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Crescer sem integrar: sete perguntas para interpretar o Peru de Keiko Fujimori

Há quase um século, José Carlos Mariátegui publicou seus célebres Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. A pergunta que atravessava sua reflexão era simples: por que o Peru encontrava tantas dificuldades para construir uma nação integrada? Quase cem anos depois, essa questão continua surpreendentemente atual. O Peru urbanizou-se, ampliou sua inserção internacional, reduziu a pobreza e se converteu em uma das economias mais dinâmicas da América Latina. Alguns dos problemas centrais identificados por Mariátegui, porém, seguem sem solução.

Nas últimas três décadas, o país foi frequentemente apresentado como um caso de sucesso. Impulsionado pela mineração, pela abertura econômica e pela crescente demanda asiática por recursos naturais, acumulou reservas, expandiu exportações e consolidou estabilidade macroeconômica. Ao mesmo tempo, porém, o sistema político se enfraqueceu, persistiram desigualdades territoriais profundas e amplas áreas do interior permaneceram relativamente desconectadas dos benefícios desse modelo de desenvolvimento. O resultado foi um paradoxo recorrente: crescimento econômico combinado com baixa legitimidade política e instabilidade institucional permanente.

A provável posse de Keiko Fujimori recoloca esse paradoxo em uma nova escala. O Peru tornou-se uma peça estratégica da rivalidade entre Estados Unidos e China, ocupa posição central nas cadeias globais de minerais críticos e abriga alguns dos mais importantes projetos de infraestrutura do Pacífico sul-americano. Ainda assim, continua enfrentando dificuldades para construir um projeto nacional compartilhado. A hipótese deste artigo é que o problema peruano não consiste apenas na persistência da instabilidade política apesar do crescimento econômico. A questão mais profunda é que o país promoveu sua integração aos mercados globais sem produzir integração nacional e regional suficiente. Em outras palavras, o Peru cresceu sem integrar.

1.Como um dos países que mais cresceu da América Latina tornou-se também um dos mais instáveis politicamente?

A interpretação convencional sugere que a instabilidade política decorre da desaceleração econômica dos últimos anos. A história recente do Peru, porém, aponta em outra direção. Entre o início dos anos 2000 e meados da década seguinte, o país registrou alguns dos melhores indicadores econômicos da América Latina. Ainda assim, Alejandro Toledo (2001-2006), Alan García (2006-2011), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski – PPK (2016-2018) deixaram o poder profundamente desgastados ou foram posteriormente envolvidos em sucessivas crises políticas. A instabilidade peruana não surgiu depois do crescimento; ela constituiu uma de suas contradições mais persistentes.

Talvez o paradoxo peruano não seja a coexistência entre crescimento e insatisfação, mas o fato de que o próprio padrão de crescimento reforçou algumas das características que dificultam a construção da estabilidade política. Como observava Julio Cotler, o dinamismo de Lima, das vias exportadoras e dos enclaves minerais convive historicamente com uma limitada integração territorial e social. O país integrou-se à economia mundial mais rapidamente do que integrou seu próprio território. Talvez aí resida a origem de um paradoxo que atravessa todo o período recente: enquanto o Peru se tornava mais conectado aos mercados globais, permanecia incapaz de construir níveis equivalentes de integração social, territorial e política.

2.A Lava Jato fortaleceu a democracia ou enfraqueceu as capacidades políticas e econômicas da América do Sul?

A Lava Jato não criou a crise política peruana, mas acelerou e aprofundou dramaticamente sua manifestação. Em poucos anos, atingiu todos os presidentes que governaram o país entre 2001 e 2018 e diversas lideranças partidárias, contribuindo para a desarticulação do sistema político construído após a redemocratização. O resultado foi outro paradoxo: o fortalecimento dos mecanismos de responsabilização veio acompanhado da erosão de partidos, lideranças e instrumentos de mediação política, sem que surgissem forças capazes de substituí-los. A fragmentação subsequente aprofundou o vazio de representação e contribuiu para uma sequência quase ininterrupta de crises presidenciais.

