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Como a realidade desmonta o discurso de Trump sobre o Irã

Donald Trump afirmou, em pronunciamento na Casa Branca nesta quarta-feira (1), que os Estados Unidos alcançaram uma vitória rápida, decisiva e esmagadora contra o Irã. Segundo o republicano, a guerra estaria “quase concluída”, acompanhada de ameaças de destruir a infraestrutura energética de Teerã e “devolver o país à Idade da Pedra” caso não haja uma capitulação imediata. A realidade, porém, conta outra história que a prepotência do republicano não consegue apagar: o conflito se alonga, o mercado energético treme e o Irã não demonstra nenhum sinal de rendição.

O discurso de Trump é menos um relatório de guerra e mais um esforço de engenharia política para convencer a opinião pública norte-americana de que a aventura militar deu certo. Enquanto o presidente alega que o Irã está “dizimado” e que o Estreito de Ormuz é desnecessário para os EUA, dados econômicos globais revelam uma alta no preço do petróleo e a gasolina atingindo a marca de 4 dólares por galão nas bombas estadunidenses. No terreno, as ações iranianas e aliados permanecem contínuas, mantendo a restrição de navegação em rotas estratégicas. Em solo norte-americano as decisões de Donald Trump estão enfrentam ondas de manifestações em todos os estados do país, com milhões de pessoas na rua com o lema No Kings.

A síntese da narrativa presidencial sustenta que a Marinha iraniana “evaporou” e que a indústria de mísseis e drones foi desfeita. Trump utiliza esse suposto domínio para justificar a pressão por um acordo, alegando inclusive que Teerã manipula o mercado de energia para inflar os preços nos EUA. Se essa descrição fosse fiel à realidade, o conflito tenderia à rendição do Irã ou a uma rápida desescalação. O que se vê, porém, é o oposto.

Diferentemente do “investimento de curto prazo” prometido pela Casa Branca, a economia mundial enfrenta um choque estrutural. O Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo e gás mundial, está sob alto risco, reduzindo o fluxo em 11 milhões de barris por dia. Logo após a fala de Trump, o petróleo Brent disparou entre 5% e 6%, enquanto FMI e Banco Mundial alertam para impactos globais assimétricos. A tese de “vitória barata” desmorona diante da queda na confiança do consumidor e dos índices acionários internacionais.

Resistência e impasse no teatro de guerra

Desde 28 de fevereiro, o conflito já soma mais de 5 mil mortos em frentes que abrangem Líbano, Golfo, Israel, Síria e Iraque. Grupos como Hezbollah e milícias iraquianas reforçam a regionalização do embate, provando que o regime não foi privado de sua capacidade de resposta. Mediadores, como o governo do Paquistão, relatam um impasse absoluto nas negociações. No lugar de um Irã em colapso, o que se vê no teatro de guerra é um Estado-nação em resistência, com capacidade de continuar a confrontação por tempo indeterminado. A retórica iraniana desmonta diretamente a tentativa de Trump de transformar o país em um “fantasma” derrotado. 

Em carta ao povo norte-americano, o presidente Masoud Pezeshkian afirmou que a guerra é uma resposta à agressão e não ao cidadão comum. Elias Hazrati, porta-voz da presidência, classificou o discurso de Trump como “insano”, garantindo que “o Irã administra o Estreito de Ormuz com força”. No flanco militar, o porta-voz Ebrahim Zolfaqari, da cúpula Khatam al-Anbiya, foi taxativo: a guerra só terminará com o “arrependimento e rendição permanentes dos inimigos”, exigindo um cessar-fogo garantido antes de qualquer pausa operacional.

Isolamento diplomático e falácias

O discurso falacioso de Trump encontra resistência até entre aliados tradicionais. A União Europeia rejeita a versão de um Irã dizimado, e autoridades de Defesa europeias consideram “ilegal” qualquer operação da Otan no Estreito de Ormuz. Internamente, democratas criticam a falta de critérios claros para a vitória e a ausência de um plano de retirada. Trump não está descrevendo uma realidade; está construindo uma ficção política para manter a guerra em curso sob o rótulo de “vitória”.  A narrativa sobre a suposta vitória não está apenas dissociada da conjuntura: é uma forma de blindar uma aventura militar caríssima, que leva risco para a economia global e para a estabilidade geopolítica, sem oferecer nenhuma saída política viável.

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