do trabalho potencializadas na pandemia permaneceram. Se, por um lado, realizar o trabalho remunerado no domicílio pode ser um caminho para facilitar a execução de outros trabalhos não remunerados, como limpar a casa, cuidar de filhos ou preparar as refeições, por outro, essa sobreposição tem o risco de se traduzir em uma extenuante sobrecarga física e mental.
A pesquisa mostra que as mulheres seguem trabalhando sem parar: as jornadas de trabalho remunerado são extensas, os salários baixos e os vínculos precários, mesmo entre as mulheres com escolaridade mais elevada. Cresce o trabalho remoto ou híbrido, o que pode parecer facilitar a articulação cotidiana entre trabalho remunerado e não remunerado, mas, na verdade, encobre uma sobrecarga adoecedora para as mulheres. É grande o número de mulheres que trabalham por conta própria e cada vez maior o número daquelas que trabalham por aplicativos, apontando as tendências do mercado de relações precárias e sem acesso aos direitos trabalhistas. As configurações precárias e instáveis de trabalho e renda se refletem na sensação de insegurança em relação ao futuro na vida das mulheres e apontam para a persistência de desigualdades históricas entre mulheres brancas e negras.
Trabalho doméstico e de cuidado não remunerado
Os dados da pesquisa Sem Parar 2025 mostram que a participação dos homens na divisão do trabalho doméstico não se alterou de maneira significativa entre 2020 e 2025. A pandemia evidenciou a centralidade do cuidado, a dimensão “essencial” das tarefas de reprodução da vida e a interdependência entre as pessoas, ligada à vulnerabilidade. Mas isso não se refletiu em uma mudança na responsabilização pelo cuidado, muito menos numa transformação estrutural da divisão sexual e racial desse trabalho.
No que diz respeito ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, as mulheres seguem sendo as únicas ou principais responsáveis, com a permanência de desigualdades entre as urbanas e rurais e entre mulheres negras e brancas. O trabalho de cuidado aparece com força em sua dimensão emocional, e cresce o número de mulheres que são responsáveis pelo cuidado de pessoas idosas.
O percentual de mulheres que relataram ser as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico é significativamente maior entre as mulheres com renda mais baixa (aquelas que recebem até um salário mínimo). Dentre as mulheres que disseram compartilhar o trabalho doméstico, 56% o fazem com homens, mas a participação deles segue sendo insatisfatória e insuficiente. Destas mulheres, 51% relataram realizar a maior parte do trabalho doméstico, sendo as principais responsáveis por tarefas como preparar ou servir alimentos, lavar a louça, cuidar da limpeza e manutenção das roupas, arrumar ou limpar o domicílio – tarefas que precisam ser realizadas em frequência diária. Esse número é significativamente menor quando a pessoa com quem se compartilhava o trabalho doméstico era do gênero feminino (37%), ou seja, a distribuição das tarefas se mostrou mais equilibrada nesses casos.
30% das mulheres avaliaram se dedicar mais ao trabalho doméstico e de cuidado em 2025 do que em 2020. A razão para esse aumento é atribuída à mudança da composição doméstico-familiar (27%), à redução na renda familiar (18%) e ao retorno de outras pessoas do domicílio às atividades presenciais (13%).
Entre aquelas que identificaram redução de acesso a equipamentos e serviços públicos (educação, CRAS, restaurante popular, lavanderia coletiva, etc) e a iniciativas comunitárias (cozinhas comunitárias, creches comunitárias, grupo de apoio, etc), 59% eram negras e 39% eram brancas. Esses dados apontam de forma contundente que, se queremos enfrentar e reduzir as desigualdades, a saída será por meio da criação de políticas públicas e estratégias coletivas, combinando comunidades e a atuação ativa do Estado. Pretensas saídas pela via do mercado reforçam desigualdades de classe e raciais, pois se apresentam como soluções predominantemente para mulheres brancas.
