Em celebração aos 30 anos de criação da Fundação Perseu Abramo, foi realizada uma conferência comemorativa que reuniu dois importantes intelectuais brasileiros, Marilena Chauí e Fernando Haddad, os ex-presidentes da entidade, lideranças e convidados do universo político, além dos funcionários da casa.
O presidente interino da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, recebeu o público e destacou a satisfação e importância do momento. Na abertura do evento, foi exibido um vídeo com um compilado de depoimentos dos ex-presidentes, que será transformado em uma websérie, lançada em breve.
A primeira mesa foi composta pela presidenta do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo, Eleonora Menicucci, e pelo presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva.
Em referência aos trabalhos realizados pelo conselho, Menicucci disse que “é um espaço importante da fundação porque organiza as discussões, propõe para a diretoria, aconselha e faz a fiscalização e, portanto, contribui para o fortalecimento da instituição como um todo”.
“Não existe um partido forte sem uma fundação forte. A fundação existe para além da relação dela com o PT, ela está conectada à sociedade”, afirmou a presidenta do conselho.
Edinho Silva comentou o momento atual, em que a militância está em um processo de debate permanente sobre os rumos do partido, após a recente realização da primeira etapa do Congresso no mês passado. “O nosso partido continua como o maior instrumento de luta da classe trabalhadora, então temos que ter coragem de enfrentar nossas contradições”, diz Silva.
O presidente do PT falou sobre os feitos do governo Lula 3 e apontou a necessidade de unidade para o enfrentamento dos desafios internos e do complexo contexto do atual cenário eleitoral. Além disso, listou temas que demandam novas elaborações petistas, como a relação das novas tecnologias com o mundo do trabalho e a questão das mudanças climáticas.
Evento celebra três décadas da Fundação Perseu Abramo
Fernando Haddad e Marilena Chauí
O pré-candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad contou sobre sua passagem pelo conselho da editora da fundação no período após ser ministro da Educação, em 2012. Haddad lembrou com carinho das conversas que tinha com o professor Antônio Cândido, então presidente do Conselho Editorial da Fundação Perseu Abramo.
Para Haddad, estamos em um momento histórico importante de reflexão política e a FPA pode ser o lugar de “quebrar os muros do preconceito e atrair mais pessoas”. O ex-ministro abordou que desde o marco da última crise do capitalismo, em 2008, a extrema direita aproveita muito mais o espaço de diálogo político com a população do que a esquerda.
Na opinião de Fernando Haddad, a fundação pode ser um canal de diálogo e fomento de um pensamento mais amplo, que traga outras visões, que sejam mais plurais do que a discussão existente no PT; ele trouxe como proposta a criação de bolsas de pesquisa para pesquisadores de diferentes frentes temáticas.
“A fundação pode e deve ter um papel grandioso. Um espaço onde as coisas fluem em um tempo e em uma configuração diferentes, mais atrativas, fora da lógica da universidade e sem o caráter burocratizado da estrutura de um partido”, disse.
A professora Marilena Chauí contou sobre a efervescência intelectual das primeiras reuniões de construção do partido com a participação de Perseu Abramo, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido junto a operários que desempenharam o fortalecimento do movimento sindical na década de 80.
Na visão da filósofa, a fundação mantém o espírito político de Abramo vivo. “Ele tinha muita clareza do que era possível ser feito, realizou uma tarefa político cultural de uma forma como poucas pessoas na esquerda”, comenta.
Chauí defendeu que os movimentos sociais são o principal motor de garantia da democracia e o propulsor da luta por direitos, sendo a chave da transformação da sociedade. E fez um apelo para que a relação seja cada vez mais próxima para que os movimentos também se alimentem das elaborações da fundação e do partido.
“São eles que têm as ideias, são eles que abrem os horizontes, um campo novo de pensamento e ação na direção socialista-democrática. Os movimentos são o coração da democracia”, argumentou a professora.
Marilena Chauí aponta que o PT sempre foi uma caixa de ressonância de multiplicidade de ideais e que a fundação pode auxiliar na tarefa do intercâmbio de construções políticas.
Homenagem aos ex-presidentes
Os ex-presidentes da FPA marcaram presença e foram homenageados pela instituição por suas contribuições à frente do projeto. O primeiro presidente, Luiz Dulci, destacou a criação do NOPPE, o Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos, o diálogo com mais de 300 intelectuais que compunham uma rede de troca de pensamento, além da criação da revista Teoria e Debate.
Dulci lembrou que Perseu Abramo praticava os valores socialistas no cotidiano e que a fundação foi muito importante para estruturar a massa crítica e ampliar o repertório do partido.
Hamilton Pereira da Silva, poeta e político, também presidiu a instituição. Conhecido também pelo pseudônimo Pedro Tierra, ele destacou o caráter de memória e invenção da entidade e afirmou que a fundação tem vocação para a disputa cultural.
Com relação ao espectro ideológico da FPA, o poeta disse que “a fundação precisa sempre dar um passo à esquerda do partido e das práticas do governo, isso que dá sentido a ela”.
O ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda e ex-presidente da Fundação Perseu Abramo trouxe a reflexão de que, além da dimensão cultural, a elaboração de ideias para a construção das políticas públicas é um papel muito importante desempenhado pela fundação.
Paulo Okamotto, que deixou a presidência em 2025, apontou a necessidade de repensar o modelo da instituição e destacou a formação da militância como central. “Nossa base é feita do povão, a fundação precisa conhecer a realidade dos petistas”, pontuou.
O ex-presidente da FPA Márcio Pochmann, que preside atualmente o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, comentou que o aniversário é um momento de olhar para a trajetória, de realização de um balanço.
Pochmann trouxe dados da realidade demográfica brasileira e destacou o momento de inflexão demográfica, com o encolhimento da taxa de crescimento e o envelhecimento da população. Nesse sentido, o presidente do IBGE apontou que “nunca o futuro do Brasil esteve tão dependente do futuro dos filhos das famílias mais pobres como agora”, em relação à importância da elaboração de políticas públicas eficazes e o olhar central para a juventude.
Sobre o tema das políticas públicas, o ex-presidente Aloizio Mercadante citou a criação dos NAPPs, Núcleos de Acompanhamento de Políticas Públicas, da Fundação Perseu Abramo.
Com uma fala bastante propositiva apontando caminhos para o enfrentamento dos desafios do próximo período, Mercadante disse: “o meu conselho para o próximo presidente da fundação é que ele queira ser presidente na vitória porque ser presidente na derrota não foi fácil”.
Atualmente presidente do BNDES, o Banco Nacional do Desenvolvimento, Mercadante compartilhou suas memórias do período em que esteve no comando da fundação após o golpe que levou Michel Temer à presidência. Tivemos que juntar os cacos e atuar na resistência”, lembra.
Mercadante afirma que a sociedade precisa saber o tamanho do risco de trazer de volta o bolsonarismo. “Precisamos aprofundar o nosso diagnóstico, temos relatórios de grupos de trabalho que têm esses dados, é necessário retomar essa elaboração”, defendeu.
“A fundação tem um papel histórico de discutir o mundo, para que o PT possa se renovar e a população saiba tudo aquilo que já foi feito”, afirmou. Para o presidente do BNDES, o futuro dessa eleição e da defesa do legado do presidente Lula demandam elaboração, mas, sobretudo, ação.
Ao fim da atividade, foi exibido um vídeo com uma saudação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está disponível nas redes sociais da fundação, onde Lula parabeniza a FPA pelo aniversário e ressalta o papel importante da formação da militância.
