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O texto a seguir integra o número 17 (maio de 2026) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição, na íntegra, pode ser baixada aqui
Entre o Caribe e o Pacífico, Cuba e Taiwan voltam ao centro das tensões globais. Apesar de trajetórias
históricas distintas, ambas compartilham uma condição estrutural: são territórios onde grandes potências projetam seu poder e onde as fragilidades do sistema internacional se tornam visíveis.
Cuba carrega o legado da Guerra Fria. Sua proximidade com os Estados Unidos mantém a ilha como espaço sensível da geopolítica americana. Hoje, essa posição se reorganiza: Cuba funciona como ponto de apoio indireto para Rússia e China no hemisfério ocidental, por meio de cooperação energética, financeira e tecnológica. Trata-se de uma reedição da disputa por zonas de influência, agora em novas bases.
Taiwan, ao contrário, expressa o futuro das disputas globais. Localizada no centro da Ásia-Pacífico, a ilha é um posto avançado dos Estados Unidos e aliados em uma região-chave para a economia mundial. Ali se concentram as novas tensões: competição tecnológica, reorganização das cadeias produtivas e interdependência entre energia e digitalização. A instabilidade no Oriente Médio, especialmente no Estreito de Ormuz, evidencia essa vulnerabilidade ao afetar diretamente o abastecimento energético
que sustenta a indústria taiwanesa.
Há, portanto, uma simetria invertida: Cuba é uma projeção euroasiática nas Américas; Taiwan, uma projeção atlântica na Ásia. Ambas funcionam como plataformas geopolíticas atravessadas por
interesses externos.
O elemento comum mais profundo, porém, é a energia. Em Cuba, a dependência de petróleo importado, sujeita a sanções e alianças políticas, revela um padrão energético típico do século XX. Em Taiwan, a dependência quase total de importações expõe a fragilidade de uma economia avançada ainda baseada em combustíveis fósseis. Em ambos os casos, energia não é apenas um insumo — é um fator estratégico que condiciona soberania e autonomia.
Cuba lembra que a geopolítica da energia sempre foi central. Taiwan mostra que essa centralidade persiste, agora combinada com tecnologia e digitalização. Vejamos.
Cuba e a dependência de petróleo com características do século XX
A crise energética cubana expressa uma longa dependência de petróleo importado, agravada por mudanças geopolíticas recentes.
A matriz energética do país continua fortemente baseada em combustíveis fósseis. Mais de 80% da energia consumida depende de derivados de petróleo. A produção interna cobre apenas cerca de 40% da demanda, exigindo importações constantes. Na geração elétrica, a dependência é ainda maior, com participação predominante de fontes fósseis e presença ainda limitada de energias renováveis, majoritariamente biomassa do bagaço de cana.
Esse modelo se sustenta em uma infraestrutura envelhecida. Usinas termelétricas antigas, muitas da era soviética, operam com baixa eficiência e falhas frequentes. A rede elétrica apresenta perdas elevadas e sofre com décadas de subinvestimento. O resultado são apagões recorrentes, que funcionam como forma de administrar a escassez. A origem desse quadro está diretamente ligada ao embargo
dos Estados Unidos.
Diante disso, Cuba passou a depender de fornecedores externos. A Venezuela foi historicamente o principal parceiro, seguida por México e Rússia. Em alguns momentos, esses países responderam por mais de 60% do abastecimento da ilha. Trata-se de uma dependência concentrada e politicamente mediada.
Esse arranjo começou a se desorganizar recentemente. A partir de 2024, a redução da capacidade venezuelana, somada a pressões sobre o México e à política externa americana, provocou queda
significativa nas importações — cerca de 35% em 2025. Ao mesmo tempo, dificuldades financeiras limitaram a capacidade de pagamento do país.
O ponto decisivo, porém, foi geopolítico. O endurecimento das sanções e a interrupção de fluxos petrolíferos configuraram um bloqueio energético mais amplo. Paralelamente, tensões no Golfo
Pérsico e conflitos envolvendo o Irã restringiram alternativas de fornecimento.
