A partir de quarta-feira, 22 de julho, os Estados Unidos passarão a cobrar uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. A medida reduz a competitividade das empresas nacionais no mercado norte-americano e expõe empregos e cadeias produtivas no Brasil. A conta, no entanto, não termina deste lado da fronteira. Importadores, fabricantes e consumidores estadunidenses também pagarão mais por produtos e insumos que, em muitos casos, não encontram substitutos no próprio país.
Durante décadas, expressões como “Custo Brasil” e “Risco Brasil” foram usadas pelo mercado para resumir os entraves internos à produção e ao investimento. O tarifaço de Donald Trump permite inverter essa lógica. O “Custo EUA” é o preço de concentrar negócios em um mercado cujo governo altera as condições de acesso e transforma tarifas em instrumento de pressão sobre políticas soberanas de outros países.
O governo brasileiro estima que a sobretaxa alcance 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos, cerca de US$ 7,4 bilhões com base nos embarques de 2024. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) trabalha com uma projeção mais ampla: 26,2% das vendas, mais de 4 mil produtos e aproximadamente US$ 11 bilhões. As estimativas partem de critérios diferentes, mas apontam para o mesmo problema: o impacto se concentra sobre segmentos industriais e produtos de maior valor agregado.
Há outro dado que ajuda a dimensionar o Custo EUA. Segundo a CNI, 60,3% das exportações atingidas correspondem a bens intermediários utilizados pela própria indústria norte-americana. O Brasil é o principal fornecedor dos Estados Unidos em dez dos 13 produtos mais relevantes submetidos à nova tarifa. Na prática, parte do aumento será incorporada aos custos de produção de empresas estadunidenses.
O próprio Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) reconheceu esse risco ao justificar as exceções. Produtos capazes de provocar desabastecimento, encarecer cadeias inteiras ou causar perturbações econômicas foram retirados da lista. Ficaram de fora da nova tarifa itens como carne bovina, suco de laranja, aeronaves civis e seus componentes, produtos energéticos, ferro-gusa, hidróxido de alumínio, mel orgânico e determinados tipos de café, pescados, couro e madeira.
Indústria concentra os principais impactos
As exceções reduziram o alcance da medida, mas deixaram expostos setores com forte presença no mercado norte-americano. De acordo com a CNI, 83,1% das exportações brasileiras de produtos de madeira para os Estados Unidos serão atingidas. Nos minerais não metálicos, a parcela chega a 56,3%. O percentual é de 51,8% na indústria química e de 38,1% no setor de alimentos.
Também permanecem na lista calçados, artigos têxteis, máquinas, equipamentos elétricos, produtos petroquímicos e peças utilizadas por fabricantes norte-americanos. Durante o processo de consulta pública, empresas dos Estados Unidos alertaram o USTR de que a medida poderia elevar preços de moradias, equipamentos para infraestrutura de inteligência artificial, produtos de consumo e insumos industriais. Importadores de calçados afirmaram que a sobretaxa poderia atingir especialmente os pequenos varejistas.
Os efeitos das tarifas adotadas desde 2025 já aparecem no comércio bilateral. No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13%, uma perda de US$ 2,6 bilhões em relação ao mesmo período de 2025. As vendas de produtos industriais recuaram 8,7%. Em 20 das 27 unidades da Federação, houve redução dos embarques para o mercado norte-americano.
O impacto exige atenção, mas não autoriza um diagnóstico de paralisia. As exportações brasileiras são distribuídas por diferentes mercados, e uma parcela expressiva dos produtos vendidos aos Estados Unidos permanece fora da nova sobretaxa. A negociação conduzida pelo governo e pelo setor produtivo também ampliou a lista de exceções antes da decisão final.
Governo reforça apoio e busca novos mercados
O governo federal prepara uma nova etapa do Plano Brasil Soberano, criado para apoiar exportadores e fornecedores atingidos pelas barreiras comerciais e pela instabilidade internacional. O programa oferece crédito do BNDES para capital de giro, produção destinada à exportação, compra de bens de capital e investimentos.
Na primeira fase, lançada em 2025, o apoio do BNDES chegou a R$ 19,6 bilhões, com R$ 10,8 bilhões em recursos liberados. A versão retomada em 2026 ampliou o alcance para empresas industriais afetadas por tarifas e outros choques externos. O governo anunciou que os setores atingidos pela nova medida terão atendimento prioritário enquanto são definidos os próximos instrumentos de apoio.
A resposta também passa pela redução da dependência de um único destino. A ApexBrasil anunciou R$ 130 milhões para ações de promoção comercial e inteligência de mercado em parceria com 57 entidades do setor produtivo. Entre junho de 2025 e maio de 2026, 72% das aproximadamente 2.400 empresas apoiadas pela agência que exportavam para os Estados Unidos passaram a vender para pelo menos mais um país.