Entretanto, os efeitos da Lava Jato ultrapassaram em muito as fronteiras nacionais. Instrumentalizada politicamente em distintos países e frequentemente associada a estratégias mais amplas de cooperação judicial e influência externa, a operação coincidiu com o período de maior retração dos mecanismos sul-americanos de integração física, financeira e produtiva. Grandes projetos de infraestrutura perderam dinamismo, empresas de engenharia e serviços capazes de competir internacionalmente foram enfraquecidas e instrumentos públicos de financiamento às exportações foram drasticamente reduzidos. Projetos transnacionais de infraestrutura e logística, bem como seus mecanismos de governança regional, perderam impulso justamente quando a presença chinesa se expandia e a competição geopolítica internacional se intensificava.O caso brasileiro é particularmente revelador. Embora muitas das figuras mais visíveis da operação tenham perdido protagonismo institucional e político, seus efeitos estruturais permanecem. A Lava Jato desapareceu como operação judicial, mas muitos de seus efeitos políticos e institucionais permanecem, especialmente na forma de um persistente imobilismo burocrático.

O Brasil ainda não reconstruiu plenamente mecanismos de apoio à exportação de bens e serviços de maior valor agregado nem recuperou sua capacidade de liderar projetos regionais de integração. Em diversos setores, exportações de engenharia, equipamentos e serviços intensivos em conhecimento — capazes de gerar empregos qualificados, inovação tecnológica e fortes encadeamentos produtivos — foram substituídas por uma pauta mais concentrada em produtos primários.

Vista sob essa perspectiva, a Lava Jato não afetou apenas indivíduos ou governos; enfraqueceu capacidades políticas, estatais, empresariais e regionais. Uma década depois, permanece uma questão que a América do Sul ainda não enfrentou adequadamente: ao desmontar parte das bases políticas e econômicas que sustentavam a integração regional, a operação ajudou a tornar a região mais transparente ou também a deixou menos integrada, menos autônoma e mais dependente de decisões tomadas fora dela?

3.A volta do fujimorismo representa uma solução ou a reafirmação das causas da crise?

A estratégia de Keiko Fujimori é relativamente clara: restaurar a ordem, a confiança dos investidores e o crescimento econômico. Seu programa reafirma os pilares do modelo construído nos anos 1990, assentado na estabilidade macroeconômica, no protagonismo do setor privado, na mineração como principal vetor exportador e na prioridade conferida à segurança pública.

Mas é precisamente aí que surge a principal dúvida. A crise contemporânea resulta do enfraquecimento de um modelo anteriormente bem-sucedido ou constitui uma consequência de seus próprios limites? Este texto sugere a segunda hipótese. O Peru reduziu a pobreza, diminuiu a desigualdade, acumulou reservas e aprofundou sua inserção internacional. O que não conseguiu foi converter esses avanços em integração social, territorial e política. Se essa interpretação estiver correta, o desafio do próximo governo não será restaurar um modelo interrompido, mas enfrentar contradições que o próprio modelo ajudou a produzir. Nesse sentido, Keiko parece menos disposta a alterar seus fundamentos do que a administrar alguns de seus efeitos mais visíveis.

4.O Peru pode aproximar-se dos Estados Unidos sem se afastar da China?

A rivalidade entre Washington e Pequim atravessa hoje os principais debates estratégicos do Peru. O fujimorismo tende a convergir mais com os Estados Unidos em temas de segurança, combate ao crime organizado e política econômica. Ao mesmo tempo, a China consolidou-se como principal parceiro comercial do país e tornou-se um ator central nos setores de mineração, logística e infraestrutura.

Entretanto, o dilema peruano não pode ser reduzido à escolha entre uma potência e outra. A questão mais profunda é a persistência de um padrão de inserção internacional baseado na exportação de recursos naturais. Mudaram os parceiros e o centro da economia mundial se reequilibrou, mas a estrutura econômica peruana permaneceu surpreendentemente estável.

