
Para analisar a eleição presidencial colombiana, a edição desta quinta-feira (28) do Entrelinhas Vermelhas recebeu Amanda Harumy, doutora em Integração Latino-Americana pela USP e integrante da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB. Com o país às vésperas de ir às urnas, o programa debateu o legado de Gustavo Petro, as forças em disputa, o processo de paz e o que o resultado significa para a América Latina.
Ivan Cepeda e o Pacto Histórico na disputa
Aos apresentadores Inácio Carvalho e Lucas Toth, Amanda explicou que o candidato da esquerda é Iván Cepeda, senador do Pacto Histórico e herdeiro político do governo Petro — primeiro presidente progressista da história colombiana. Cepeda vem de uma família com tradição no Partido Comunista e tem como vice Aida, representante do movimento indígena do Cauca. A estratégia da esquerda é garantir a vitória já no primeiro turno, antes que as duas candidaturas de direita possam se unir num segundo round. “A grande contribuição do Petro foi construir esse progressismo, porque na Colômbia não existia a percepção de progressismo. A esquerda sempre foi muito ligada à clandestinidade e à luta armada”, afirmou Amanda.
Paz, narcotráfico e o trauma social da guerra
A especialista traçou o histórico do conflito colombiano, que tem raiz na disputa pela terra desde 1964, quando surgem as Farc e o ELN. Com o tempo, a economia da cocaína contaminou guerrilhas, paramilitares, empresários e setores políticos. O processo de paz, assinado em 2016, foi fragilizado pela desinformação — o “não” venceu o referendo — e descumprido quando a extrema direita retornou ao poder em 2018. Hoje, dissidências como o Estado Maior Central seguem gerando conflito territorial e fornecendo munição eleitoral à direita. “A extrema direita defende que precisa rearmar a Colômbia, que precisa colocar o país de novo nessa dinâmica da guerra. E esse terrorismo político leva voto à extrema direita”, disse.
Fake news, direita dividida e pesquisas incertas
Amanda identificou duas direitas na disputa: a “extrema direita tradicional” do uribismo, ligada à narcopolítica e à economia da guerra, representada por Paloma; e uma “nova extrema direita” de apelo comunicacional populista, representada por Abelardo, comparado a figuras como Bukele e Milei. Segundo a especialista, as pesquisas — que apontam Cepeda com cerca de 44%, Abelardo com 30% e Paloma com 20% — podem não refletir a realidade diante das ameaças concretas a eleitores. “Nós, como brasileiros, temos o dever de prestar muita atenção nessa eleição, porque todas as experiências que a Colômbia passa no primeiro semestre, nós passamos no segundo”, alertou.
O ‘Escudo das Américas’ e o risco para o Brasil
Amanda conectou a eleição colombiana ao cenário geopolítico mais amplo. O vazamento do chamado “Honduras Gate” revelou um plano dos EUA de intervenção direta em processos eleitorais da região via desinformação e chantagem financeira. Segundo ela, Trump resgata a Doutrina Monroe para garantir acesso às riquezas naturais latino-americanas — petróleo, gás e terras raras — diante da disputa global com a China. O Equador de Noboa atua como aliado nesse projeto e tensiona a fronteira com a Colômbia. “Eles vão mobilizar as suas capacidades econômicas, políticas e militares para desestabilizar a eleição da Colômbia e, no segundo semestre, a nossa eleição aqui no Brasil”, concluiu.
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O programa Entrelinhas Vermelhas é exibido toda quinta-feira, às 17h, pelo canal TV Vermelho no YouTube e no Spotify do Portal Vermelho.
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