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Cinema: Psiquiatria e revolução

Imagem: Divulgação

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Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Fanon está em cartaz nos cinemas do IMS no mês de maio.

Psiquiatra, filósofo, revolucionário, Frantz Fanon (1925-61) é um dos intelectuais mais influentes da segunda metade do século 20. Nascido na Martinica, combateu o nazismo nas Forças Francesas Livres e estudou psiquiatria em Lyon. Transferido para um hospital psiquiátrico militar na Argélia, engajou-se no movimento de libertação nacional que resultaria na independência do país em 1962.

É desse seu período na Argélia, aonde chegou em 1953, o recorte narrativo de Fanon, coprodução França-Luxemburgo-Canadá dirigida por Jean-Claude Flamand-Barny, atualmente em cartaz em cinemas brasileiros.

Trata-se de uma cinebiografia bastante convencional de um homem nada convencional. O mérito maior do filme, a meu ver, é o de destacar justamente essa qualidade de não-pertencimento, de não-conformidade, de incongruência entre o personagem e o mundo em que lhe tocou viver.

Desencontro com o entorno

A primeira sequência mostra Fanon (Alexandre Bouyer), um homem negro retinto, chegando com sua esposa branca ao hospital psiquiátrico de Blida, na Argélia, então colônia francesa. O porteiro o toma por um carregador e pergunta a Josie Fanon (Déborah François) “quando chega o seu marido”. O suposto carregador chegava na verdade para ser o diretor clínico do hospital.

O desencontro prossegue em ambientes variados: junto à direção do hospital – por introduzir métodos inovadores e humanistas de tratamento dos pacientes – e na universidade, onde uma palestra sua é “saudada” por uma casca de banana atirada por estudantes brancos. Até mesmo junto ao movimento clandestino de independência, ao qual se alia, Fanon se destaca como um elemento estranho: não era muçulmano, não falava árabe e representava de certo modo a intelligentsia francesa.

O filme apresenta Fanon como um herói sem mácula, ao mesmo tempo destemido e sensível, exemplar na relação com os pacientes, com a esposa, com os colegas, com os camaradas de luta. Não há, por exemplo, referência alguma à filha (Mireille Fanon-Mendès-France) que teve de um relacionamento anterior ao casamento, e muito menos a episódios de violência física contra a esposa Josie. O foco da abordagem é essencialmente didático, mostrando que a grande revolução do biografado foi a de conectar o estudo dos problemas mentais com as condições concretas produzidas pela colonização.

Psiquiatria e revolução

A luta antimanicomial se funde então com a luta anticolonial. Fanon, nessa leitura, foi uma espécie de mistura de Nise da Silveira (na re-humanização dos pacientes via arte e terapia ocupacional) e Patrice Lumumba, mártir congolês que se tornou símbolo dos movimentos anti-imperialistas africanos. Mais que isso: Fanon demonstrou que a doença no mais das vezes é social, histórica, e afeta tanto os colonizados como os colonizadores.

Essa ideia fecunda é ilustrada no filme pela tentativa um tanto ingênua do protagonista de curar um agente sanguinário da repressão francesa supostamente perturbado pela culpa. O agente havia sido infiltrado no hospital como paciente para espionar a atividade subversiva do psiquiatra, mas ficamos sem saber se ali dentro ele acaba mesmo buscando uma forma de redenção, de superação de seus fantasmas. Essa ambiguidade é um ponto a favor do filme.

Se, do ponto de vista estritamente cinematográfico, Fanon tem poucos rasgos de invenção e inspiração, seu mérito está na clareza expositiva e na segurança com que transita entre a discussão de ideias e a ação, com uma boa reconstituição histórica e um suspense eficiente. Se estimular nos espectadores a vontade de conhecer melhor o autor e sua obra (em especial o seminal Os condenados da terra, publicado no ano de sua morte) já terá cumprido um importante papel.

Em tempo: assim como Frantz Fanon, o diretor Jean-Claude Flamand-Barny é negro e também nasceu numa antiga colônia francesa no Caribe – no caso, Guadalupe, hoje departamento ultramarino francês, a exemplo da Martinica. Começou a fazer cinema na França, onde realizou curtas e foi diretor de elenco de O ódio (1995), de Mathieu Kassovitz, e assistente de direção de Jacques Audiard em Um herói muito discreto (1996), mas retornou a Guadalupe para dirigir seu primeiro longa, Nèg Maron (2005). Seu lugar de fala, como o de Fanon, é o de quem conhece no corpo e na alma as dores da colonização.

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