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Crônica sobre parecer vivo na era digital

Crônica sobre parecer vivo na era digital
Imagem: Emiliano Ponzi

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Você também já sentiu uma impotência alarmante, sobretudo tratando-se de um ato tão corriqueiro quanto pensar? Não tenho mais tempo hábil para me dedicar à verdadeira reflexão e compreensão de mim mesma. No máximo: me abro superficialmente com minha psicóloga — algo que ocorre raramente; ou penso em algo genérico ouvindo uma música. A cada instante que me deparo com uma pausa entre afazeres, estou submersa no telefone. Em que ponto paramos de usar nossos telefones como válvula de escape e ficamos completamente submersos nesta segunda realidade, em que construímos nosso mundo e nossa vida por completo?

Laços são formados e vidas são quebradas, tudo isso por meio de uma tela. Alienamo-nos de tal forma que, mesmo indiretamente, a realidade tornou-se uma parte secundária de nossas vidas. Não me recordo da última vez que senti tédio ou até mesmo da última vez que saí com meus amigos e família sem tocar uma única vez no telefone. Relações interpessoais foram diretamente afetadas pela necessidade de aceitação e status, entravando a profundidade e intimidade. Vínculos se tornam mais efêmeros e a conexão menos intensa, o verdadeiro abre margem para o superficial e a felicidade genuína é trocada pela dor da aparência.

É perceptível que vivemos o que internautas das redes sociais popularizaram como a “era da putaria”, em que o próximo é visto como objeto sexual, visando ao prazer momentâneo e desumanizando-o.

A pornografia, por exemplo, evidencia de forma clara a mercantilização dos corpos, permitindo que usuários de diferentes faixas etárias acessem conteúdos que podem contribuir para a objetificação do outro e para expectativas irreais acerca da sexualidade, podendo contribuir para relações românticas destes que consomem cada vez mais fúteis e menos íntimas. Zygmunt Bauman, ao desenvolver o conceito de modernidade líquida e suas reflexões acerca do amor líquido, salientou a fragilidade e a efemeridade que atravessam relações humanas, em que abrimos mão do sólido por vínculos facilmente substituíveis. A intimidade não mais é tratada como um ato de extrema profundidade, mas sim como satisfação imediata que nos traz o vislumbre do preenchimento.

A mesma lógica das relações substituíveis implica no âmbito individual, transformando a utilidade do ser em um parâmetro de valor.

Byung-Chul Han, em sua obra A Sociedade do Cansaço, ilustrou-nos com clareza o peso da nossa sociedade em relação à falta de tédio, à cobrança excessiva e à imbecilização do pensamento que vem ocorrendo de maneira alarmante. Neste livro, salienta-se a má visão que temos acerca do sentimento de tristeza e retrata-a como uma emoção que nos limita, entravando-nos a dar o máximo em prol do desempenho e da produção. Por isso, reprimimos a emoção e, quando ela de fato bate à porta, nos refugiamos em prazeres momentâneos ao invés de digerir esta dor. Nós não mais vivemos por nós, mas sim em prol de uma tela, na realidade nós sobrevivemos à nossa dura existência com defeitos e dores que nos assustam.

Na contemporaneidade e com o avanço da tecnologia, formou-se uma imagem ilusória tanto em redes quanto no nosso próprio imaginário de vida perfeita, a qual tomou espaço numa sociedade em que a necessidade enraizada de darmos o nosso máximo cresce.

Você também já se sentiu preso, em algum momento de sua vida, dentro deste ciclo vicioso regido pela tentativa de um relacionamento, pela dificuldade em se apegar, pela frustração e pelo esconderijo da solidão no telefone. Procuramos refúgio em algo que nos faça escapar da realidade, e o que encontramos de forma mais democratizada e em larga escala são as redes sociais, que nos prendem como ratos em estímulos rápidos que cada vez mais nos acostumam à efemeridade. A performance no amor se intensifica uma vez que não podemos aparentar ser os únicos tristes, melancólicos e solitários em uma contemporaneidade em eterno êxtase. O verdadeiro, o real, é visto como monótono e se entregar por completo seria como demonstrar uma vulnerabilidade, trata-se de uma tristeza vista como uma fraqueza, como retratado na obra de Byung-Chul Han. O problema não reside apenas no instrumento, mas na transformação da própria existência em uma apresentação contínua.

