
Em entrevista ao programa Entrelinhas Vermelhas, do Portal Vermelho, o ex-presidente da Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam), Getúlio Vargas Jr., fez um balanço assertivo dos últimos anos de atuação do movimento comunitário. Ele destacou que o período entre 2017 e 2026 foi marcado por uma dura resistência contra governos que promoveram o desmonte de políticas públicas, culminando no negacionismo da pandemia e no ataque direto aos direitos territoriais.
Vargas Jr. foi enfático ao desconstruir a narrativa de confronto ideológico vinda da extrema-direita: “A Conam não é inimiga do Bolsonaro. O Bolsonaro é que é inimigo da nossa luta histórica”. Ao atacar o SUS e programas habitacionais, o ex-presidente da República agiu contra a própria sobrevivência das comunidades. Agora, o desafio é a reconstrução, com a Conam retomando seu protagonismo em espaços institucionais como o Conselho Nacional de Saúde e o Conselho Nacional da Cidade, além de atuar na linha de frente contra despejos.
Assista a íntegra da entrevista:
Os quatro eixos estruturantes: cidade, saúde e vida
O 15º Congresso da Conam, realizado em Fortaleza e batizado de “Congresso Maura Augusta” em homenagem à histórica liderança paulista, aprovou quatro eixos fundamentais para a atuação da entidade. O primeiro é a reforma urbana, com foco no direito à moradia, no fortalecimento do “Minha Casa, Minha Vida Entidades” e na luta para que a cidade cumpra sua função social, e não a de mercadoria. Vargas Jr. criticou duramente o programa “Casa Verde e Amarela”, do governo anterior, por ter sido uma manobra para abrir o setor habitacional à especulação dos bancos privados, em detrimento do financiamento público.
O segundo eixo é a defesa intransigente do SUS como direito, e não como mercadoria, com a Conam se preparando para a 18ª Conferência Nacional de Saúde. O terceiro eixo estabelece o diálogo com a classe trabalhadora pela extinção da escala 6 por 1, reconhecendo que a saúde mental e a qualidade de vida dos trabalhadores impactam diretamente os territórios. Por fim, o quarto eixo enfrenta a pandemia de suicídios e o feminicídio, convocando as lideranças comunitárias a romperem o silêncio sobre a violência doméstica e a protegerem a vida das mulheres nas comunidades.
Autonomia inegociável e o desafio eleitoral de 2026
Um dos pontos mais assertivos da declaração de Vargas Jr. foi a defesa da autonomia dos movimentos sociais. Ele alertou que, mesmo diante de governos aliados e progressistas, a cooptação é um risco que deve ser evitado. “A Conam não tem partido, mas a Conam tem lado”, afirmou, ressaltando que a pressão popular nas ruas é o único motor capaz de tirar políticas do papel e enfrentar o centrão e o mercado.
Com a eleição de Antônio Pedro de Souza (Tonhão) para a presidência, a entidade busca reforçar sua capilaridade nos territórios. O timing do congresso não foi por acaso: ele serve como plataforma de mobilização para as eleições de outubro de 2026. Para Vargas Jr., a reeleição de Lula (Lula 4) é estratégica, mas insuficiente se não vier acompanhada de uma mudança qualitativa na composição do Congresso Nacional. “Não basta reeleger o Lula, precisamos eleger uma bancada progressista que ajude a fazer a defesa dessas construções históricas”, concluiu, reforçando que o próximo mandato não pode ser apenas uma continuidade, mas um salto de qualidade na distribuição de renda e na garantia de direitos.
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