Da Página do MST
Sete meses após o rastro de destruição deixado por três tornados no Paraná, a comunidade camponesa Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, localizada em Rio Bonito do Iguaçu, recebeu a semeadura aérea de 4 toneladas de sementes de palmeira juçara. A ação fez parte da 4ª Jornada da Natureza do Paraná, que está sendo realizada de 1 a 6 de junho, em diversos municípios do estado.
A atividade ocorreu nesta quarta-feira (3). O ponto de apoio do encontro foi a Escola Itinerante Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, cercada por construções coloridas de madeira e árvores que simbolizam a resistência local.
A abertura do encontro reuniu representantes de diversos órgãos públicos e instituições que realizam a Jornada. Ivete Lopes de Mello, integrante da coordenação da comunidade, agradeceu a solidariedade recebida pelo acampamento após os tornados e alertou para a urgência da pauta ambiental: “A gente vê a situação climática hoje, e isso tem a ver com o futuro pra todo mundo, principalmente das crianças”. A ação incluiu também um mutirão para o plantio de mais de 1.700 mudas de árvores nativas, como parte de uma campanha permanente de plantio para recuperar áreas historicamente degradadas pelas madeiras que exploravam a área. Desde 2025, mais de 50 mil mudas já foram plantadas.
Fernando de Oliveira, superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no Paraná, destacou a atuação cotidiana da aeronave utilizada na ação, que há quatro anos viabiliza a semeadura aérea massiva da juçara: “Essa mesma aeronave que vocês estão vendo fazendo a semeadura, ela trabalha de domingo a domingo, 12 horas por dia, de plantão junto com a Polícia Militar do Paraná, em resgates aeromédicos em situações de sinistro, nas rodovias, transporte de pacientes em estado grave do SUS, nos hospitais.”
O superintendente também ressaltou a importância da articulação coletiva em prol do meio ambiente: “Isso se deve muito ao movimento, sem o MST não teria essa jornada e essa articulação deveria ser mais frequente”.
Educação e economia para vida digna
A vice-reitora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Camila Fachin, enfatizou o aprendizado proporcionado pelo movimento social no que diz respeito à organização e à produção sustentável.
“Dizer que desde o início da nossa gestão, o MST tem nos ensinado muito, ele ensina essa organização, com essa força da organização das pessoas ele ensina com a agroecologia, que hoje é a nossa força motriz no Brasil, da produção de alimentos para alimentar mesmo a nossa população, que é essa produção sem agrotóxico, de alimentos orgânicos. E hoje eu aprendi um pouco mais aqui com o MST com a questão do reflorestamento, essa questão mais uma vez de uma economia sustentável, uma economia que não agride o ambiente, pelo contrário, uma economia que busca preservar e que é boa para todas as pessoas.”
Camila Fachin também defendeu a necessidade de ações integradas: “Uma outra lição muito importante do MST é o que a gente está vendo aqui hoje […] das entidades públicas junto com o MST, junto com as universidades. É assim que a gente vai transformar o nosso país e que a gente vai ter o Brasil que a gente tanto espera e merece”.
A parceria com instituições de ensino é uma marca do evento desde a sua primeira edição, em 2023. Na noite da mesma quarta-feira, a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no campus de Laranjeiras do Sul, sediou uma conferência para apresentar os resultados de pesquisas científicas sobre a semeadura aérea.
Durante o evento, Lígia Pupato, assessora do Ministério das Mulheres, anunciou a criação de um Termo de Execução Descentralizada (TED) em parceria com a UFFS. Com um investimento de R$ 2,6 milhões, a iniciativa vai financiar projetos para organizar a atividade econômica das mulheres atingidas na região.
“Essa é a verdade quando a gente tem um projeto de nação, um projeto de país, e que a gente quer que as pessoas sejam felizes e saudáveis. Eu sou bióloga de formação, e isso daqui para mim, hoje, é o céu. Nós estamos semeando vida. Mais uma vez o MST está lá na frente”, declarou Lígia.
Contexto histórico e consolidação da Reforma Agrária
A realização da Jornada neste território carrega um forte simbolismo. A região de Rio Bonito do Iguaçu abriga um dos maiores complexos de reforma agrária do Paraná. A ocupação da área começou em abril de 1996, quando mais de 15 mil pessoas ocuparam terras griladas pela antiga madeireira Giacomet Marodin (atual Araupel). O que antes era um latifúndio focado no monocultivo de pinus e eucalipto, hoje abriga cerca de 5.500 famílias camponesas.
A ação de reflorestamento coincide com um momento histórico de virada para a comunidade. Em janeiro deste ano, o governo federal anunciou oficialmente a formalização do assentamento de cerca de 33 mil hectares de terras que pertenciam à madeireira Araupel, encerrando mais de uma década de espera para cerca de 2 mil famílias que viviam acampadas nas comunidades Dom Tomás Balduíno, Araucária, Nova Vitória (em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto do Iguaçu) e Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio.
