
Boletim Outras Palavras
Receba por email, diariamente, todas as publicações do site
Agradecemos!
Você já está inscrito e começará a receber os boletins em breve. Boa leitura!
Na economia brasileira, a taxa Selic decidiu escalar uma montanha.
Não foi impulso aventureiro. Foi decisão técnica, cuidadosamente planejada, aprovada em reuniões formais e acompanhada por relatórios meticulosos. Cada passo da subida era apresentado como necessário. Cada metro conquistado prometia um horizonte mais seguro.
No início, a trilha parecia razoável. A inflação, disseram, exigia esforço. A economia brasileira, acostumada a terrenos irregulares, aceitou acompanhar a expedição.

A Selic avançou.
Primeiro devagar, depois com mais confiança. A cada parada surgia um novo acampamento-base. Os comunicados explicavam a estratégia. O objetivo permanecia o mesmo: alcançar o ponto exato em que a inflação perderia o fôlego.
Vista da trilha, a paisagem parecia controlável.
Mas subir tem consequências.
Quanto mais a Selic avançava, mais rarefeito ficava o ar. O investimento começou a respirar com dificuldade. Projetos foram sendo deixados pelo caminho, como equipamentos descartados mesmo por alpinistas experientes quando a subida se torna íngreme demais. Empresas olharam para o céu da montanha e decidiram esperar o clima se acalmar.
Lá embaixo, a economia brasileira também começou a perder o ritmo.
O consumo ainda caminhava, sustentado por alguma energia residual. Mas a indústria subia devagar. O crédito encurtava o passo. E o investimento, esse parecia cada vez menos disposto a continuar a escalada.

A Selic, porém, seguiu.
Quando finalmente alcançou o cume, instalou-se no topo com a serenidade de quem cumpriu o plano. Dali de cima, a vista era ampla. As curvas da inflação pareciam mais suaves. As projeções indicavam estabilidade.
O problema era o ar.
No topo da montanha, o ar é rarefeito. O corpo humano precisa de tempo para se adaptar. Nem todos conseguem.
A economia brasileira, olhando para cima, tentava acompanhar a expedição. Mas faltava fôlego. O investimento parava para respirar. O crédito diminuía o passo. A indústria permanecia mais abaixo, onde ainda havia oxigênio suficiente para continuar trabalhando.
Talvez seja essa a peculiaridade das grandes escaladas da política monetária: quem chega ao topo costuma acreditar que o problema foi resolvido.
Lá de cima, a inflação parece menor.
O investimento, porém, parece cada vez mais distante.
No cume, tudo parece sob controle.
Mas quando o ar fica rarefeito demais, a economia deixa de subir.
Passa apenas a tentar continuar respirando.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.
The post Crônica de uma Selic no cume da montanha appeared first on Outras Palavras.