O investimento externo recebido e o comércio peruano orbitavam anteriormente em torno dos Estados Unidos; hoje gravitam em torno da China. Em ambos os casos, a especialização exportadora continua sendo o eixo organizador da economia. A diferença é que a crescente rivalidade entre as grandes potências amplia as pressões externas justamente sobre os setores que sustentam o crescimento peruano.

5.O Peru é protagonista ou objeto da competição geopolítica global?

Nos últimos anos, mais de 60% das exportações peruanas tiveram origem na mineração, especialmente cobre e ouro. Esse dado conecta de forma impressionante Mariátegui, Cotler, o ciclo fujimorista e o porto de Chancay. Poucos indicadores revelam tanta continuidade estrutural. A diferença é que os recursos que sustentam essa inserção internacional adquiriram um novo significado estratégico. O cobre tornou-se um insumo fundamental para a eletrificação da economia mundial, enquanto outros minerais críticos ganham importância crescente para a transição energética, a digitalização e a disputa tecnológica entre as grandes potências.

Nesse contexto, o Peru deixou de ocupar uma posição periférica na economia mundial e passou a integrar um dos espaços mais estratégicos da competição contemporânea entre Estados Unidos e China no hemisfério Sul. O problema é que relevância geoeconômica não equivale necessariamente a capacidade de ação estratégica. Um país pode ocupar posição central nas cadeias globais de valor e, ainda assim, permanecer essencialmente especializado na exportação de matérias-primas. A questão decisiva é se o Peru conseguirá transformar sua centralidade mineral em capacidade de formular políticas industriais, tecnológicas e logísticas próprias.

Chancay simboliza essa encruzilhada. O porto amplia a importância geoeconômica do Peru e fortalece sua conexão com a Ásia, mas não resolve automaticamente os desafios da integração nacional, da diversificação produtiva ou da autonomia estratégica. O verdadeiro desafio peruano não é apenas exportar mais minerais ou reduzir custos logísticos. É utilizar essa posição privilegiada para construir novas capacidades econômicas e ampliar sua margem de decisão em um sistema internacional cada vez mais disputado. A questão é saber se isso pode ser alcançado por um país agindo isoladamente ou se exige formas mais amplas de coordenação econômica e política.

6.A desintegração sul-americana tornou o Peru mais forte ou mais vulnerável?

Uma das limitações das interpretações tradicionais do paradoxo peruano é concentrar-se exclusivamente na dimensão nacional. Mas o conceito de integração precisa ser ampliado. Não se trata apenas de integrar costa, serra e Amazônia. Trata-se também de integrar a América do Sul, conectando Atlântico, Caribe, Pan-Amazônia, Centro-Sul e Pacífico para estabelecer um espaço logístico de infraestrutura física e digital comum.

O Peru possui recursos estratégicos, mas não dispõe isoladamente de escala econômica, capacidade tecnológica, mercado interno ou instrumentos financeiros capazes de transformar sozinho essa vantagem mineral em liderança industrial. A industrialização associada aos minerais críticos, às cadeias de baterias, à eletrificação e à transição energética exige mercados maiores, infraestrutura integrada e capacidades produtivas que ultrapassam as fronteiras nacionais. Nesse contexto, a integração regional pode funcionar como um mecanismo de ampliação da autonomia estratégica, articulando mercados, energia, infraestrutura e capacidades produtivas em torno dos desafios da nova economia de baixo carbono.

Entretanto, a rivalidade entre Estados Unidos e China reorganiza os incentivos econômicos em favor de relações bilaterais entre cada país e as grandes potências. Infraestruturas voltadas para exportação, cadeias produtivas centradas em commodities e acordos negociados diretamente com investidores externos tornam-se mais importantes do que mecanismos de coordenação regional. A América do Sul corre, assim, o risco de aumentar sua relevância internacional ao mesmo tempo em que reduz sua capacidade de agir como região. O Peru contemporâneo talvez seja um dos exemplos mais evidentes dessa contradição.

