Entra ano, sai ano, e o futebol continua operando seu milagre semântico mais virulento: transformar raça em elogio. Nas arquibancadas, nas transmissões e nas mesas-redondas, a palavra funciona como selo de bravura e brio. Basta um time pressionar, suportar o sufoco ou se recusar a morrer para que alguém invoque a raça. O futebol organiza paixões coletivas e alimenta mitologias nacionais; não é apenas um entretenimento alienante, como alguns iluminados defendem, isso aumenta em grande escala a linguagem nele usada.
Então, o espanto começa quando setores da esquerda entram na roda e exaltam a mística desse ou daquele time ou seleção para condenar a tibieza de outros através desse uso da palavra. Ingenuidade ou desleixo: qualquer caminho aponta uma brecha grave.

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Vejamos a crítica, muitas vezes justa, à seleção brasileira. Os jogadores parecem viver a uma distância segura do país. A cartolagem transformou a CBF num monumento ao cinismo. A camisa amarela foi sequestrada pela extrema direita e passou a circular como uniforme de ressentimento. Nada disso obriga ninguém a procurar no sangue de outros povos a qualidade que faltaria aos brasileiros. Coragem não brota do solo. Entrega não é herança nacional. Um time reage porque alguma coisa foi construída ali, dentro do jogo ou antes dele.
É justamente nesse salto que mora a fraude. Uma equipe atravessa boa fase, encontra uma forma de jogar, suporta uma partida difícil. Em seguida, o comentário abandona o campo e sobe para a metafísica: esse povo sabe lutar. O que aconteceu em noventa minutos vira prova de caráter nacional. Uma contingência é promovida a destino.
Raça nunca foi palavra inocente. Sua acepção moderna tomou forma no século XIX, quando o racismo científico tentou ordenar a humanidade numa escala de valor. Mediram crânios, catalogaram corpos, inventaram inferioridades. O colonialismo ganhou um verniz de ciência, e o saque pôde desfilar como missão civilizatória. A violência deixou de aparecer como violência. Passou a ser apresentada como resultado natural da superioridade de uns e da incapacidade de outros.
A história da palavra, evidentemente, não termina aí. Movimentos negros arrancaram raça das mãos de seus inventores e a converteram em categoria de luta. Ela passou a nomear uma estrutura que marca corpos, distribui privilégios e produz morte. Nesse terreno, raça não afirma uma essência biológica. Expõe a máquina social que fabrica desigualdade.
No futebol, porém, o termo costuma voltar ao seu velho serviço. Não resolve dizer que ali seu sentido é outro. A língua não perde a memória porque o locutor está narrando um contra-ataque. Quando a raça deixa de nomear uma posição política ou uma experiência histórica e começa a explicar a disposição natural de um povo, o essencialismo já entrou em campo e derrota completamente o bom senso.
Um time suporta o abafa, divide cada bola, reage no fim. Daí, o diagnóstico vem pronto: raça. A organização tática vira alma nacional. A confiança e o trabalho de grupo entre os jogadores reaparecem como temperamento coletivo. O trabalho do treinador some. O acaso some. O erro do adversário também. Fica uma força cinzenta, meio sangue, meio espírito, transmitida de geração em geração. É o racialismo de sempre, agora com chuteira, voz de locutor emocionado e delírio coletivo.
Assusta ver a esquerda aceitar esse entulho com tanta desenvoltura. Passamos décadas desmontando explicações que mascaravam a história sob o nome de natureza. Denunciamos toda tentativa de ligar origem a inteligência, disciplina, coragem ou valor moral. Mas basta o juiz apitar para que o rigor sociológico seja deixado no vestiário. Surge então a Argentina apaixonada, o Uruguai guerreiro, o Brasil indolente. Povos inteiros reduzidos a personagens de uma fábula esportiva.
Esse fetiche ainda presta um segundo serviço: permite falar do jogo sem analisá-lo. Em vez de examinar a ocupação dos espaços, a recomposição, a leitura do treinador ou a capacidade de suportar a pressão, saca-se a raça do bolso. Ela serve para tudo. Apaga o trabalho, apaga a política, apaga a cultura. Se o time vence, venceu pela raça. Se perde lutando, a derrota prova que a raça continua intacta. Uma explicação capaz de sobreviver a qualquer resultado não explica nada.
Nenhum povo nasce com o gene do sacrifício. Nenhuma torcida transmite virtudes pelo DNA. Equipes constroem confiança, aprendem a reagir, encontram uma forma de jogar. Também desmoronam. O que parecia ser a alma de um time desaparece numa temporada ruim. Às vezes, desaparece depois de um gol.
O antirracismo no esporte não pode se limitar à punição protocolar de insultos nas arquibancadas. É importante alcançar também o elogio que naturaliza corpos e distribui virtudes nacionais. Um time pode jogar com ferocidade, resistir ao sufoco e disputar cada centímetro do campo. A língua dispõe de palavras para dizer isso sem recorrer a uma entidade racial. Quando raça passa a definir o caráter de uma nação, o suposto elogio apenas disfarça uma velha partilha do mundo que operou massacres, genocídios, apagou e mutilou histórias.
O futebol é política, história, ciência, cultura, linguagem. Doa a quem doer.
(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.
O post Copa do Mundo: quando a ‘raça’ vira essência apareceu primeiro em Opera Mundi.