
O Congresso do Peru destituiu a presidente Dina Boluarte na madrugada desta sexta-feira (10), após declarar sua “incapacidade moral permanente” para enfrentar a escalada da violência e do crime organizado.
A votação, que teve 122 votos a favor e nenhum contrário, superou com folga os 87 necessários e levou à posse imediata do presidente do Congresso, José Jerí, que assume interinamente a chefia do Estado.
Primeira mulher a ocupar o cargo, Boluarte não compareceu ao plenário para se defender, alegando violação do devido processo.
O processo de vacância foi conduzido em ritmo acelerado. Na noite de quinta-feira, o Congresso admitiu a moção e, poucas horas depois, aprovou sua destituição por unanimidade.
A justificativa oficial foi a incapacidade da presidente em conter o aumento da criminalidade, o que, segundo os parlamentares, evidenciaria a falência do governo. O país atravessa semanas de tensão com protestos de transportistas e manifestações de jovens contra o agravamento da insegurança.
Em sua última declaração antes de deixar o cargo, Boluarte disse acreditar em irregularidades no processo e se recusou a participar da sessão de destituição.
“Não convalidaremos a moção, e por essa razão, não iremos ao Parlamento Nacional”, afirmou seu advogado, Juan Carlos Portugal, em mensagem publicada na rede X.
Já destituída, Boluarte fez um pronunciamento na sede da Presidência acompanhada de ministros, sem a faixa presidencial, e tentou apresentar um balanço de governo. O discurso, transmitido ao vivo por canais de televisão, foi abruptamente interrompido quando ela começou a listar números e realizações de sua gestão.
O mandato de Boluarte, iniciado em dezembro de 2022 após a queda de Pedro Castillo, terminou com um saldo de isolamento político e desgaste social. A ex-presidente enfrenta ao menos onze investigações abertas pela Promotoria por suposta corrupção, enriquecimento ilícito e graves violações de direitos humanos.
Entre as acusações estão a repressão a protestos que resultaram em mais de 50 mortes, o recebimento de relógios Rolex não declarados e o encobrimento da fuga de um dirigente do partido Peru Libre, legenda pela qual se elegeu vice na chapa de Castillo.
Minutos após a votação, o plenário realizou a cerimônia de posse de José Jerí, deputado do partido direitista Somos Perú.
Com a mão direita erguida, o novo presidente jurou fidelidade à Constituição e prometeu convocar eleições gerais em abril de 2026, com posse do vencedor em julho do mesmo ano.
“É momento de pedir perdão pelos erros que possamos ter cometido. A todos os peruanos, as desculpas do caso e uma promessa: a promessa de começar a construir e lançar as bases de um país que, a partir da empatia, permita a reconciliação entre todos”, afirmou em seu primeiro discurso.
Com a ascensão de Jerí, o Peru soma sete presidentes em menos de dez anos, um recorde que simboliza o colapso político do país andino.
Desde 2016, passaram pelo cargo Pedro Pablo Kuczynski, Martín Vizcarra, Manuel Merino, Francisco Sagasti, Pedro Castillo, Dina Boluarte e agora José Jerí.
A sucessão de quedas presidenciais, sempre amparada pela figura jurídica da “incapacidade moral permanente”, consolidou o Congresso como centro de poder e fragilizou ainda mais a democracia peruana.
Da prisão, Pedro Castillo voltou a se manifestar, pedindo a restituição de seu mandato e acusando o Parlamento de manter um “governo de fato” desde sua destituição em 2022.
“Em 7 de dezembro de 2022, fui destituído ilegalmente sem alcançar os 104 votos exigidos por lei. Hoje, com mais de 104 votos, foram aprovadas quatro moções para destituir a usurpadora Boluarte”, escreveu.
O procurador-geral interino, Tomás Gálvez, anunciou que pedirá à Justiça que Boluarte seja impedida de deixar o país.
Ela deixou o Palácio do Governo logo após o discurso, em carro oficial, e até o início da manhã desta sexta-feira seu paradeiro era desconhecido. A nova administração de Jerí começa em meio a uma profunda crise de legitimidade, com a economia estagnada e o descrédito generalizado das instituições.
A promessa de eleições em 2026 tenta conter a pressão popular, mas não dissipa a sensação de que o país vive um ciclo interminável de rupturas políticas e desconfiança social.
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