O resultado é a vulnerabilidade sistêmica. O abastecimento tornou-se incerto e irregular. A chegada ocasional de petróleo russo, suficiente para poucos dias, ilustra um sistema que opera no limite.
Taiwan e a dependência de petróleo com características do século XXI
A vulnerabilidade energética de Taiwan, por sua vez, decorre de sua própria estrutura econômica. Trata-se de uma economia altamente industrializada que importa cerca de 98% da energia que consome, principalmente petróleo, carvão e gás natural.
Sua matriz elétrica depende fortemente de usinas térmicas, com crescente participação do gás natural. Isso significa que Taiwan não controla a produção de sua energia, apenas o ponto final de uma
longa cadeia logística global.
Essa cadeia começa, em grande parte, no Golfo Pérsico, atravessa o Estreito de Ormuz, o Oceano Índico e o Estreito de Malaca até chegar ao Mar do Sul da China. Esses pontos são gargalos estratégicos, especialmente Ormuz e Malaca, cuja interrupção afetaria o sistema global.
A recente escalada de tensões envolvendo Estados Unidos e Irã trouxe essa vulnerabilidade à tona. Um bloqueio em Ormuz compromete diretamente o abastecimento taiwanês.
Essa dependência energética está diretamente ligada à estrutura produtiva global. Taiwan é o principal produtor mundial de semicondutores avançados. Empresas como a TSMC fabricam chips essenciais para setores como inteligência artificial, telecomunicações, automóveis e defesa.
A produção desses chips depende de processos industriais altamente intensivos em energia. A energia que chega em Taiwan sustenta diretamente a economia digital global.
Uma interrupção no fornecimento não afetaria apenas Taiwan, mas desencadearia efeitos em cadeia: paralisação industrial, aumento de custos e desorganização de mercados. Forma-se, assim,
uma nova infraestrutura crítica, que conecta energia, tecnologia e logística global.
Nesse contexto, a atuação dos Estados Unidos no Oriente Médio ganha dimensão estratégica mais ampla. Ao influenciar a estabilidade do Golfo, Washington afeta diretamente o funcionamento do corredor energético que abastece Taiwan, e, com isso a indústria global de semicondutores e inteligência artificial.
Recentemente, a China propôs à ilha um acordo: segurança energética em troca de reunificação pacífica. A oferta inclui integração a um sistema energético continental menos vulnerável a
rotas marítimas. Essa proposta redefine o conflito. A disputa deixa de ser apenas territorial e passa a envolver o controle dos fluxos energéticos que sustentam a economia digital.
Taiwan emerge, assim, como ponto de convergência entre dependência energética, centralidade tecnológica e vulnerabilidade geopolítica.
Projeção de poder energético sobre as ilhas: EUA e China
Cuba e Taiwan funcionam como espelhos invertidos e revelam dois modelos distintos de projeção de poder: o padrão americano e o padrão chinês.
Em Cuba, os Estados Unidos adotam uma estratégia de contenção. O embargo e as sanções buscam limitar a integração da ilha ao sistema internacional, restringindo fluxos energéticos, financeiros e comerciais. Trata-se de um modelo negativo: não incorpora, mas impede. A energia é utilizada como instrumento de pressão.
Em Taiwan, a China propõe uma abordagem distinta. Ao oferecer segurança energética em troca de reunificação, Pequim busca integrar a ilha a um sistema continental mais estável. Trata-se de um modelo positivo: a energia funciona como mecanismo de atração, ainda que condicionado politicamente.
Apesar das diferenças, há um elemento comum: o controle da energia é central para o exercício do poder. Em ambos os casos, a dependência energética define limites de soberania e autonomia.
A diferença está na forma de uso dessa dependência. O modelo americano opera pela escassez e pela pressão. O modelo chinês, pela promessa de estabilidade e integração. Mas ambos estão à espreita
para que a insegurança energética das ilhas se converta em incorporação territorial.
Cuba e Taiwan, portanto, não são apenas casos isolados. Elas expressam uma transformação mais ampla do poder global, marcada pela crescente interdependência entre energia, tecnologia e geopolítica.
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