Nilton Bezerra Quedas, representante do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), elogiou a proatividade das famílias em planejar o novo assentamento sob as bases da sustentabilidade para reverter o passivo ambiental:
“Que a gente já construa o assentamento com a matriz agroecológica, de agrofloresta, de preservação, e que a gente possa recuperar inclusive o que a empresa destruiu, porque era uma empresa madeireira que naturalmente desmatou lá atrás, e que a gente está assumindo esse passivo. […] Eu espero que na 5ª jornada vocês já estejam assentados, com os primeiros créditos, investimentos, para que estejamos em um outro patamar e vocês já estejam estruturados nos seus lotes, pra que a gente possa fazer desse assentamento uma grande área reformada em uma referência nacional de produção de alimentos e preservação ambiental.”
As atividades da 4ª Jornada da Natureza seguem ao longo da semana com debates, novos plantios e programações culturais em diferentes pontos do Paraná.
A Jornada da Natureza é realizada pelo MST, por meio da Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária do Paraná (Acap),em parceria com a Associação de Produtores Orgânicos de Quedas do Iguaçu Produzindo Vidas (Apoqi), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Instituto Contestado de Agroecologia (ICA), Cooperativa Central da Reforma Agrária (CCA); Cooperativa de Crédito Rural de Pequenos Agricultores da Reforma Agrária (Crehnor), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Laranjeiras do Sul; Laboratório Vivan de Sistemas Agroflorestais; Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Instituto Água e Terra; Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (Ceagro); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Prefeitura Municipal de Quedas do Iguaçu; Fundação Luterana de Diaconia,Programa Capa de Agroecologia, o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Água e Terra da Paraná (IAT).
Este ano, a Jornada da Natureza recebe o patrocínio da CAIXA e do Governo do Brasil, “Tem patrocínio CAIXA, Tem Governo do Brasil”.
Confira a programação para os próximos dias:
01/06 – Nova Laranjeiras (TI Rio das Cobras) – Semeadura aérea de 2 toneladas de sementes
8h às 9h – Acolhida e café da manhã.
9h – Abertura da Jornada com apresentação cultural das mulheres indígenas e sobrevoo da semeadura aérea da Palmeira Juçara.
11h30 – Ato político com autoridades.
12h30 – Almoço.
14h – Atividade com as escolas e plantio de mudas.
17h – Feira com produtos locais e atividade cultural com bandas indígenas.
02/06 – Quedas do Iguaçu — Comunidade Dom Tomás Balduíno — semeadura aérea de 10 toneladas de sementes
Principais atividades: dia de campo com monitoramento de áreas; visita à unidade de produção e beneficiamento de juçara e frutas nativas; semeadura aérea de Palmeira Juçara.
9h – Acolhida e credenciamento das autoridades e instituições parceiras.
9h30 – Café da manhã.
11h – Sobrevoo de semeadura de juçara.
12h – Ato político.
13h – Almoço coletivo.
14h – Continuação do sobrevoo e semeadura da palmeira.
17h – Programação cultural.
03/06 – Rio Bonito do Iguaçu — Comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio — semeadura aérea de 4 toneladas de sementes
Principais atividades: sobrevoo e mutirão de plantio nas áreas que foram afetadas pelo tornado em novembro/25, com ato político e conferência na universidade.
7h30 – Acolhida.
9h00 – Sobrevoo com semeadura aérea.
10h30 – Ato político.
12h30 – Almoço comunitário.
13h30 – Mutirão de plantio — mudas de árvores nativas.
16h30 – Atividades ambientais na UFFS.
19h30 – Conferência sobre a Palmeira Juçara e resultados das pesquisas em torno da semeadura aérea.
04/06/2026 – Rio Bonito do Iguaçu – Assentamento Dom Tomás Balduíno
Dia de campo sobre uso da mecanização para colheita de frutas nativas da mata atlântica
9h – Início
12h – Almoço
13h – Teste a campo da máquina de colheita de açaí – Açaíbot
16h – Café da tarde
Formação ambiental com certificação
05/06/2026 – Guarapuava – Assentamento Nova Geração
10h – Ato político
12h – Almoço
13h – Oficina de proteção de fonte e plantio de árvore na reserva legal atingida pelo tornado
15h – Distribuição de mudas e encerramento.
06/06/2026 – Adrianópolis – Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira / Comunidade João Surá – semeadura aérea de 2 toneladas de sementes
Principais atividades: sobrevoo de semeadura de juçara, ato político, troca de sementes, reconhecimento do território.8h – Acolhida e café da manhã.
9h – Sobrevoo e semeadura da Palmeira Juçara.
11h – Ato político
12h30 – Almoço coletivo
14h – Apresentação cultural da história do Colégio Estadual Diogo Gomes.
15h – Passeio para conhecer a comunidade.
18h – Troca de sementes e mudas
*Editado por Fernanda Alcântara
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