Notícias

Coreia e Japão, 2002: o penta que consagrou a volta do Fenômeno

Em 2002, o Brasil chegou à Copa do Mundo carregando mais dúvidas do que certezas. Quatro anos antes, em Paris, a derrota por 3 a 0 para a França deixara uma ferida aberta no imaginário nacional.

Mais do que perder a final, o país assistiu ao colapso físico e simbólico de Ronaldo, principal jogador daquela geração, envolto em convulsões, versões contraditórias e explicações nunca plenamente esclarecidas.

O Mundial da Coreia do Sul e do Japão, primeiro da história realizado na Ásia e também o primeiro com sede compartilhada, surgia como uma travessia, uma oportunidade de encerrar o trauma de 1998 e reconstruir a confiança na Seleção.

A Seleção, no entanto, não era apontada como favorita absoluta. Vinha de uma campanha turbulenta nas Eliminatórias, havia trocado de técnico, convivido com desconfiança popular e quase ficado fora da Copa.

O pentacampeonato, que hoje parece parte natural da grandeza brasileira, nasceu em meio à crise.

O Brasil de 2002 também atravessava um momento de transição. O governo Fernando Henrique Cardoso chegava ao fim sob o peso do desemprego, da crise energética, da instabilidade econômica e das incertezas provocadas pela globalização neoliberal.

O país e o mundo acompanhavam a campanha presidencial que levaria Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto meses depois, encerrando um ciclo político e abrindo outro.

Dentro desse ambiente, a Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari se transformou em uma espécie de espelho do país: desacreditada, pressionada, imperfeita, mas capaz de reconstruir a confiança a partir do trabalho coletivo, da disciplina e do talento popular.

A crise antes da glória

A caminhada até o Mundial foi uma das mais difíceis da história da Seleção. O Brasil passou pelas Eliminatórias Sul-Americanas com sofrimento raro para um país acostumado a se ver como potência natural do futebol.

A equipe perdeu jogos, trocou treinadores e só garantiu a vaga nas rodadas finais. Felipão assumiu em 2001 com uma missão ingrata: reorganizar um time fraturado, recuperar competitividade e blindar o grupo de um ambiente de cobrança permanente.

Sua decisão mais polêmica foi deixar Romário fora da lista final. O Baixinho, herói do tetra em 1994, vivia boa fase e era defendido por parte expressiva da torcida e da imprensa.

Felipão, porém, preferiu montar um grupo sob controle rígido, sem concessões à pressão externa.

A escolha definiu o tom da campanha. A Seleção de 2002 não seria lembrada apenas pelo improviso, mas por uma combinação de talento e obediência tática.

O esquema com três zagueiros — Lúcio, Roque Júnior e Edmílson — dava sustentação para que Cafu e Roberto Carlos avançassem pelas alas. No meio, Gilberto Silva, discreto e essencial, protegia a defesa e liberava os craques.

À frente, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo formavam o trio que desequilibraria a Copa.
Era uma seleção menos romântica do que a de 1982, menos mitológica do que a de 1970, mas profundamente brasileira em outro sentido: sabia sofrer, sobreviver e decidir.

Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho

O personagem central da campanha foi Ronaldo. Depois do trauma da final de 1998, o atacante enfrentou a fase mais dramática da carreira.

Em novembro de 1999, atuando pela Inter de Milão, rompeu parcialmente o tendão patelar do joelho direito e passou por cirurgia. Cinco meses depois, em abril de 2000, retornou aos gramados na final da Copa da Itália contra a Lazio.

Ficou apenas sete minutos em campo antes de sofrer uma ruptura completa do mesmo tendão.
A cena de Ronaldo caído no gramado do Estádio Olímpico de Roma, chorando de dor, correu o mundo e levantou dúvidas sobre a continuidade de sua carreira.

A recuperação foi longa e consumiu quase dois anos entre cirurgias, fisioterapia e recondicionamento físico.

Pelé celebra com Ronaldo após a final de Yokohama. Foto: Reprodução

Quando desembarcou na Coreia do Sul e no Japão para a Copa de 2002, Ronaldo ainda carregava desconfianças sobre sua condição física.

Terminaria o torneio como artilheiro, com oito gols, transformando uma história de sofrimento e incerteza numa das maiores trajetórias de superação da história das Copas do Mundo.

Cada gol parecia um acerto de contas com Paris, com as lesões e com a desconfiança. A imagem do camisa 9 sorrindo com o corte de cabelo “Cascão” virou marca popular daquela Copa.

Mas o penta não foi obra de um homem só. Rivaldo fez uma Copa monumental. Marcou em jogos decisivos, assumiu responsabilidade técnica e foi o elo mais constante do ataque brasileiro.

Se Ronaldo encarnou a redenção, Rivaldo representou a regularidade silenciosa de quem carregou o time nos momentos mais duros.

Não por acaso, permanece até hoje uma das grandes discussões daquela Copa: quem foi o principal jogador do Brasil?

Ronaldo terminou como artilheiro, com oito gols, e decidiu a final contra a Alemanha. Rivaldo, porém, foi o cérebro ofensivo da equipe e manteve alto nível do primeiro ao último jogo. Se Ronaldo encarnou a redenção, Rivaldo representou a consistência silenciosa que sustentou a

Ronaldinho Gaúcho, por sua vez, ofereceu ao Mundial um lampejo do futuro. Aos 22 anos, ainda antes de se tornar o melhor jogador do mundo, ele encantou com dribles, arrancadas e irreverência.

O jogo contra a Inglaterra, nas quartas de final, foi o ápice da sua atuação: primeiro, a arrancada que terminou no gol de Rivaldo; depois, a cobrança de falta de longe que encobriu o goleiro Seaman e entrou para a história das Copas.

Depois, terminaria expulso por uma solada no adversário.

