
Da Página do MST
Nesta sexta-feira, dia 3 de julho, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) celebra uma conquista histórica para a luta pela terra em todo o Brasil. Será o marco da conquista definitiva de três novos assentamentos da Reforma Agrária na região Centro-Sul do estado. A festa acontece na comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu.
É a maior conquista conjunta de áreas para Reforma Agrária já adquiridas no estado: cerca de 2 mil famílias serão assentadas em aproximadamente 33 mil hectares. Serão formalizados os assentamentos Herdeiros da Terra de 1º de Maio, Dom Tomás Balduíno e Palestina Livre, todos com mais de dez anos de resistência.
Estão confirmadas as presenças da ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, e do presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), César Aldrighi, além de parlamentares, representantes de órgãos públicos, prefeituras e movimentos sociais.

Desde 1996, a região vem se consolidando como o maior complexo da Reforma Agrária da América Latina. São mais de 5.500 famílias em 24 comunidades, entre acampamentos e assentamentos, em áreas da antiga Giacomet Marodin, atual Araupel. O território está localizado nos municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Laranjeiras do Sul, Nova Laranjeiras, Porto Barreiro, Espigão Alto e Quedas do Iguaçu.

Comemoração com churrasco comunitário e baile
As festividades começam às 9h, com café da manhã e abertura de uma feira da Reforma Agrária, com produtos vindos de todas as cooperativas que integram a Central de Cooperativas da Reformas Agrária do Paraná (CCA). Entre a diversidade de alimentos estão café, erva mate, chá, açúcar mascavo, melado, cachaça, vinhos, sucos, arroz, macarrão, feijão, fubá, lácteos, etc.
O ato político-cultural está marcado para iniciar às 10h30, com apresentações de viola caipira e mística organizada pelas comunidades, além do pronunciamento de autoridades e de representantes do MST.
Assim como o café da manhã, o almoço será oferecido gratuitamente pelas comunidades, com fartura de churrasco, prato típico da região sul do Brasil, em especial para momentos de celebração comunitária. Uma churrasqueira ao ar livre está sendo construída em mutirão, com cerca de 1 quilômetro de comprimento. Salada e pão serão os acompanhamentos. A previsão é de que o almoço seja distribuído a partir das 13h.
O encerramento da festa será com o tradicional matinê com músicas gaúchas, com a banda Remix do Paraná, a partir das 15h.

“É a celebração de um sonho”!
A conquista representa o reconhecimento de décadas de organização e resistência das famílias camponesas. Mesmo durante o período de acampamento, as comunidades estruturaram escolas, associações, espaços coletivos, produção de alimentos e iniciativas de recuperação ambiental.
Morador da comunidade Dom Tomás Balduíno e integrante da coordenação Nnacional do MST, Tarcísio Leopoldo destaca o significado da conquista para as famílias. “É a celebração de um sonho para as famílias que serão beneficiárias. São praticamente 11 ou 12 anos de espera, de luta, de acampamento, de enfrentar o latifúndio e a opressão do Estado.”
Segundo ele, o processo consolidou uma profunda transformação do território. “O que antes era monocultivo de pinus e eucalipto hoje é uma grande área de produção de alimentos, de construção de comunidades e de escolas. É uma transformação histórica para a Reforma Agrária brasileira.”

Tarcísio também ressalta que o acordo estabelece um novo modelo para a efetivação da Reforma Agrária no país. “É um formato histórico que pode abrir caminho para outras conquistas e garante às famílias a segurança jurídica e os direitos de quem construiu esse território ao longo de tantos anos.”
O acordo que viabilizou a destinação das terras foi construído ao longo de cerca de dois anos de negociações envolvendo Incra, MDA, Ministério da Fazenda, Ministério das Relações Institucionais, Advocacia-Geral da União (AGU), Procuradoria-Geral da União, Ministério Público Federal (MPF), Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) do Tribunal de Justiça do Paraná e representantes do grupo proprietário da Araupel.
Vitória de “marcha da coluna humana”
A regularização integra a construção do maior território contínuo de Reforma Agrária da América Latina, iniciado há 30 anos em áreas anteriormente controladas pela madeireira Araupel.
A madeireira Giacomet Marodin chega à região no início da década de 1970, quando o território passa a ser marcado pelo despejo de famílias posseiras e povos originários, com queima de casas e assassinatos. Pesquisas mostram a relação estreita entre pistoleiros, empresários e o aparato de segurança pública.
Em 17 de abril de 1996, o MST realizou a primeira ocupação que deu origem aos primeiros assentamentos em áreas da madeireira. Na madrugada daquele dia, mais de 3.300 famílias Sem Terra, equivalente a 15 mil homens, mulheres e crianças marcharam pela rodovia BR-158 durante 3 horas, vindos de Laranjeiras do Sul, e também com caminhões e carros que partiram de Saudade do Iguaçu. O ponto de encontro estava à beira da estrada, próximo da ponte do rio Xagu (que faz parte da bacia hidrográfica do Rio Iguaçu), local que ficou conhecido como “Buraco”.
A marcha e abertura da porteira da fazenda foram registradas pelo fotógrafo Sebastião Salgado, na época já consagrado mundialmente por seus trabalhos humanistas. A imagem da entrada das milhares de pessoas porteira adentro recebeu de Salgado o título “A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana”. Parte dos registros deste dia estão no livro Terra, publicado em apoio ao MST, em parceria com o escritor português José Saramago e o cantor e compositor brasileiro Chico Buarque de Holanda.
Em 2017, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) declarou nulos os títulos de propriedade da empresa sobre as áreas ocupadas pelo MST, reconhecendo a existência de grilagem. A decisão foi resultado de uma ação movida pelo Incra em 2014, que questionava a legalidade dos títulos da área localizada entre Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu.
Contexto dos novos assentamentos

