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Cinquenta anos depois, ainda estamos dentro do táxi de Travis Bickle

O relógio marca 50 anos, mas Taxi Driver segue dirigindo pelas ruas do presente. Lançado em 8 de fevereiro de 1976, o filme de Martin Scorsese não apenas resistiu ao tempo: ganhou força. O retrato da mente em frangalhos do taxista Travis Bickle, veterano do Vietnã que vaga pelas madrugadas de Nova York, parece hoje menos uma obra de época e mais uma estreia incômoda dos multiplex contemporâneos.

Meio século depois, a cidade mudou, a guerra mudou, a tecnologia mudou. A solidão, não. O ressentimento, tampouco.

O veterano esquecido e as feridas abertas da guerra

Travis Bickle é fruto direto de um trauma coletivo: a Guerra do Vietnã. O conflito terminou, os soldados voltaram, mas a sociedade seguiu adiante sem eles. Sem acolhimento, sem política pública, sem escuta. A guerra permaneceu dentro.

Hoje, quando veteranos, policiais, jovens radicalizados em fóruns digitais e homens isolados orbitam discursos de ódio e violência, Taxi Driver soa profético. O transtorno de estresse pós-traumático, apenas sugerido no filme, tornou-se tema central do debate público — tarde demais para Travis.

A cidade como esgoto moral

A Nova York dos anos 1970, filmada por Michael Chapman sob luzes saturadas e sujas, é apresentada como um organismo em decomposição. Prostituição, drogas, violência, miséria, trabalho precarizado. Para Travis, tudo precisa ser “limpo”. Não por políticas públicas, mas por um dilúvio moral — ou por balas.

Essa fantasia de purificação reaparece ciclicamente na história. Hoje, ela surge travestida de discursos contra “degeneração”, “inimigos internos” ou “escória social”. A lógica é a mesma: simplificar problemas estruturais em alvos humanos.

Masculinidade ferida e a chegada do messias justiceiro

Antes que termos como “masculinidade tóxica”, “incel” ou “legendários” ganhassem o debate público, Taxi Driver já dissecava esse fenômeno. Travis não suporta a própria insignificância. Quer ser visto. Quer ser herói. Quer importar. Alguns dos personagens do cinema mais influenciados pelo personagem de Schrader são o Coringa de Todd Phillips (2019) ou o próprio Batman em suas diversas versões de um justiceiro desajustado perdido nas sombras da decadente Gotham City.

O fracasso afetivo com Betsy, o isolamento social e a obsessão por Iris constroem uma narrativa conhecida: quando o reconhecimento não vem pela convivência, busca-se pela violência. O espelho diante do qual Travis pergunta “You talking to me?” (Tá falando comigo?) não reflete apenas um homem — reflete uma ideologia.

Política distante, democracia vazia

O filme também mira a política. O senador Palantine promete mudança, mas parece alheio à realidade concreta das ruas. Travis tenta assassiná-lo não por ideologia sofisticada, mas por frustração difusa. A política surge como espetáculo, não como solução.

Cinco décadas depois, o descrédito nas instituições, a sensação de abandono e o flerte com soluções extremas, como expulsar todos os imigrantes ou explodir mísseis sobre supostos narcotraficantes, tornaram-se fenômenos globais. Taxi Driver antecipa o colapso simbólico da democracia representativa quando ela deixa de dialogar com a vida real.

A mídia que transforma psicose em heroísmo

Talvez o ponto mais perturbador do filme seja o final. Após um massacre brutal, Travis é celebrado. Jornais o chamam de herói. Cartas o elogiam. A violência é reembalada como redenção.

Esse mecanismo — a mídia convertendo atos de barbárie em narrativa edificante — tornou-se ainda mais potente na era digital. O filme expõe, com desconfortável precisão, como a percepção pública pode ser distorcida até legitimar o intolerável.

O passageiro somos nós

Scorsese nunca nos deixa sair do banco traseiro do táxi. Somos cúmplices involuntários da paranoia de Travis, guiados pela trilha melancólica de Bernard Herrmann, que alterna jazz sedutor e tensão crescente. Vemos o mundo pelos olhos dele — e isso é o mais perigoso.

A força de Taxi Driver está aí: não oferece conforto, não dá respostas fáceis, não absolve nem condena completamente. Apenas expõe.

Cinquenta anos depois, ainda falando conosco

Taxi Driver não é um filme sobre o passado. É um aviso permanente. Fala de guerra, mas também de trabalho precarizado, isolamento urbano, fetichização da violência, culto ao ressentimento e falência do pertencimento.

Por isso, aos 50 anos, o clássico de Scorsese não parece envelhecido — parece assustadoramente jovem. Quando Travis pergunta “tá falando comigo?”, a resposta continua sendo a mesma, meio século depois:

Sim. Está.

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