A principal tarefa de cuidado exercida pelas mulheres é a de “carinho e suporte emocional”, identificada por 84% das mulheres responsáveis por cuidar de alguém, dado que reforça a definição multidimensional do cuidado. Reforça, também, a indissociabilidade das dimensões objetivas e subjetivas, éticas e políticas. Falar do cuidado como um trabalho implica reconhecer que ele não é só material e técnico, mas também emocional, tendo uma importante dimensão subjetiva. Consequentemente, quando falamos de sobrecarga, também estamos falando de uma sobrecarga emocional, que não pode ficar sob o véu da invisibilidade
Ao refletirem sobre o próprio cuidado, as entrevistadas relatam recorrer predominantemente às relações pessoais. Os familiares são a principal rede de apoio das mulheres, mas elas também recorrem a amigos e vizinhos. Ainda que a discussão acerca do trabalho não remunerado das mulheres inclua aspectos de coletivização e conte com a participação em iniciativas comunitárias, o apoio mantém-se majoritariamente individualizado, segundo a percepção das respondentes. Se colocam dois desafios: ampliar a disponibilidade de espaços coletivos de cuidado e fortalecer o entendimento de que o “carinho e suporte emocional “ também é imprescindível para quem cuida.
Como a pesquisa mostra, a família ainda é o núcleo do cuidado, inclusive o destinado às mulheres que cuidam, ainda que essa relação entre prover e receber cuidado seja significativamente desigual. A participação dos homens ainda é insatisfatória, tanto quando falamos da proporção de responsabilidades assumidas, como do tipo de tarefas executadas. Individualmente e como grupo social, eles continuam se beneficiando da atual divisão sexual do trabalho. Urge consolidar, de forma estrutural, uma melhor divisão das responsabilidades e tarefas que envolva homens, mulheres, comunidades e Estado.
Mulheres organizadas são mais esperançosas e confiantes
Os dados da pesquisa Sem Parar 2025 mostram que as mulheres organizadas são mais esperançosas e confiantes. Entre aquelas que participam de movimentos sociais ou sindicais, como a Marcha Mundial de Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens ou a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, eleva-se a presença de sentimentos de esperança, confiança e realização.
Entre as mulheres organizadas, observa-se também a presença forte de redes de amizade e vizinhança entre os apoios relevantes para a realização do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, aspecto que fica particularmente visível nos dados das mulheres atingidas organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens.
Entre as trabalhadoras domésticas integrantes da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, que foram entrevistadas durante o Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas, os níveis de confiança e esperança subiram exponencialmente.
Embora estejam submetidas à intensificação do trabalho e às condições de precarização produzidas pelo atual sistema socioeconômico, as mulheres têm desenvolvido diferentes estratégias de resistência e enfrentamento. Essas iniciativas contribuem para reorganizar as relações entre trabalho, cuidado e reprodução da vida a partir de perspectivas coletivas, como demonstram as experiências vinculadas à economia solidária e à economia feminista. Essas formas de ação coletiva se manifestam tanto por meio da reivindicação de direitos e da defesa da expansão das políticas públicas quanto pela construção de redes e práticas comunitárias voltadas à proteção e à manutenção da vida em suas diferentes dimensões, em contraposição à racionalidade produtivista própria do capital.
A construção e o fortalecimento de espaços coletivos constituem, como aponta a pesquisa, dimensões fundamentais para promoção da saúde e para o enfrentamento das violências e desigualdades que marcam a vida das mulheres, contribuindo para sua sobrecarga e adoecimento. Também apontam para a importância dos comuns: formas de organização, instrumentos de resistência e possibilidades de construção de alternativas à lógica hegemônica que permite dividir melhor os trabalhos e construir um horizonte comum compartilhado de uma vida livre de sobrecarga e de violência. Historicamente, as mulheres mantiveram uma relação particularmente estreita com os comuns, tanto por sua importância para a reprodução da vida quanto pelo protagonismo assumido em sua preservação e defesa.