Comunidade Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio:
A ocupação se formou há 11 anos, no dia 17 de julho de 2014, e hoje é o maior acampamento do MST no Paraná, com 1.253 famílias que serão assentadas – cerca de 3 mil pessoas. Está localizada majoritariamente em Rio Bonito do Iguaçu, com parte do território em Nova Laranjeiras, na ocupação da Fazenda Pinhal Ralo.
Escola Itinerante Herdeiros do Saber I, localizada na comunidade central, e a Escola Itinerante Herdeiros do Saber II, na comunidade do Guajuvira, atendem cerca de 590 estudantes das séries iniciais do ensino fundamental até o ensino médio, além do curso profissionalizante de formação de docentes.
A produção de alimentos é diversa, passando por grãos como soja, milho, feijão, trigo, arroz, além de cana-de-açúcar, aveia, amendoim, pipoca, algodão, hortaliças e raízes em geral. Toda produção é garantida pelas próprias estruturas associativas ou privadas, sem apoio do poder público.
O extenso território da “ex-Araupel”, agora transformado em área de assentamento, também está sendo revitalizado por mutirões massivos de plantio de árvores nativas na Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio. A iniciativa começou durante a última Jornada da Natureza, e segue com mobilizações mensais, rumo à meta de plantio de 1 milhão de árvores.

As famílias da comunidade estão entre as milhares afetadas severamente por um dos tornados que atingiram o Paraná em novembro de 2025. Centenas de famílias tiveram danos em suas casas, lavouras, barracões e espaços coletivos como a escola central da comunidade.
Comunidade Dom Tomás Balduíno:
Foi formada em 6 de julho de 2015, no local onde hoje serão assentadas 575 famílias. O acesso à educação é garantido pela Escola Itinerante Vagner Lopes, que atende cerca de 300 estudantes, em duas unidades. As famílias acampadas também conquistaram a construção de um barracão comunitário, a criação de uma associação, igrejas e outras estruturas coletivas.
A comunidade tem sido pioneira na recuperação da palmeira juçara, uma espécie-chave da Mata Atlântica, que está ameaçada de extinção. Por meio de parcerias com a Polícia Rodoviária Federal, mais de 30 toneladas de sementes já foram lançadas via helicóptero. As ações começaram com a Festa da Semeadura da Juçara, realizada somente na comunidade, e motivou o início da Jornada da Natureza, com ações para preservação e recuperação ambiental em todo o estado, sempre na semana do Meio Ambiente – início de junho. Em junho deste ano a 4ª edição, foi transformada em Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos, realizada em todo o país.

Frutas nativas muito conhecidas no bioma Mata Atlântica agora são fonte de renda, com a produção de geleias e picolés artesanais de açaí-juçara, guabiroba, jabuticaba e outros 12 sabores, além de café e ervas medicinais. O trabalho reúne dezenas de famílias camponesas da Reforma Agrária, com apoio de professores e estudantes do Laboratório Vivan de Sistemas Agroflorestais da UFFS, campus Laranjeiras do Sul, há mais de dez anos.
Também está em fase de implantação uma agroindústria para o beneficiamento de frutas, com a marca principal da incorporação de mais tecnologia ao processo. O objetivo é ampliar a capacidade de produção de frutas, dezenas de famílias têm aderido ao Sistema Agroflorestal (SAFs) para o plantio de pomares, com a diversidade do bioma.
Assentamento Palestina Livre, em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu:
Com um total de 103 famílias assentadas, o assentamento é fruto da junção das comunidades Nova Vitória de 2015 e Araucária, criada em 2016. A produção é baseada na agricultura e pecuária para subsistência e comercialização do excedente, sendo parte com certificação orgânica. O acampamento tem barracão comunitário e igreja, além de uma produção focada em agricultura e pecuária para subsistência, comercializando o excedente.
Serviço
Programação:
9h – Abertura com Café Camponês e a Feira da Reforma Agrária Popular
10h30 – Ato político-cultural com autoridades
13h – Almoço com churrasco comunitário
15h – Matinê com a banda Remix do Paraná
Local: Escola Itinerante da Comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, Rio Bonito do Iguaçu – PR
*Editado por Solange Engelmann
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