O telefone afetou diretamente a construção do verdadeiro vínculo: em vez de nos abrirmos, fortalecermos nossos laços e termos conversas profundas com pessoas que nos entendem e podem nos auxiliar, preferimos rolar infinitamente conteúdos que prendem nossa atenção, que liberam picos de dopamina por intermédio de estímulos rápidos, nos fazendo sentir momentaneamente felizes; ou pior, desabafamos e transferimos nossas angústias para uma inteligência artificial, substituindo o real acolhimento humano.

Mesmo refletindo sobre isto, não vejo como resolver este problema, já que cada vez mais somos puxados por um ímã do capitalismo e da lógica dos bens materiais. Tratar deste assunto tão amiúde na contemporaneidade em uma esfera individual faz-se ingênuo, até porque este vício na dopamina barata beneficia um sistema deveras maior, que nos ocupa a mente e nos faz ser quem somos.

Como representado em Clube da Luta, os bens materiais regem, mesmo que subjetivamente, quem somos, o quanto valemos socialmente, nossa identidade e com quem devemos nos relacionar.

O status de determinado indivíduo passa a ser associado como corolário ao lugar onde mora, seu telefone, como se veste, e à aparência que carrega, não de acordo com o seu caráter e princípios. A personalidade foi deixada em segundo plano; o que de fato consideramos importante é o valor atribuído aos bens que possui, sua capacidade de compra e seu acúmulo de capital.

Mais do que um problema restrito aos celulares, o que vivenciamos é uma fome crescente por aceitação e consumo — o foco não é mais viver, mas parecer vivo para o próximo. Nutrimos uma sede insaciável por mais, sempre à espera da próxima notificação ou do próximo vídeo fugaz no feed.

Em simbiose com nossa relação aos dispositivos digitais e às necessidades humanas como alimentação e hidratação, os bens materiais também alimentam essa compulsão: precisamos consumir cada vez mais para pertencer, invertendo a lógica da nossa própria biologia e deixando de lado as necessidades básicas que de fato nos mantêm vivos.

Mas então o que deveríamos fazer, abdicar completamente dos prazeres da internet e viver tal qual Diógenes? Isso não é uma resposta fácil e imediata. No mundo das ideias de Platão, teríamos autocontrole sobre as mídias, saberíamos o que e quando consumir determinado conteúdo, mas infelizmente, neste quesito, nos encontramos no mundo sensível. A solução não se restringe ao abandono total dos eletrônicos, mas atenuar a intensidade de seu uso. Enquanto não curarmos feridas profundas e encararmos a realidade, continuaremos sempre neste cenário melancólico marcada por prazeres imediatos e ilusórios, nos afogando justamente naquilo que vai nos destruir. É necessário pensar, refletir, e não buscar respostas simples e rápidas a tudo que ocorre em nossas vidas; existem coisas de fato complexas e que inteligências artificiais não podem curar.

O tempo de tela deixou de representar apenas um período perdido diante das telas, tornou-se também um espaço de construção da própria aparência, em que buscamos fazer com que os outros almejem uma vida que, por vezes, já não conseguimos experimentar por nós mesmos. Por isso, devemos procurar, cada vez mais, sair deste limbo da modernidade líquida e da falta de reflexão, abdicando do uso constante de celulares que, infalivelmente, estariam em nossas mãos a qualquer momento de relaxamento, evocando o quão necessário é vivenciar o mundo real. Antigamente usávamos o telefone para nos refugiar da realidade, hoje nos refugiamos do telefone na realidade.

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