
A República de Cuba vive um momento de resistência crítica diante do recrudescimento do bloqueio econômico imposto por Washington. Em meio a um severo desabastecimento de combustíveis que atinge o cotidiano da ilha, o governo de Havana monitora a escalada retórica e militar dos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump.
A análise de que o risco de uma intervenção direta é uma constante histórica foi reafirmada pelo ex-embaixador cubano nos EUA e professor de relações internacionais José R. Cabañas Rodríguez à Agência Brasil. “Os que precisam analisar a iminência, ou não, da invasão fazem o seu trabalho, se estuda constantemente o movimento das forças militares, sabemos que a guerra hoje pode ser liberada à distância”, disse Cabañas Rodríguez que também é o diretor do Centro de Investigações de Política Internacional (Cipi), em Havana.
O impacto humano do bloqueio energético
O cerco naval e financeiro atingiu um patamar inédito, resultando em três meses sem a chegada de navios-tanque aos portos cubanos. Em coletiva de imprensa, o presidente Miguel Díaz-Canel detalhou as consequências drásticas da paralisação energética, que impõe bleautes de até 30 horas em diversas localidades.
O impacto transcende o setor produtivo e atinge diretamente a Saúde Pública com milhares de cirurgias adiadas, incluindo procedimentos pediátricos urgentes; Serviços Básicos como o transporte público e o abastecimento de água que enfrentam interrupções severas e a Segurança Alimentar, deixando a população à mercê de condições adversas para a preservação de alimentos.
Díaz-Canel enfatizou que o país opera sob condições excepcionais, classificando os danos à qualidade de vida dos cubanos como “imensuráveis”.
Doutrina de pressão e alinhamentos globais
A atual estratégia de Washington fundamenta-se em uma Ordem Executiva que classifica Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança estadunidense. O argumento central da Casa Branca repousa sobre as relações diplomáticas e comerciais de Havana com nações como Rússia, China e Irã. Na prática, a medida estabelece sanções e tarifas contra terceiros países que forneçam petróleo à ilha, além de projetar um bloqueio naval focado na rota Venezuela-Cuba a partir do final de 2025. Cabañas Rodríguez associa a agressividade da Casa Branca aos períodos de maior dificuldade econômica do arquipélago.
Para o diplomata, as ações configuram uma tentativa deliberada de forçar uma “mudança de regime”, utilizando o estrangulamento econômico como arma política — uma política que já perdura por 66 anos. O embaixador Cabañas recordou que a preparação para uma eventual agressão militar é parte da doutrina de defesa cubana desde a vitória da Revolução em 1959. Citando o precedente histórico da Invasão da Baía dos Porcos (Batalha da Praia Girón), em 1961, o diplomata reiterou que a unidade popular permanece como o principal pilar de dissuasão contra tentativas de violação da integridade territorial.
Havana mantém a disposição para o entendimento
Apesar da tensão, Havana mantém a disposição para o entendimento civilizado. O presidente Díaz-Canel confirmou a existência de tratativas em estágio inicial com representantes de Washington. As conversações, facilitadas por mediadores internacionais, buscam soluções para as divergências bilaterais sob princípios de igualdade soberana; respeito mútuo aos sistemas políticos e a autodeterminação dos povos.
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