O caminho até Yokohama

Na fase de grupos, o Brasil venceu todos os jogos. Estreou com vitória por 2 a 1 sobre a Turquia, de virada, em partida tensa que já mostrou a importância de Rivaldo e Ronaldo.

Depois, goleou a China por 4 a 0, num jogo em que os chamados quatro R’s anotaram: Roberto Carlos, Ronaldinho, Ronaldo e Rivaldo.

Fechou a primeira fase com 5 a 2 sobre a Costa Rica, confirmando a força ofensiva.

Nas oitavas, enfrentou a Bélgica e venceu por 2 a 0, com gols de Rivaldo e Ronaldo. O jogo foi mais difícil do que o placar sugere. A seleção europeia pressionou, teve gol anulado e obrigou o Brasil a mostrar solidez.

Ali, a equipe confirmou que não dependia apenas do brilho característico dos brasileiros, mas também da resiliência.

Contra a Inglaterra, veio o grande teste. Oque muitos chamavam de final antecipada.

O duelo reunia duas escolas tradicionais, num momento em que o futebol europeu buscava reafirmar sua superioridade física e tática.

E os Ingleses contavam com uma constelação de craques: David Beckham, Michael Owen, Paul Scholes, Steven Gerrard, Rio Ferdinand, e Sol Campbell.

Ronaldinho cobra a falta que encobriu David Seaman e virou o jogo contra a Inglaterra nas quartas de final da Copa de2002. Foto: Reprodução

Michael Owen abriu o placar após erro bobo de Lúcio. O Brasil, no entanto, não esmoreceu.

Rivaldo empatou antes do intervalo após jogadaça de Ronaldinho, que virou o jogo com um dos gols de falta mais antológicos da história da competição.

Mesmo expulso depois, o camisa 11 deixou sua assinatura definitiva.

Na semifinal, a Turquia reapareceu. Era uma seleção forte, organizada e agressiva, uma das surpresas daquele Mundial. O Brasil venceu por 1 a 0, com gol de bico de Ronaldo.

Foi uma vitória curta, nervosa, construída mais na maturidade do que no espetáculo. A Seleção chegava à final invicta, com seis vitórias em seis jogos.

A final contra a Alemanha

Em 30 de junho de 2002, no Estádio Internacional de Yokohama, Brasil e Alemanha se enfrentaram pela primeira vez em uma Copa do Mundo.

Era curioso que duas das maiores seleções da história jamais tivessem cruzado caminho no torneio.

De um lado, o Brasil buscava o quinto título. Do outro, a Alemanha tentava reafirmar sua tradição depois de anos de reconstrução.

A final foi também o encontro entre Ronaldo e Oliver Kahn, o melhor goleiro daquela Copa. Durante boa parte do jogo, a Alemanha resistiu.

O Brasil pressionava, mas não conseguia transformar superioridade em gol. Até que Rivaldo no chute de fora da área, Kahn falhou e Ronaldo apareceu para empurrar para as redes.

O camisa 9 corria para o abraço e o Brasil começava a soltar o grito preso desde 1998.

O segundo gol foi ainda mais emblemático. Kléberson avançou, tocou para Rivaldo, que fez o corta-luz. Ronaldo dominou e bateu no canto. Brasil 2 a 0.

O pentacampeonato estava selado.

Cafu, capitão da Seleção, levantou a taça usando uma camisa com a frase “100% Jardim Irene”, homenagem ao bairro periférico onde cresceu em São Paulo.

A última grande Copa brasileira
O título de 2002 encerrou a era mais vitoriosa da Seleção Brasileira. Foi o quinto Mundial, o terceiro em oito Copas desde 1970, e consolidou o Brasil como maior campeão da história.

Também foi a última conquista mundial da Seleção principal masculina até hoje.

O penta teve um sabor particular porque reuniu passado e futuro. Cafu e Roberto Carlos simbolizavam a geração campeã e madura dos anos 1990.
Ronaldo e Rivaldo estavam no auge de trajetórias marcadas por talento e superação.

Ronaldinho anunciava a década seguinte, em que o futebol brasileiro ainda encantaria o mundo nos clubes europeus.

Politicamente, a Copa coincidiu com o fim de um ciclo no Brasil. Poucos meses depois, Lula seria eleito presidente pela primeira vez.

A imagem de um país desacreditado que reencontrava confiança, ainda que no futebol, dialogava com um sentimento mais amplo de mudança.

O Brasil queria voltar a acreditar em si.
Culturalmente, 2002 também marcou uma virada. Foi uma Copa acompanhada pela televisão globalizada, por transmissões de madrugada, por bares abertos em horários improváveis e por uma geração que viveu o Mundial já conectada a uma economia da imagem muito diferente daquela de 1970.

A Seleção ainda era um patrimônio afetivo nacional, mas já entrava de vez na era das marcas esportivas, dos contratos milionários e da circulação global dos craques.

Mesmo assim, havia algo profundamente popular naquele time. O corte de Ronaldo, a liderança de Cafu, a seriedade de Felipão, a constância de Rivaldo, a alegria de Ronaldinho e a força coletiva do grupo produziram uma memória que ainda resiste.

O Brasil de 2002 não venceu apenas por jogar melhor. Venceu porque soube atravessar a desconfiança, transformar as cicatrizes em força e fazer da redenção uma conquista coletiva.

Aquela Seleção não foi a mais bela de todas. Talvez nem tenha pretendido ser. Mas foi uma das mais humanas.

Caiu antes de chegar, duvidaram dela, perdeu ídolos pelo caminho, enfrentou cobrança feroz e respondeu com sete vitórias em sete jogos.

O post Coreia e Japão, 2002: o penta que consagrou a volta do Fenômeno apareceu primeiro em Vermelho.