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Copa da Fifa é marcada por discriminação e autoritarismo

COPA DE TRUMP. Todo ditador precisa de um bom capacho. Foto: ATS

Durante Copa do Mundo da Fifa nos EUA, Donald Trump com apoio de Gianni Infantino impõem restrições a delegações e torcedores.

Fernando Santos e Cadu Machado (SP)


MUNDO – A 23ª Copa do Mundo de Futebol Masculino da Fifa, sediada, pela primeira vez, em três países (Estados Unidos, México e Canadá), teve início no último dia 11 de junho com o maior número de participantes da história, 48 seleções no total. Ao mesmo tempo, o torneio ocorre em meio a violações de direitos de atletas, árbitros, delegações, torcedores e jornalistas, além de preços abusivos dos ingressos, o que torna o acesso aos estádios quase impossível ao povo trabalhador.

Os Estados Unidos, governado pelo ditador Donald Trump e com total aval do presidente da Fifa, Gianni Infantino, têm submetido delegações e torcedores a constrangimentos e restrições que reproduzem os conflitos internacionais do país imperialista.

O exemplo mais evidente é o caso do Irã. Enquanto as seleções se hospedam nas cidades onde disputarão suas partidas, a delegação iraniana não poderá permanecer em solo estadunidense por mais de 36 horas, mesmo tendo seus jogos da fase de grupos realizados nas cidades de Los Angeles e Seattle.

Para contornar as restrições e garantir segurança à delegação, o Irã foi obrigado a transferir sua base de treinamento para o México, medida que impõe uma logística desgastante, prejudicando a preparação física dos atletas e o planejamento esportivo da seleção iraniana. A decisão ocorre em meio à guerra de rapina de Estados Unidos e Israel contra a soberania do povo iraniano.

O embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, afirmou que, apesar das restrições impostas, o Irã pretende utilizar sua participação na Copa do Mundo para demonstrar seu compromisso com a paz e denunciar as agressões contra sua soberania.

Outros episódios semelhantes ocorreram ao longo da preparação para o torneio. Um dos melhores árbitros do mundo, o somali Omar Abdulkadir, teve sua entrada negada nos Estados Unidos e não poderá atuar nos jogos da competição para os quais estava designado.

Após o episódio, o árbitro foi recebido como herói na Somália e recebeu do Canadá um convite para apitar partidas disputadas em território canadense durante a Copa. A Fifa, porém, respaldou a decisão dos EUA ao afirmar que “não se envolve nos processos de imigração dos países-sede”.

Os casos de restrições contra representantes de países considerados adversários dos Estados Unidos vêm se acumulando. Senegal, Iraque, Camarões e outras nações também relataram dificuldades e constrangimentos relacionados à participação no torneio. A delegação senegalesa foi submetida a uma revista de segurança ainda na pista do aeroporto, enquanto o atacante iraquiano Aymen Hussein foi detido e interrogado por quase sete horas ao desembarcar nos Estados Unidos.

Todos esses episódios revelam uma realidade que contrasta com o espírito de confraternização que historicamente se observa na Copa do Mundo. Em vez de aproximar os povos, a competição tem sido marcada por discriminação, xenofobia e tratamento desigual entre nações aliadas e adversárias dos Estados Unidos.

Esse cenário torna inevitáveis as comparações com outros grandes eventos esportivos realizados sob governos de caráter fascista, como a Copa do Mundo de 1934, organizada pela Itália de Benito Mussolini, e as Olimpíadas de 1936, sediadas pela Alemanha nazista de Adolf Hitler.

Dois pesos e duas medidas

As polêmicas não se limitam às questões migratórias. A menos de uma semana do início da Copa, a Fifa exigiu alterações no uniforme oficial da seleção do Haiti, alegando a presença de “mensagens políticas” na camisa. O uniforme exibia imagens do povo haitiano carregando a bandeira nacional em celebração ao retorno da seleção ao principal torneio do futebol mundial e, segundo a fornecedora do material esportivo, tinha como objetivo homenagear “o orgulho, a resiliência e o espírito do povo haitiano”.

O episódio ampliou as críticas à atuação da Fifa durante a competição. Enquanto a entidade restringe manifestações de identidade nacional e orgulho popular de determinados povos, fecha os olhos às medidas discriminatórias do país-sede sob o argumento de não “misturar política e esporte”.

Outro exemplo desta política de dois pesos e duas medidas é o tratamento dado aos conflitos internacionais. Enquanto a Rússia permanece excluída das competições em razão da guerra na Ucrânia, os Estados Unidos e seus aliados seguem sediando torneios e participando normalmente das competições, apesar de suas intervenções militares, ameaças e conflitos em diferentes partes do mundo.