Sob essa perspectiva, a integração regional deixa de ser apenas um ideal político para se tornar uma necessidade geoeconômica. Ao fortalecer seus vínculos sul-americanos, o Peru pode ampliar sua capacidade de transformação produtiva, reduzir vulnerabilidades externas e converter vias de exportação em redes de desenvolvimento. Em vez de representar uma alternativa a Washington ou Pequim, a integração regional pode constituir uma terceira dimensão de sua inserção internacional.

7.O maior desafio do Peru atual é aprofundar sua inserção global ou integrar-se a si mesmo?

Os resultados eleitorais ajudam a compreender a profundidade do problema peruano. Nas últimas seis eleições presidenciais decididas em segundo turno, as margens nacionais tornaram-se progressivamente mais estreitas. Se em 2001 e 2006 os vencedores obtiveram vantagens próximas de 6%, os pleitos de 2016, 2021 e 2026 foram decididos por diferenças inferiores a um ponto percentual. O país parece ter encontrado uma divisão eleitoral permanente, na qual nenhum projeto político consegue construir uma maioria nacional duradoura. Mais importante, porém, do que o estreitamento das margens nacionais é o aprofundamento da polarização territorial.

Lima, Callao e boa parte da diáspora peruana tornaram-se os principais bastiões eleitorais das candidaturas associadas à continuidade do modelo econômico. Em 2021, Keiko Fujimori obteve 65% dos votos em Lima Metropolitana e em 2026 voltou a superar 63% na capital. Em contraste, regiões do sul andino, marcadas por forte presença indígena e por um histórico de exclusão territorial, apresentaram comportamento quase oposto. Em Puno, Pedro Castillo em 2021 e Roberto Sánchez em 2026 obtiveram mais de 85% dos votos. Mais impressionante ainda é a continuidade desse padrão: em 2011, Ollanta Humala já havia conquistado quase 80% dos votos na mesma região.

Essa geografia eleitoral sugere que a principal clivagem do Peru contemporâneo talvez seja menos ideológica do que territorial. Mudam os candidatos, mudam os partidos e mudam as conjunturas, mas o padrão de voto permanece surpreendentemente estável. Os setores mais integrados aos fluxos globais de comércio, serviços e finanças tendem a apoiar a continuidade do modelo econômico; já muitas das regiões responsáveis pela geração da riqueza mineral do país continuam buscando alternativas ao padrão de desenvolvimento dominante. O Peru parece dividido entre diferentes formas de inserção no desenvolvimento nacional. Talvez essa seja a expressão política mais visível do paradoxo peruano: o país integrou-se crescentemente à economia mundial sem conseguir integrar plenamente seus próprios territórios.

Também por isso, a discussão sobre infraestrutura não pode limitar-se à ligação entre minas e portos. O desafio é construir infraestruturas voltadas para dentro: corredores produtivos, integração energética, governança regional, harmonização regulatória e articulação econômica entre vizinhos. Para o Brasil, isso significa olhar menos para Chancay isoladamente e mais para reconstruir a governança regional em infraestrutura e planejamento, estabelecer uma rede interoceânica com vários corredores complementares e reforçar a cabotagem nas costas atlântica, pacífica e caribenha. A prioridade brasileira imediata para as relações com o Peru é o desenvolvimento fronteiriço amazônico, especialmente no Acre, que nos conecta ao Sul do Peru. Se o grande êxito peruano das últimas décadas foi se integrar aos mercados globais, o desafio do Peru nos próximos anos será integrar-se a si mesmo e à América do Sul.

Pedro Silva Barros – Economista, membro do conselho curador da Fundação Perseu Abramo, foi diretor de assuntos econômicos da União de Nações Sul-Americanas – Unasul (2015-2018).