Pistas para a elaboração de um Plano Nacional de Cuidados
Realizamos a pesquisa em um período de intensa construção da Política Nacional de Cuidados no Brasil. Os dados colaboram para debates e propostas atuais no âmbito da legislação e das políticas públicas. O dado de que as mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças de até seis anos são as principais responsáveis pelo trabalho de cuidado não remunerado, mesmo quando dividido, se relaciona, por exemplo, com avanços nas discussões sobre o aumento da licença paternidade. É preciso promover este debate no conjunto da sociedade e buscar estratégias que construam condições e obrigações para que os homens assumam a responsabilidade com os filhos e com os idosos, dentro e fora das casas.
As ações organizadas em torno e por meio do Estado devem estar orientadas para recuperar seu sentido público. Ou seja, é preciso combater a lógica do mercado que permeia diferentes áreas de políticas públicas. Para que a resposta alcance o conjunto das mulheres brasileiras e esteja orientada para a construção de igualdade de gênero e raça, as políticas de cuidado precisam ser criadas e oferecidas de forma universal. As políticas de cuidado devem alcançar o conjunto da sociedade para serem efetivamente apoio, referência e alternativa para as mulheres da classe trabalhadora.
Essa pesquisa abre novos caminhos de reflexão e de ação, que devem ocorrer de maneira indissociável. Como avançar na elaboração de concepções e práticas de cuidado que enfrentam as desigualdades? Como construir uma sociedade onde as mulheres não estejam tão sobrecarregadas com o cuidado alheio e recebendo tão pouco cuidado para si? A economia feminista fundamenta nosso caminho: solidariedade, cooperação, soluções coletivas e organização popular são fundamentais para construir essas respostas, para além do discurso, na prática.
A pesquisa sugere a necessidade de compreender melhor as formas de atuação dos movimentos sociais, sindicais e das iniciativas comunitárias e suas possíveis contribuições para a vida cotidiana das mulheres. Também nos interpela a refletir sobre a reorganização necessária para alterar o papel do Estado, responsabilizando-o pelo fomento e financiamento de iniciativas auto-organizadas pelas mulheres nos seus territórios, sem burocratizá-las, nem tirar delas sua autonomia.
Como uma iniciativa enraizada nas práticas e nas elaborações do feminismo popular, a pesquisa Sem Parar 2025 convida todas as pessoas a refletirem sobre estratégias coletivas, como a economia solidária, os movimentos sociais, as iniciativas comunitárias de cuidado e a participação popular para a construção e implementação de políticas públicas. Elas trazem o potencial de responder à demanda de equilibrar melhor as tarefas de cuidado, politizando compreensões do que é o cuidado e apontando caminhos criativos, inovadores e ancestrais para sua coletivização.
Os dados da pesquisa Sem Parar 2025 contribuem para a construção de uma agenda política feminista sobre o cuidado. Indicam que a saída passa pelo fortalecimento de iniciativas comunitárias, que não apenas se mostram como respostas concretas de melhor divisão desses trabalhos, mas também como possíveis fontes de autonomia econômica. Além disso, carregam em si o potencial de politizar e transformar a divisão sexual e racial do trabalho a partir de uma perspectiva crítica, feminista e antirracista.
Para saber mais sobre a pesquisa, acesse: semparar2025.sof.org.br
No portal virtual estão disponibilizados um relatório com a análise completa dos dados, além de entrevistas e artigos temáticos, chamados de análises feministas que ajudam a conhecer com mais profundidade dados das mulheres negras; mulheres rurais; das atingidas por barragens, crimes socioambientais e eventos extremos da crise climática; e das trabalhadoras domésticas.
Beatriz Schwenck é socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Coordenadora da pesquisa Sem Parar 2025 pela SOF Sempreviva Organização Feminista.