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Crise em Ceuta expõe divisões na UE, Ursula von der Leyen defende barreiras físicas

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu nesta segunda-feira, 3, o reforço das fronteiras do bloco após a entrada e a rápida saída de dezenas de milhares de pessoas do território espanhol de Ceuta. Em carta ao primeiro-ministro Pedro Sánchez, escreveu que “devemos fazer mais para fortalecer ainda mais nossas fronteiras em pontos críticos, incluindo monitoramento vigilante e o uso de barreiras físicas onde necessário”. Ela elogiou a condução da crise pelo líder socialista — “a ordem foi restaurada e o sistema de retornos em vigor funcionou” —, após a Espanha começar a instalar uma barreira flutuante de 500 metros na fronteira com o Marrocos. Madri estima que cerca de 69.500 migrantes retornaram ao país vizinho em quatro dias, acima das estimativas iniciais de 50 mil chegadas na quinta-feira. As autoridades de Ceuta registraram 88 mortes na tentativa de alcançar o território, além de pelo menos 11 no Marrocos. Ceuta e Melilla são as únicas fronteiras terrestres da UE com a África e, por estarem fora do espaço Schengen, não permitem livre circulação para o restante do bloco.

Os ministros do Interior se reúnem em caráter emergencial nesta terça-feira, 4, e a presidente da CE aponta cinco frentes: cooperação com países de fora da UE, fronteiras externas mais fortes, sistemas de alerta antecipado, desmonte de redes de contrabando e ampliação dos retornos. A imprensa italiana informou que o governo de Giorgia Meloni quer acelerar a abertura de centros de migração fora do território europeu — modelo autorizado pelo bloco em junho e que, segundo o principal especialista em direitos humanos da Europa, corre o risco de se tornar “buracos negros de direitos humanos”.

O episódio deixou Sánchez isolado. Itália e Dinamarca lideraram pedidos de exclusão temporária da Espanha do Schengen e articularam uma carta assinada por outros 20 Estados-membros que responsabiliza pela crise a regularização de 500 mil migrantes sem documentos — 1,2 milhão de pessoas chegaram a solicitar o benefício no programa de 2026. Os 22 líderes defenderam combater “todas as políticas que possam servir como fatores de atração”. Sánchez rebateu que tal postura é movida por “preconceito, fake news, ignorância ou interesse político” e contraria o direito europeu e humanitário. Pesquisas acadêmicas não encontraram evidências de efeito de atração desses programas. A Espanha pode acessar fundos europeus e o apoio da Frontex, ajuda que ainda não solicitou.

Suspeitas de coordenação e atrito com Israel

Não está claro o que levou tanta gente a tentar a travessia no mesmo dia. As autoridades de Ceuta associaram o surto a uma decisão do Supremo Tribunal espanhol publicada em julho, que proibiu a devolução imediata de migrantes que chegam por mar — regra que não vale para quem entra por terra. Especialistas questionam a explicação: para o jornalista Ignacio Cembrero, “sem dúvida a decisão de 8 de julho teve um papel… mas isso não explica o nível de mobilização”. Sánchez culpou máfias de tráfico humano, que teriam exagerado o alcance da decisão para organizar a investida em massa. Outra suspeita recai sobre o Marrocos, que não reconhece a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla e já afrouxou controles em 2021, deixando cerca de 10 mil migrantes entrarem no enclave em retaliação ao tratamento do líder da Frente Polisário, Brahim Ghali, em hospital espanhol; as relações voltaram a se deteriorar no mês passado, após a visita oficial de Sánchez à Argélia. O episódio ainda esfriou os laços com Israel: o embaixador israelense na ONU, Danny Danon, escreveu no X que a Espanha, “que nunca perde a oportunidade de dar lições a Israel”, deveria “explicar ao mundo por que ainda mantém enclaves coloniais na África”. “Bem, está tudo começando a ficar bem claro”, reagiu o ministro dos Transportes espanhol, Óscar Puente, insinuando envolvimento israelense. Não há provas de que o Marrocos tenha agido em nome de Israel — apenas coincidências, entre elas os artigos de analistas pró-Israel que, em março e abril, defenderam que Rabat pressionasse por Ceuta e Melilla, e o fato de o país ter batizado uma rodovia de 1.055 km no Saara Ocidental com o nome de Donald Trump.

Em meio à suspeita de que o Marrocos ajudou a alimentar a crise, von der Leyen chamou o país de “importante parceiro estratégico” no combate à “migração ilegal” e prometeu ampliar o apoio técnico e financeiro a Rabat, cuja relação com o bloco a Comissão já buscava elevar a uma “parceria estratégica e abrangente”. Para Michele LeVoy, diretora da Picum, “jogos políticos estão sendo feitos com a vida de pessoas nos dois lados da fronteira”, e o ocorrido é “fundamentalmente resultado da inação da Europa em relação a permissões de trabalho decentes e outras vias regulares, e do desmonte de seus sistemas de asilo”.

(com informações do The Guardian e Al Jazeera)