
A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou nesta terça-feira (13), na Câmara dos Deputados, o tom de um acúmulo histórico de mulheres trabalhadoras. Em uma audiência marcada por relatos pessoais, dirigentes sindicais, trabalhadoras domésticas, integrantes do governo federal e militantes do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) associaram a jornada à exaustão feminina, ao trabalho invisível do cuidado e à falta de tempo para viver.
Ao longo da audiência, representantes do governo e de entidades afirmaram que as jornadas mais exaustivas seguem concentradas sobre mulheres negras, especialmente nos setores mais precarizados do mercado de trabalho, como o serviço doméstico, comércio e limpeza.
Dupla jornada e dependência econômica
“Para milhões de mulheres, a folga de apenas um dia na semana não é descanso. É continuidade do trabalho”, afirmou Sônia Maria Zerino da Silva, Secretária do Trabalho, Mulher, Idoso e Juventude da CNTI. A dirigente argumentou que mulheres passam o dia no trabalho formal e seguem responsáveis pelos cuidados domésticos, filhos e idosos ao voltar para casa. Além de também relacionar a escala 6×1 à dependência econômica feminina.
“Sem autonomia financeira muitas mulheres permanecem submetidas à violência doméstica”, disse.
A herança da exclusão no trabalho doméstico
A coordenadora-geral da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Cleide Silva Pereira Pinto, cobrou que a categoria seja incluída explicitamente em eventuais mudanças na jornada e afirmou que as trabalhadoras domésticas historicamente acabam excluídas de avanços trabalhistas.
Cleide também associou jornadas extensas ao adoecimento físico e emocional das profissionais e destacou que a dificuldade de fiscalização dentro das residências aumenta a vulnerabilidade das trabalhadoras à exploração e ao assédio.
“Tudo que a trabalhadora doméstica faz no trabalho, ela faz em casa em dobro. Então eu me pergunto: que horas essa mulher descansa?”
A superexploração que atravessa gerações
As falas mais fortes vieram justamente dos relatos pessoais. A jovem Vitória Mayara, do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), descreveu a experiência de três gerações de mulheres atravessadas pela escala 6×1. Minha avó criou sete filhos trabalhando como auxiliar de serviços gerais e minha mãe só conseguiu conviver mais com os filhos após deixar a jornada do comércio. Essa escala é escravocrata, predatória, sanguessuga. Ela suga tudo de bom que a gente tem.”
Representando o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a secretária-executiva Caroline Dias dos Reis relacionou o debate ao legado da escravidão no Brasil. “A abolição não significou inclusão”, afirmou. Para a secretária, a precarização do trabalho ainda atinge principalmente mulheres negras, periféricas e inseridas na informalidade. “Existe um outro trabalho que sustenta este país e que permanece invisível: o trabalho do cuidado.”
Já a secretária nacional de Articulação Institucional do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy Viana, afirmou que 56% das pessoas submetidas às jornadas de 44 horas semanais são mulheres e que mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por elas. “Nós não queremos um dia a mais de descanso para continuar com a mesma sobrecarga em casa”, disse.
Sandra defendeu que a redução da jornada seja acompanhada de políticas públicas de cuidado, como ampliação de creches e equipamentos voltados a idosos.
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Parlamentares reagem ao discurso patronal sobre perda de empregos
A comissão também ouviu representantes do setor empresarial. O gerente de Estratégia e Transformação do Sebrae Nacional, André Spínola, apresentou pesquisa com mais de 8 mil empresários formais.
Segundo ele, 27% enxergam impactos negativos na redução da jornada, especialmente nos setores de comércio varejista, alimentação e indústria. A maior parte, porém, afirmou não perceber impacto relevante ou avaliou possíveis efeitos positivos.
Parlamentares favoráveis à proposta reagiram ao discurso de setores empresariais que apontam risco de fechamento de empresas e perda de empregos. O deputado Fernando Mineiro (PT-RN) afirmou que argumentos semelhantes já foram usados historicamente contra férias, descanso semanal remunerado e 13º salário.
Já o deputado Dimas Gadelha (PT-RJ) afirmou que saiu da audiência com uma nova pergunta. “Quanto custa manter esse modelo para a sociedade brasileira?”
A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), que presidiu a audiência, anunciou que pretende apresentar uma emenda prevendo redução adicional de 15% na jornada para mães de crianças de até 12 anos e mães atípicas.
“Precisamos reconhecer o trabalho de cuidado como um trabalho socialmente necessário”, afirmou.
Entre relatos de exaustão, jornadas invisíveis e ausência de tempo para os próprios filhos, a audiência terminou com um diagnóstico compartilhado pelas entidades de mulheres: para milhões de trabalhadoras, o fim da escala 6×1 passou a significar também o direito de existir para além do trabalho.
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