Durante a própria realização da Copa, os Estados Unidos realizaram novos bombardeios contra o Irã. Ao mesmo tempo, Israel – aliado histórico de Washington e ausente do torneio apenas por não ter conseguido a classificação em campo – segue conduzindo uma tentativa de genocídio contra o povo palestino e o povo libanês, sem sofrer qualquer sanção esportiva por parte da Fifa.

Lutas no México

Cabe destacar ainda que o povo mexicano está em mobilização há semanas, mesmo em meio ao “clima de Copa do Mundo”. O México é o único país a sediar o torneio três vezes. Em 1970, sagrou-se campeã a mágica seleção brasileira montada por João Saldanha (ver página 12) e, em 1986, a Argentina de Diego Maradona.

A Coordenação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) realiza uma greve geral, com acampamento na Cidade do México (capital do país) e atos nos diversos estados. Os professores querem a revogação de uma lei de 2007, que privatizou o sistema de aposentadorias, retirando, inclusive, o direito de se aposentar com os salários recebidos no momento em que encerravam suas atividades profissionais.

O presidente social-democrata Claudia Sheinbaum tenta deslegitimar o movimento grevista usando as empresas capitalistas da mídia tradicional do país. Também ordenou que fosse posicionada uma grande barreira de ferro entre o acampamento dos professores e a fan zone da Fifa (área de concentração de torcedores para assistirem aos jogos e aos shows) no centro da Capital.

O movimento, contudo, segue forte em todo o país e conta com grande apoio do povo mexicano, que deseja uma educação de qualidade e, ao mesmo tempo, é apaixonado por futebol.

A Copa dos milionários

Além das restrições políticas, essa é também a Copa mais cara da história. Os ingressos mais baratos para a final devem custar cerca de R$ 21 mil, valor aproximadamente sete vezes superior ao da última edição do torneio. Já existem entradas anunciadas por R$ 950 mil em plataformas de revenda.

Embora a Fifa forneça a estrutura oficial para a comercialização dos ingressos, a entidade não estabelece limites para os valores praticados nas revendas realizadas em suas plataformas e ainda lucra com a cobrança de taxas sobre as transações. Na prática, o sistema permite que ingressos sejam revendidos livremente por valores muito acima dos preços originais. O que no Brasil é conhecido como cambismo – prática proibida, embora bastante comum – é legalizado e incorporado ao modelo de negócios da competição.

O resultado é uma escalada desenfreada dos preços. Nos setores VIP, pacotes podem alcançar cifras próximas de R$ 11 milhões, tornando os estádios cada vez mais inacessíveis para o povo trabalhador e transformando a Copa do Mundo num espetáculo voltado principalmente para os milionários.

Enquanto isso, a Federação Iraniana denunciou a retirada de parte de sua carga de ingressos poucos dias antes do início da competição, medida que dificulta a presença de torcedores iranianos nos jogos e contraria os princípios de igualdade que deveriam orientar as competições internacionais.

Futebol mais distante do povo

A Copa do Mundo 2026 evidencia uma contradição cada vez mais profunda. Ao mesmo tempo em que amplia o número de seleções participantes e reafirma o futebol como a modalidade esportiva mais popular do mundo, a competição se torna mais excludente do ponto de vista econômico, político e social. Os altos preços dos ingressos, as restrições impostas a delegações e torcedores e a crescente influência dos interesses comerciais afastam dos estádios aqueles que construíram historicamente a cultura do futebol, os trabalhadores.

Mas nem sempre foi assim. Ao longo do século XX, diferentes experiências buscaram aproximar o esporte do povo. Os campeonatos organizados na União Soviética, por exemplo, contaram com grande participação popular, por meio de equipes ligadas a sindicatos, cooperativas, fábricas, ferrovias e instituições públicas. Ao mesmo tempo, o futebol soviético alcançou destaque internacional, com a seleção conquistando a Eurocopa de 1960, a medalha de ouro olímpica sobre o Brasil e três vice-campeonatos europeus, enquanto seus clubes venceram a Recopa Europeia em duas ocasiões, competição que reunia os campeões das copas nacionais do continente e figurava entre os torneios mais importantes da Europa.

A crescente elitização do futebol demonstra que o acesso ao esporte não é uma questão técnica ou financeira, mas uma escolha política. Se as arquibancadas são transformadas em espaços para milionários, isso não significa que essa realidade seja inevitável. O futebol pode e deve voltar a ser popular. O futebol é do povo. As arquibancadas são nossas.

Matéria publicada na edição impressa nº 336 do jornal A Verdade