O movimento inclui a busca de oportunidades na América Latina, na Ásia e na União Europeia. O acordo entre Mercosul e União Europeia e os estudos sobre o potencial exportador dos estados brasileiros entram nessa estratégia. Diversificar não significa abandonar o mercado norte-americano, mas reduzir a vulnerabilidade diante de mudanças unilaterais.
A CNI propôs ainda a criação de uma sétima missão na política Nova Indústria Brasil, voltada temporariamente aos segmentos afetados. A iniciativa seria construída com o governo, federações estaduais e associações setoriais. “Precisamos dar uma resposta construtiva aos setores industriais prejudicados e aproveitar que o governo está empenhado em construir soluções para as empresas impactadas. Neste momento, o mais importante é que nem o ano eleitoral, nem questões políticas interfiram em um debate que exige responsabilidade, equilíbrio e visão de longo prazo”, afirmou o presidente da entidade, Ricardo Alban.
Etanol ganha proteção no mercado interno
O etanol é um dos produtos mantidos sob a nova tarifa. O setor pode enfrentar uma alíquota total ainda maior caso a sobretaxa seja acumulada com medidas discutidas em outra investigação comercial dos Estados Unidos.
Dias antes da confirmação do tarifaço, o Conselho Nacional de Política Energética aprovou o aumento temporário da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%. A medida terá duração inicial de 180 dias e poderá ser prorrogada.
A decisão não foi apresentada como resposta direta ao tarifaço. Foi adotada diante da instabilidade do mercado internacional de petróleo e da necessidade de ampliar a segurança energética brasileira. Seus efeitos, porém, criam uma proteção adicional para o setor sucroenergético. O E32 deve elevar em cerca de 1 bilhão de litros por ano a demanda interna por etanol e reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros a necessidade de importação de gasolina.
Pix vira pretexto em disputa comercial
A tarifa encerra uma investigação iniciada pelo USTR em julho de 2025. Formalmente, o processo reúne acusações sobre comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, mercado de etanol e desmatamento ilegal.
O Pix aparece entre os principais pontos de pressão. O USTR sustenta que o Banco Central favorece o sistema público em prejuízo de empresas norte-americanas. A Federação Brasileira de Bancos contestou a acusação. Em nota, a Febraban afirmou que o Pix é uma infraestrutura aberta e não discriminatória, disponível para bancos, fintechs e instituições nacionais ou estrangeiras autorizadas a operar no Brasil.
A defesa do Pix expõe outro aspecto do Custo EUA. Uma tecnologia pública que reduziu o preço das transações financeiras e ampliou a concorrência passou a ser tratada como obstáculo comercial porque disputa espaço com operadoras de cartões e empresas de tecnologia dos Estados Unidos.
O governo brasileiro anunciou o início dos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica e informou que levará o caso à Organização Mundial do Comércio. Ainda não foram definidas tarifas de resposta. A prioridade imediata permanece na negociação de novas exceções e na proteção dos setores atingidos.
Pressão externa entra na disputa eleitoral
A crise comercial também foi atravessada pela eleição brasileira. Em julho, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro participou, ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, de uma audiência pública do USTR em Washington. Em vez de pedir a retirada da proposta, Flávio solicitou seu adiamento e argumentou que a aplicação naquele momento poderia favorecer eleitoralmente Lula e aproximar o Brasil da China.
A manifestação levou uma consideração de campanha a uma audiência destinada a avaliar os efeitos econômicos da tarifa. A investigação havia começado antes da participação de Flávio, mas sua atuação inseriu abertamente o calendário eleitoral brasileiro no debate comercial com os Estados Unidos. Para 51% dos entrevistados pela Genial/Quaest, o senador apoiou o tarifaço para prejudicar o governo federal; 63% disseram acreditar que a medida poderia afetar sua vida ou a de sua família.
A resposta de Lula tem combinado defesa da soberania e manutenção do diálogo. “Nós vamos mostrar que contra o Brasil ninguém ganha mentindo”, afirmou o presidente. Em outra declaração, reforçou que o país não tem interesse em uma guerra comercial e que pretende disputar “a guerra da verdade” sobre as relações entre os dois países.
Nesta segunda-feira, 20, o governo publicou uma imagem das bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos de mãos dadas para marcar o Dia da Amizade. A postagem também reuniu China, União Europeia, Argentina e Índia. A tarifa começa a ser cobrada em 22 de julho, enquanto permanecem abertas as negociações por novas isenções.