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Crônica de uma Selic no cume da montanha

Foto: Christian de Jong, em seu site

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Na economia brasileira, a taxa Selic decidiu escalar uma montanha.

Não foi impulso aventureiro. Foi decisão técnica, cuidadosamente planejada, aprovada em reuniões formais e acompanhada por relatórios meticulosos. Cada passo da subida era apresentado como necessário. Cada metro conquistado prometia um horizonte mais seguro.

No início, a trilha parecia razoável. A inflação, disseram, exigia esforço. A economia brasileira, acostumada a terrenos irregulares, aceitou acompanhar a expedição.

A Selic avançou.

Primeiro devagar, depois com mais confiança. A cada parada surgia um novo acampamento-base. Os comunicados explicavam a estratégia. O objetivo permanecia o mesmo: alcançar o ponto exato em que a inflação perderia o fôlego.

Vista da trilha, a paisagem parecia controlável.

Mas subir tem consequências.

Quanto mais a Selic avançava, mais rarefeito ficava o ar. O investimento começou a respirar com dificuldade. Projetos foram sendo deixados pelo caminho, como equipamentos descartados mesmo por alpinistas experientes quando a subida se torna íngreme demais. Empresas olharam para o céu da montanha e decidiram esperar o clima se acalmar.

Lá embaixo, a economia brasileira também começou a perder o ritmo.

O consumo ainda caminhava, sustentado por alguma energia residual. Mas a indústria subia devagar. O crédito encurtava o passo. E o investimento, esse parecia cada vez menos disposto a continuar a escalada.

A Selic, porém, seguiu.

Quando finalmente alcançou o cume, instalou-se no topo com a serenidade de quem cumpriu o plano. Dali de cima, a vista era ampla. As curvas da inflação pareciam mais suaves. As projeções indicavam estabilidade.

O problema era o ar.

No topo da montanha, o ar é rarefeito. O corpo humano precisa de tempo para se adaptar. Nem todos conseguem.

A economia brasileira, olhando para cima, tentava acompanhar a expedição. Mas faltava fôlego. O investimento parava para respirar. O crédito diminuía o passo. A indústria permanecia mais abaixo, onde ainda havia oxigênio suficiente para continuar trabalhando.

Talvez seja essa a peculiaridade das grandes escaladas da política monetária: quem chega ao topo costuma acreditar que o problema foi resolvido.

Lá de cima, a inflação parece menor.

O investimento, porém, parece cada vez mais distante.

No cume, tudo parece sob controle.

Mas quando o ar fica rarefeito demais, a economia deixa de subir.

Passa apenas a tentar continuar respirando.

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