Embora tenha reunido 12 líderes da América Latina e do Caribe alinhados a Washington, o encontro não contou com a presença de representantes das maiores potências e populações da região, englobando apenas 46% de todos os habitantes do continente
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reuniu no sábado, 7 de março, uma dúzia de líderes da América Latina e do Caribe em seu clube de golfe em Doral, na região de Miami, para lançar o que a Casa Branca chamou de cúpula “Shield of the Americas” (“Escudo das Américas”), uma coalizão militar para a região. No encontro, Trump defendeu a criação de uma coalizão regional contra cartéis de drogas e afirmou que o grupo deveria atuar de forma coordenada para enfrentar ameaças à segurança e à influência econômica e política chinesa no hemisfério ocidental.
Segundo o The Guardian, participaram líderes de Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago.
A cúpula foi marcada pelo esvaziamento diplomático: embora tenha reunido 12 líderes da América Latina e do Caribe alinhados a Washington, o encontro não contou com a presença de representantes das maiores potências e populações da região, como Brasil, México, Colômbia e Canadá.
“Assim como formamos uma coalizão para erradicar o Isis, agora precisamos de uma coalizão para erradicar os cartéis”, disse Trump aos líderes presentes. Ele afirmou que “o epicentro” da violência ligada aos cartéis está no México e declarou que os grupos criminosos estariam “alimentando e orquestrando” grande parte da violência no hemisfério. Trump elogiou a presidente do México, Claudia Sheinbaum, que não participou do encontro, mas disse que os cartéis “estão piorando” e “tomando conta do país”.
A ex-secretária do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem — que deixou o cargo na quinta-feira anterior e passou a atuar como enviada especial dos EUA para a coalizão — afirmou que a iniciativa busca coordenar países para “defender a própria soberania”, “a segurança” e “a prosperidade econômica”. Ela disse que “agora que a América está segura e nossas fronteiras estão seguras”, os EUA querem “focar nos vizinhos” e ajudar com fronteiras e desafios regionais.
Líder de cartel assassinado no México e sequestro na Venezuela
O encontro reuniu apenas líderes de países com afinidade política com o atual presidente. Questionado sobre a ausência do Brasil, do México e da Colômbia, Trump teria dito que “achava” que eles haviam sido convidados.
As ações recentes dos EUA contra a região demonstram uma escalada intervencionista. Uma operação no México — com o apoio da inteligência de autoridades americanas — para capturar Nemesio Oseguera Cervantes (“El Mencho”), apontado como líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), resultou em sua morte. Ele teria sido ferido em um tiroteio e veio a óbito durante o transporte para a Cidade do México.
Ao se referir à mandatária do país, Trump disse que “gosta muito da presidente”, que “ela é uma pessoa muito boa”. Ele também disse que “ela tem uma voz linda” e que é “uma mulher linda”. Ele chegou a insinuar, de modo que parecia que quisesse copiar a presidenta Cláudia Sheinbaum, que ela teria pedido a ele que “não” acabasse com os cartéis.
Em janeiro, uma operação militar dos EUA capturou o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que está detido em território estadunidense enquanto aguarda julgamento por acusações de conspiração envolvendo drogas e armas.
Durante o encontro, de acordo com o Le Monde, Trump incentivou líderes a usar poder militar contra o que chamou de “câncer” dos cartéis e disse que os EUA poderiam apoiar aliados com ataques de mísseis contra chefes do narcotráfico. O jornal afirma que a coalizão lançada é descrita pela Casa Branca como um compromisso de governos da região de recorrer a “hard power” (“poder duro”) contra ameaças à segurança.
Cuba
Trump também falou sobre Cuba. Segundo o Guardian, ele voltou a prever um colapso do país e disse esperar “uma grande mudança” em breve, afirmando que Cuba estaria “no fim da linha” e que o regime queria negociar com os EUA. O Le Monde registra declarações semelhantes, segundo as quais Trump afirmou que Cuba está “em seus últimos momentos de vida”, com críticas ao regime e menção à falta de dinheiro e de petróleo.
Influência chinesa
No campo diplomático, Trump apresentou o que o Guardian descreve como uma linha política de cooperação regional para conter a influência chinesa, incluindo referência ao Canal do Panamá. O secretário de Estado, Marco Rubio, agradeceu a Trump por priorizar o hemisfério ocidental, elogiou os líderes presentes e afirmou que os EUA veem vantagem em relações recíprocas com “amigos e aliados”.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que os EUA teriam passado tempo demais focados em “fronteiras em lugares distantes”, e não nas fronteiras e no hemisfério ocidental.
“Representatividade” americana
A população atual das Américas, com base na revisão de 2024 da ONU (World Population Prospects), considerando a divisão geográfica (América do Norte, América Central, América do Sul e o Caribe) e incluindo todos os países e territórios dependentes, é de aproximadamente 1.055.296.082 habitantes.
A ONU, em seus relatórios oficiais, costuma agrupar o México na “América Latina e Caribe”, formando a América do Norte, totalizando 514.736.386. A população inclui os EUA, o Canadá, o México, as Bermudas, a Groenlândia, São Pedro e Miquelão e o Caribe, que inclui todas as ilhas e territórios como Porto Rico, Guadalupe, etc. Desses países, apenas o anfitrião participou do encontro.
A América Central, com 7 países continentais e uma população de 52.847.985, segundo a ONU, registrou a ausência de dois países.
Finalmente, a América do Sul, cuja maior população está no território brasileiro (217.637.297), inclui os 12 países, a Guiana Francesa e as Ilhas Malvinas, formando uma população de 442.841.199 de habitantes
De acordo com dados da ONU, os países que participaram do evento representam 46,41% da população do continente.