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Comunas venezuelanas nos ensinam a confiar no povo, diz dirigente da CTB

O sindicalista Carlos Rogério Nunes, secretário-adjunto de Políticas Sociais, Esporte e Lazer da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), já foi à Venezuela três vezes. Mas, quando ele embarcou em março para Caracas, na terceira dessas viagens, o país vizinho estava sob nova conjuntura. O sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-combatente Cília Flores pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro, transformou a Venezuela no epicentro de uma escalada imperialista.

Para Rogério e outros brasileiros que, de 21 de março a 20 de maio, integraram a Brigada Internacionalista de Solidariedade à Venezuela, também conhecida como Brigada Hugo Chávez, a viagem era uma resposta concreta a essa agressão. A iniciativa nasceu da articulação direta da Alba Movimentos Sociais do Brasil, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Union Comunera da Venezuela.

Pela primeira vez, a iniciativa foi binacional, com 81 brigadistas no total, sendo 41 brasileiros e 40 venezuelanos, organizados em seis Núcleos de Base. Além da CTB, integraram a delegação brasileira a Marcha Mundial de Mulheres, o Movimento Brasileiro de Solidariedade a Cuba e o Levante Popular da Juventude. Pelo lado venezuelano, participaram o Bloque de Comunas e o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV). Cada núcleo percorreu ao menos dois estados e 15 comunas.

Em entrevista ao Portal Vermelho, Rogério conta como foi a vivência de dois meses em comunas venezuelanas e o que o país irmão pode ensinar aos trabalhadores brasileiros sobre organização popular, soberania e esperança. “A recepção do povo venezuelano foi extremamente calorosa e acolhedora”, lembra Rogério.

A vida nas comunas

A Brigada, explica o dirigente, tem como objetivo “formar militantes dos movimentos social e sindical dos dois países para cumprir uma jornada de atividades nas comunas da Venezuela”. Essas atividades “foram desde reuniões ordinárias até trabalho voluntário, com pintura, construção civil, plantio e outras ações”.

A imersão passou por locais como a Comuna General José Félix Ribas, em Guarenas, e a Comuna Guerreira de Tacarigua, no estado de Carabobo. A delegação também participou de atos pelos 20 anos da Lei Orgânica das Comunas e de encontros com autoridades locais, como o prefeito Antonio Galíndez, de Ambrosio Plaza.

Ao longo da jornada, Rogério diz que a disposição dos venezuelanos diante do bloqueio e das tensões internacionais foi o que mais o impressionou. “O povo está sendo vítima de provocações imperialistas dos EUA. Mas a população sabe muito bem que o que motivou a agressão estadunidense foi a busca pelo controle do petróleo e das terras raras do seu país”, afirma o dirigente. “O povo venezuelano está disposto a lutar, inclusive de armas nas mãos, para defender sua soberania e sua dignidade.”

A palavra “comuna” aparece com frequência no discurso político latino-americano, mas Rogério voltou convicto de que poucos a compreendem de verdade sem vê-la funcionar. “As comunas são a expressão e a realização do poder popular.”

Sobre o funcionamento dessas organizações como estrutura de resistência, ele detalha: “As comunas realizam regularmente, no período de até seis meses, consultas populares que indicam quais as prioridades para cada território. O governo central, sem burocracia, aprova os projetos mais votados e as obras ou serviços são imediatamente realizados. Tanto o governo central como os governos estaduais e as prefeituras participam do processo.”

Contrariando o que frequentemente é divulgado, Rogério testemunha que os efeitos econômicos da pressão internacional foram percebidos em poucos momentos. “A Venezuela está em momento de crescimento econômico. Nas comunidades que visitamos, havia produção, consumo e comércio de bens e serviços, como em qualquer sociedade em desenvolvimento.”

Ele reconhece que o país atravessou um período muito difícil entre 2017 e 2019, quando o bloqueio foi mais hostil, mas ressalta: “Agora, a Venezuela está se recuperando e crescendo economicamente. Aproximadamente 97% do que consomem de alimento vem do próprio país.”

Aprendizados

Para Rogério, “confiar no povo” é a principal lição que os trabalhadores brasileiros podem tirar da resistência venezuelana. “A experiência das comunas me ensinou isso: dê ao povo o poder de decidir, acompanhe, debata com o povo – e teremos uma evolução significativa da sociedade.”

O sindicalista aponta um abismo entre o noticiário internacional e a realidade que ele presenciou. “A grande mídia dizia que Hugo Chávez e Nicolás Maduro eram ditadores, mas lá ocorrem eleições regularmente. A grande mídia fala que o povo passa fome, mas o povo venezuelano vive bem”, diz Rogério.

O legado de Chávez, falecido há 13 anos, continua presente. “Hugo Chávez é o líder da Revolução Bolivariana – o ideólogo, artífice e construtor desse novo modelo alternativo de sociedade.” Os jovens venezuelanos, em especial, surpreenderam Rogério. “Vi a juventude com esperança, defendendo o bolivarianismo e o chavismo na nova sociedade.”

Uma brigada em tempos de risco

Não há paralelos entre a Brigada Hugo Chávez e outras formas de solidariedade que a CTB já praticou. “Essa brigada foi realizada num momento muito delicado no mundo, principalmente na Venezuela. O mundo unipolar está em decadência, mas se intensificam as agressões estadunidenses contra a soberania dos povos.”

O cenário, porém, não é de ceticismo ou abatimento. “Voltei muito otimista dessa viagem”, diz Rogério. “É possível mudarmos o mundo para melhor. Devemos espalhar a esperança – e foi isso que a Brigada Hugo Chávez me proporcionou.”

Além da intensa agenda política, também houve espaço para convivência, cultura e afeto. No fim da entrevista, Rogério compartilha um momento que ficou fora dos relatos institucionais: “Uma cena muito comovente foi quando saímos da Comuna Guerreira Tacarigua, que é dirigida quase 100% por mulheres. Houve muita emoção na despedida.”

O dirigente da CTB conta que a refeição de que mais gostou foi a arepa, prato tradicional venezuelano à base de farinha de milho branco. E deixa uma dica cultural. “Eles têm muitas músicas bonitas, mas eu gostei muito da Merece Luchar, de El Colibrí Del Chiquero y Sandino Primera. Está no YouTube.”

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